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O centro do tempo

O que seria de nós se Lucas não nos alertasse que o lugar por excelência da revelação de Deus é a pessoa de Jesus?'


24/10/2021 04:00


O que seria de nós se não houvesse nascido o pequeno Lucas, na Antioquia da Síria, educado no paganismo, convertido ao cristianismo e por possuir maior cultura que os outros evangelistas, utilizar em seu livro linguagem mais aprimorada e perfeito domínio do idioma grego? O que seria de nós se Lucas não fosse médico, empregando palavras que indicam sua familiaridade com a linguagem médica de seu tempo, chamado por Paulo de “o médico amado”? E se, além dessa profissão, não tivesse o dom de saber pintar, retratando inclusive os apóstolos Pedro e Paulo?

O que seria de nós se Lucas não tivesse sido o grande autor de dois livros do Novo Testamento: o Terceiro Evangelho e o Atos dos Apóstolos, que detalham a Igreja nos tempos de 35 a 63 d.C., demonstrando um estilo de prosa soberbo e a postura de quem presenciou a fé?
 
 
 
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O que seria de nós se Lucas não tivesse se empenhado em devolver às mulheres a dignidade pouco considerada na época, dando-lhes destaque, como fez com a viúva de Naim, ou a visita às irmãs Marta e Maria? Ou o que melhor revela a misericórdia do Mestre, como na parábola da dracma perdida, e no jantar na casa de Zaqueu? O Lucas que prega que a prática é decisiva (“... o que devemos fazer”?, “façam coisas”). O que seria de nós se não houvesse Lucas para, com sua sensibilidade, ser o único a narrar a saudação angélica, a Ave-Maria, O Magnificat, o Benedictus (canto de Zacarias), o Nunc Dimittis (cântico de Simeão), uma poesia que enfatiza o chamado para a oração, a pobreza, a pureza de coração, que teria um apelo específico aos gentios?

O que seria de nós se por essa relação tão próxima a Maria e sua paixão pela pintura não fosse atribuída a São Lucas a primeira imagem da Virgem? A tradição conta que ele a retratou enquanto ela relatava, com amor, tudo o que tinha acontecido com seu filho, Jesus. Uma interpretação mais forte da tradição romana atribui ao santo a imagem “Salus populi romani”, que teria sido pintada em um pedaço de madeira da mesa utilizada na última ceia de Jesus. Somente no livro de Lucas podemos encontrar afirmações íntimas sobre a Virgem, como “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração”.

O que seria de nós se os estudiosos não tivessem dito que em Jesus, e com ele, o tempo chegara ao seu centro, já com um livro sobre Lucas: “O centro do tempo”? Os argumentos que sustentaram essa tese se apoiaram sobre a ênfase dada à palavra hoje, que aparece 12 vezes nesse evangelho, como em “pois, me convém ficar hoje em sua casa”, “hoje estarás comigo no paraíso”. O tempo de Deus é o “hoje” da história. É claro que a palavra “hoje” não tem o mesmo sentido em todos esses versículos, mas o fato de aparecer tantas vezes demonstra como o Jesus apresentado por Lucas valoriza o hoje, o aqui e agora. Como diz Rubem Alves no livro “Tempus fugit”: “Só descobrimos a beleza do momento presente, do hoje e do agora, quando descobrimos que o tempo é fugidio, escorre, passa e não volta nunca mais. Quando chegamos a essa descoberta, passamos a viver com intensidade cada minuto e cada segundo da nossa vida”. Eis um dos traços da teologia lucana.

O que seria de nós se certas passagens dos Atos, escritos na primeira pessoa do plural, não fossem usadas para indicar que São Lucas ali estava com São Paulo, em parte da sua segunda jornada missionária, e sem dúvida na viagem que ambos fizeram à Itália e estavam juntos quando o navio naufragou ao largo da costa de Malta? São Paulo diz nas suas cartas quando preso: “Lucas é a minha única companhia”. Durante o martírio de Paulo, Lucas nunca saiu do seu lado e o acompanhou até o fim, no ano 68, em Roma.

O que seria de nós se Lucas não nos alertasse de que o lugar por excelência da revelação de Deus é a pessoa de Jesus? O Menino Jesus é reconhecido como “bendito”: na sua humanidade “visita” o seu povo e toda a humanidade. Deus, em Jesus, visita amorosamente o povo e dá início, assim, a um tempo de salvação, paz, reconciliação e perdão. Celebrado em 18 de outubro, o que seria de nós se Lucas não fosse a lâmpada para os nossos pés e a luz para o nosso caminho? O que seria de nós sem Lucas?

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