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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Uma história

precisamos e não permitimos que cuidem de nós%u201D


postado em 29/03/2020 04:00


 
Quando criança meu sogro viu chegar à cidade de Pará de Minas uma comitiva para a inauguração da estação de trem. Chegaram em um carro elegante os poderosos a começar pelo prefeito, um secretário de estado, o delegado e o médico. Ele, nascido em 1917 crescera numa fazenda de onde só saiu adulto exatamente para estudar medicina em Belo Horizonte. Até então se identificava como retireiro, espécie de faz tudo rural. E foi a célebre figura do médico que ele avistara naquele dia que o fizera escolher essa carreira.
 
Se tornou coronel médico da Polícia Militar, indo morar na região do bairro Santa Efigênia, bem próximo ao hospital e à corporação. Era médico do bairro todo, atendia no hospital, no consultório que ficava no mesmo terreno de sua casa e a domicílio, quando o paciente não podia se locomover ou a urgência ocorria tarde demais para as pessoas saírem de casa. Atendia a quem podia pagar, a quem não pagava, a quem lhe dava queijo, galinha sendo que tratava a todos com muita satisfação.
Ainda pequeno, meu marido, o quarto de seis filhos, adorava quando ouvia o telefone tocar de madrugada e percebia que seu pai respondia: “já vou, em poucos minutos estarei aí”. Pacientemente o esperava trocar de roupa, pegar a mala com os instrumentos, descer as escadas e fechar o portão. Naquele momento pulava de sua cama e se aconchegava ao lado da mãe, até ser surpreendido com o pai de volta, muitas vezes junto com o sol, que logo o colocava para correr.
 
Diz meu marido, grande contador de histórias que adora colocar na boca do pai todo tipo de prosa, as que ele realmente falou e as que podem até ser que ele um dia tenha pensado em falar, conta que em uma de suas andanças, Seu Geraldo, ou Vovô Geraldo, como me acostumei a chamá-lo depois que meus filhos nasceram, foi chamado a ver um paciente antigo. Já era mais velho, alcoólatra que deixava o vício consumir sua vida, apesar dos avisos constantes para parar de beber.
 
Naquela noite, encontrara seu paciente muito debilitado, mas sentia que a vida ainda lhe daria uma última chance. E, apegado a esta ideia, decidiu lhe dar um ultimato:
- Seu João, não virei mais aqui vê-lo caso o senhor insista em não largar a bebida. O senhor não se preocupa com a dona Maria, com seus filhos? Não adianta mais me chamar, visto que a única pessoa que pode mudar essa situação é o senhor. De minha parte não há mais nada a fazer. Aliás, continuou o médico, virei apenas para ajudar sua esposa com seu enterro.
 
- Vamos fazer uma coisa, doutor Geraldo, contra argumentou o paciente. Uma coisa boa para mim e para o senhor. Deixa o dinheiro que acha que vai gastar com meu enterro aqui nessa mesinha e o senhor fica dispensado de ir ao meu enterro.
 
E não é que, de uma forma ou de outra, nos propomos e aos outros o mesmo, quando precisamos e não permitimos que cuidem de nós?

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