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Estado de Minas Comportamento

Sobre a dor do outro

'Se dói em alguém, não deve ser motivo de chacota'


06/03/2022 04:00

Ilustração
(foto: Pixabay)

 
Outro dia li, sobre o suicídio de um menino de 12 anos. Tudo indicava que a razão que o levara a tamanho desespero teria sido o fato de não suportar mais ser vítima de bullying na escola. Sabiamente, a reportagem não deixou claro o que ele tinha ou como se comportava para ser visto como alguém que merecesse ser um pária, simplesmente porque nunca há uma justificativa para tal. Ou não deveria haver.
 
Frequentemente, ouço adultos dizerem que esse problema não existia antigamente e que todo mundo sofria bullying de alguma forma e no final todos sobreviviam. Essa visão reducionista nos empobrece a ponto de nos fazer acreditar que somos capazes de entender tudo que se passa ao nosso redor, mesmo sem nunca ter ocupado o lugar de fala de todos os outros.
 
Quem não ouviu dizer que o bullying ajuda os meninos a serem mais fortes e terem reações assertivas mais tarde? Porém, ninguém pergunta se suas vítimas escolheriam outra forma menos traumática e preconceituosa de sobreviver aos ataques que o mundo lhes reservou. 
 
O branco que tem um amigo negro acha que isso o torna não racista; o hétero que acha graça no amigo homo da filha não consegue ver quando está sendo homofóbico; o rico que emprega um funcionário pobre em sua casa se vê facilmente como sendo apoiador de causas sociais. E assim consideramos o Brasil o país sem grandes problemas nessa área. Afinal, somos um grande exemplo de misturas de tudo o que a civilização humana foi e é capaz de produzir (de bom, claro!). 
 
O problema maior é que acreditávamos que aquele menino ao qual a escola toda apelidava de gordo, quatro olhos, deixa que eu chuto, pretinho, girafa, burro deveria lidar bem com isso porque fazia parte da realidade dele. Ou seja, o gordo era gordo mesmo e assim por diante. A questão é como a sociedade via e vê cada uma dessas características e como as usamos para depreciar o outro na tentativa de nos valorizar. Percebe-se isso claramente quando alguém diz que tudo isso é bobagem, pois não passa de brincadeira de criança. 
 
Se dói em alguém, não deve ser motivo de chacota e o que dói normalmente é o que deprecia. Chamar uma menina de linda, inteligente, dizer que ela tem bom gosto, que cheira bem pode causar constrangimento, porém dificilmente causará dor, pois são adjetivos que valorizam. 
 
Lembro-me de um aluno que tive que aos 14 anos trancou a porta do quarto e pulou do 9º andar do prédio onde morava com a família. Morreu tão logo atingiu o solo. Tento imaginar a dor dos pais dele ao pensar no que poderiam ter feito para evitar que ele escolhesse esse caminho como sendo o mais fácil para lidar com todos os ataques que ele sofria por ter trejeitos afeminados e desejos homossexuais. Sou capaz de apostar que se alguém devia ao jovem um pedido de desculpas, esse alguém não era nenhum membro de sua família. Mas todo o resto. 

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