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Estado de Minas

No alto do monte

"Revigorados por momentos no alto do monte, saberemos que quando não houver caminho nem um lugar para chegar, recomeçaremos tendo paciência"


31/07/2022 04:00

Ilustração

 
Estávamos em junho, longe do frio que nos levava aos agasalhos, eu e um grupo de peregrinos embaixo de um calor que convidava ao azul do céu e nos contava histórias sagradas, ouvindo um guia encantado com as pequenas cidades onde viveu um certo Jesus de Nazaré. Não sabíamos, então, que 2018 seria nossa última viagem a Israel, impedidos pela pandemia. Agora, o povo de Deus se permite a fazer planos, como uma viagem em 2023 até aquele país, onde os mineiros começarão pelo Mar Morto e terminarão com um delicado cálice de madeira brindando com vinho a chegada a Jerusalém, na parte mais alta do Jardim das Oliveiras.
 
Hoje, conversamos sobre o sábado que encerrará a semana com a solenidade da Transfiguração de Jesus. Há quatro anos fomos lá, subindo o bondinho que nos levaria ao Monte Tabor, essa montanha sagrada, que vista de baixo parece majestosa com sua forma, características pitorescas e sua esplendorosa vegetação que a torna singular em toda a Terra Santa. A 588 metros acima do nível do mar, o Tabor é uma cadeia de montanhas de rocha calcária, proporcionando uma visão panorâmica incrível do Mar da Galileia. Para quem sobe a pé, a estrada segue nas laterais da montanha cobertas por carvalhos, pinheiros e alfarrobeiras.
 
No cume, as três capelas que os cristãos construíram e desconstruíram várias vezes ao longo dos séculos foram incorporadas na basílica com as duas torres bizantinas acima da fachada, construída pelos frades franciscanos e projetada pelo arquiteto Barluzzi. A singeleza do local parece ter sido feita para que a alma se acalme e a memória não se desfaça. A Igreja da Transfiguração mostra que o arquiteto e monge  franciscano Barluzzi conseguiu o que Pedro tentou sem sucesso: ao lado do altar de Cristo estão as capelas de Elias, de um lado, e de Moisés, do outro. Depois do susto com Jesus transfigurado, Pedro não queria armar três tendas para eles ali.
 
A Transfiguração mostra Jesus com o rosto brilhante como o sol, vestes brancas como a neve, expressões bíblicas para dizer que se trata de uma revelação de Deus. Jesus pertence ao mundo celeste, ao mundo divino, ao mundo dos justos. No alto do monte, diante de Pedro, João e Tiago, o Mestre concede-lhes a graça de verem e viverem a sua glória, de forma antecipada. As duas figuras mais significativas do Antigo Testamento aparecem: Moisés, representando a lei de Deus, os mandamentos e a Aliança, e Elias, o maior dos profetas. Com sono, já que as peregrinações aos montes eram feitas à noite, por causa do calor, os discípulos ouviram, viram, contemplaram e foram tocados por Jesus.
 
Todo ano, na noite de 5 de agosto, há um Tabor iluminado recebendo os cristãos locais que sobem ao monte para a vigília da Transfiguração, revivendo onde Jesus compartilhou um momento tão extraordinário com três dos seus discípulos. Nos espaços da basílica há tendas com camas e alimentos. De manhã bem cedo, após 20 quilômetros e quatro horas de caminhada, uma neblina traz de volta a memória de uma luz brilhante que envolveu todo o local naquele dia. Quando o sol já está alto, a basílica fica lotada de fiéis vindos de toda a Terra Santa e de grupos de peregrinos para a missa celebrada em árabe e latim no ofício festivo da Transfiguração do Senhor.
 
No evangelho, Pedro quer deter o momento, ficar mais, armar tendas. Mas é preciso descer à planície, pois lá embaixo serpenteia a estrada que leva a Jerusalém, onde está o caminho, a missão e o serviço. Somos convidados também a chegarmos na véspera ao monte, acendendo a noite para que ela não nos intimide, intercalando o silêncio com a música como se convivessem como amigos. Na manhã seguinte, pegaremos a nuvenzinha na palma da mão, lembrando que “é tão bom estarmos aqui”, meditando os profetas sobre o branco da veste e o sol no rosto. E voltaremos para a planície, onde corre a vida nossa de cada dia.  Revigorados por momentos no alto do monte, saberemos que quando não houver caminho nem um lugar para chegar, recomeçaremos tendo paciência como um agricultor que espera os frutos que virão da terra.

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