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Estado de Minas Comportamento

Mantendo a tradição

De lá, ganha-se o mundo%u2019


27/09/2020 04:00


 
Recentemente, estive na península de Maraú, pouco acima de Ilhéus, na Bahia. Vamos lá com frequência, pois um dos irmãos de meu marido e a esposa, após se aposentar, decidiram para lá se mudar. Há na região uma ilha que gosto muito de visitar. Não está na rota de turistas em busca de praia, sol, caipirinha e comida baiana, mas o horizonte que se avista quando ela desponta no meio de tanto mar me encanta demais, não apenas por sua beleza natural, mas principalmente pelo trabalho que lá é realizado há décadas e vem sendo passado de geração a geração.
 
Cajaíba é uma das ilhas da Bacia de Camamu, cidade de onde partem balsas e lanchas que fazem o transporte aquático de nativos e turistas, levando e trazendo quem por lá se move. Há décadas, a ilha é povoada por basicamente duas famílias que aos poucos vão agregando outras.
A especialidade é construir e reparar todo tipo de embarcação que possa ser feita em madeira. E de lá ganham o mundo, literalmente falando. Muitas encomendas vêm do estado do Rio de Janeiro, em especial da região de Angra dos Reis, mas há sempre ao menos uma que segue para outro continente.
 
Ao descer no pequeno porto, atravessa-se uma longa passarela até que se chegue à rua defronte ao mar. Não há faixa de areia, muito menos banhistas e pescadores. Ao se colocar o pé na terra já se está no estaleiro. Dezenas de barcos em reforma ou construção, em várias fases, diversos tamanhos para todo tipo de cliente.
 
São considerados artesãos seus construtores, pois o maquinário básico de uma marcenaria é o que utilizam. Serra elétrica de todo tamanho, formão, tupia, furadeira, desengrossadeira, desempenadeira, plaina, muitos martelos.  Nada de eletrônica, projetos 3D, informática. Não que a ilha viva na era da pré-história tecnológica. Mas este tipo de modernidade ainda não se fez necessário para converter, com mãos hábeis, troncos de madeira em obras de arte flutuantes.
 
Os próprios artesãos mostram seus feitos aos visitantes. No momento, os maiores que estão em construção têm capacidade para até 200 pessoas cada. Espécies de escuna, sendo que duas seguirão para a África, para atender a agências que fazem passeios turísticos e uma terceira tomará o rumo da Inglaterra.
 
É possível ver a estrutura dos barcos, espécies que costela que serão revestidas por pranchões de madeira tratada. Explicam-nos que usam fogo e água para “entortar” e “envergar” os pranchões de madeira até que cheguem na curvatura desejada para o contorno da embarcação.
 
O solo, misto de areia, concha e serragem, nos dá a impressão de que a base de tudo aquilo ali é macia, a mesma sensação de leveza percebida nas palavras que cada artesão utiliza para demonstrar o orgulho de fazer parte de toda aquela engrenagem. Talvez todo este orgulho explique o fato de haver sempre jovens lá nascidos e criados que fazem questão de manter uma tradição artesanal num mundo há muito dominado pela tecnologia.

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