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Estado de Minas PAULO DELGADO

Harmonia, religião e política no Natal e na China dos dias de hoje

Uma história que não pode passar em branco nesse Natal é o caso de Lai Chee Ying. Conhecido como Jimmy Lai,empresário chinês, católico, dono da NextDigital


20/12/2020 04:00 - atualizado 20/12/2020 07:11

O empresário Jimmy Lai foi preso pelo regime chinês pode resistir à restrição da liberdade imposta sobre Hong Kong(foto: Isaac Lawrence - 3/9/20)
O empresário Jimmy Lai foi preso pelo regime chinês pode resistir à restrição da liberdade imposta sobre Hong Kong (foto: Isaac Lawrence - 3/9/20)
Só o fraco precisa aparecer para demonstrar poder. O uso arbitrário da força é o mais claro sintoma de regime inseguro. Quando a legitimidade existe ela advém da aceitação do que chamamos hegemonia. E esta nunca haverá com injustiça, piora da vida, falta de liberdade e respeito para com todos.

A força majestosa do Natal decorre em parte da reação à política. A história de aflições desencadeadas por um governante fraco, Herodes, que usa a brutalidade para tentar se livrar do pesadelo que é ver sua legitimidade contestada por um menino. Mas tudo o que fez foi em vão.

Depois dos Romanos, se sucederam bizantinos, persas, árabes, cruzados europeus, califados turcos, 400 anos dentro do Império Otomano, britânicos, até o atual Estado de Israel. Enquanto isso, as ideias e as ações do menino marcado para morrer – o qual sequer deixou escrita uma linha de texto – seguem por aí influenciando o mundo, mais do que qualquer outra ideologia.

Uma história que não pode passar em branco nesse Natal é o caso de Lai Chee Ying. Conhecido como Jimmy Lai, ele é um empresário chinês, católico, dono da NextDigital,  conglomerado de mídia em Hong Kong e Taiwan. Lai ficou multimilionário ao liderar a expansão dos tabloides como veículo de comunicação em Hong Kong. Usou suas empresas para defender abertamente um não retrocesso ao autoritarismo em sua cidade-estado.  Lai vai passar o Natal na cadeia acusado de seja lá o que for necessário para manter preso um estorvo na visão de Pequim.

Curiosamente, Lai insiste que sua determinação em desafiar uma escalada autoritária ordenada por Pequim vem da sua compreensão instintiva da fé católica. Uma consciência sobre a necessidade de resistir à restrição de liberdade, entre as quais a de culto é apenas uma. Ao longo da história o catolicismo já legitimou autoritarismos, mas o que fica na história é a religião montada em torno de uma família de bem perseguida por um estado autoritário.

Nesse sentido, fez muito bem o jovem chanceler britânico, Dominic Raab, filho de um judeu fugido da então Checoslováquia, em afirmar que as ações contra Jimmy Lai violam a Declaração Conjunta entre China e Reino Unido na ocasião de retorno de Hong Kong para a China.

Pode-se discutir o gosto duvidoso dos tabloides, mas não é razão para prisão. É verdade que Hong Kong, e outros países, vem sendo alvos de ataques para desestabilização de governos e regimes – uma espécie de marginalidade digital identificada pelo STF e que também atua no Brasil. Não se trata de direito de opinião. Diferente de cidadãos que expressam, sem violência ou fake news, seus argumentos sobre como a sociedade em que vivem pode ser aperfeiçoada. Lai não espalhava mentira e ódio com grana oculta, apenas defendia a democracia prevista em lei.

No pensamento chinês, a hegemonia é normalmente definida como harmonia. Ainda que o Partido Comunista da China (PCC) se orgulhe de ser um partido ateu – o que é diferente de ser laico e objetivamente é uma não crença crente – o artigo 36 da Constituição da China garante a liberdade religiosa. Mais do que isso, boa parte de seus líderes encontra conforto em práticas e lideranças espirituais.

Xi Jinping mesmo teve ao longo da vida uma relação especial com o templo Linji. Situado no interior de Hebei que é a província que envolve Pequim por quase todos os lados, o templo foi reconstruído enquanto Xi começava sua carreira na região. Uma das características mais interessantes da escola de budismo organizada em torno de Linji (chamada de Zen no Japão, e como a escola é conhecida no Brasil) é sua iconoclastia.

Linji foi um mestre do século 9 que serviu para reformar o budismo como os apóstolos de Cristo reformaram o judaísmo, a reforma protestante reformou o cristianismo, e o Concílio Vaticano II reformou o catolicismo. A iconoclastia de Linji ocorre por criticar fés e espiritualidades que se tornam religiões cheias de regras e estruturas de poder. Quando igreja vira partido a coisa se complica. Mas se o partido vira igreja é muito pior. Acho que Xi precisava refletir sobre isso.

O ex-presidente Hu Jintao em nome da liberdade religiosa teve uma especial simpatia com o budismo como parte da construção da harmonia interna do país e do país no mundo. Atualmente, o governo chinês anda ansioso e suspeito de tudo, um tanto quanto desarmonizado. No caso de Jimmy Lai vemos alguém que coloca sua fortuna material em risco em prol da liberdade e contra a opressão. Pequim pode fazer melhor do que a religião do PCC está agindo nesse caso. Pode garantir a integridade territorial de Hong Kong sem fazer com que o uso arbitrário da força sobre um íntegro Lai exponha e acentue sua desarmonia. (Com Henrique Delgado)

Boas Festas e um necessário Ano Novo.

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