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Estado de Minas ENTRE LINHAS

Espelhadas em Trump, políticas externa e ambiental do Brasil fracassam

Palácio do Planalto joga por terra respeito e tradição da diplomacia brasileira, assim como posições importantes no Acordo de Paris


22/12/2020 04:00 - atualizado 22/12/2020 07:44

Paralelo do governo de Bolsonaro com a gestão de Donald Trump, nos EUA, mostra erros repetidos (foto: Isac Nóbrega/PR)
Paralelo do governo de Bolsonaro com a gestão de Donald Trump, nos EUA, mostra erros repetidos (foto: Isac Nóbrega/PR)
 
 
Instigante artigo do ex-chanceler Celso Lafer, professor emérito da Faculdade do Largo do São Francisco (Direito-USP), publicado no último domingo, no Estado de São Paulo, faz um diagnóstico político preciso do governo de Donald Trump, que merece muita reflexão entre nós, pelo paralelo que podemos projetar, a partir do texto, para o governo do presidente Jair Bolsonaro.

O “mote”do artigo é uma carta enviada em 1975 pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, à filósofa judia-alemã Hannah Arendt, autora de Origens do Totalitarismo (Companhia de Bolso) e a A Condição Humana (Forense Universitária), na qual solicita à escritora que lhe envie o texto de uma palestra que fizera nas comemorações do bicentenário da independência dos Estados Unidos.

Intitulada Tiro pela culatra, na tradução para o português, seu texto foi publicado no Brasil, na coletânea Responsabilidade e Julgamento (Companhia das Letras), organizada por Jerome Kohn.

Lafer destaca a iniciativa de Biden, quando integrante da Comissão de Relações Exteriores do Senado, como uma espécie de preocupação germinal do que pode vir a ser a linha de atuação do novo presidente dos Estados Unidos, de resto já anunciada na campanha eleitoral. O texto de Arendt trata da crise do governo Nixon e da degenerescência da política norte-americana nos anos 1970, cujos elementos se reproduzem durante o governo Trump, na visão de Lafer:

(1) a mentira por princípio, para manipular o Congresso e o povo americanos e nesse caminho pôr em questão a credibilidade dos EUA perante outros Estados;

(2) o empenho em abolir qualquer lei, constitucional ou não, que se interpusesse aos objetivos da presidência;

(3) o inserir da criminalidade nos processos políticos do país;

(4) o valer-se do “privilégio do Executivo” para proteger os colaboradores atraídos pela aura do poder;

(5) o não aceitar a derrota, qualquer derrota, da maior potência sobre a Terra, cujo poder estava em declínio;

(6) o equívoco de respaldar uma economia de desperdício, sem atentar para “as ameaças ao nosso ambiente” (Arendt);

(7) o cobrir com um tecido de mentiras os problemas do desemprego e da automação.

Espelho quebrado

A dimensão histórica da vitória de Biden vem sendo destacada não somente por Lafer como por outros analistas da cena brasileira. Sua repercussão na política mundial já se faz sentir, em todos os aspectos, inclusive em relação à pandemia de COVID—19. Como ignorar, por exemplo, o gesto de ontem, quando novo presidente dos Estados Unidos foi a um posto de saúde de sua cidade para tomar a vacina da Pfizer-Biontech? Quanta diferença em relação ao nosso presidente da República, que já disse e repetiu que não vai tomar e vacina e põe em dúvida a eficácia e segurança de qualquer uma delas. A troca de comando e rumo nos Estados Unidos, porém, transcende esse plano imediato das políticas públicas: a prática dos costumes democráticos repercute no fortalecimento das instituições republicanas e servem de exemplo para o mundo.

“A campanha eleitoral americana deste ano teve entre suas características uma batalha pela “alma” dos Estados Unidos”, destaca Lafer. Nessa batalha, Biden personificou os valores e as instituições americanas, suas práticas e seus costumes. “Foi uma contraposição aos modos de proceder da presidência Donald Trump, que trouxe com o personalismo do seu bullying a erosão generalizada do soft power de atração dos Estados Unidos.”

E aqui no Brasil? É impressionante como Donald Trump serviu de espelho para o presidente Jair Bolsonaro, nas mais diversas áreas. Na política externa brasileira, por exemplo, toda a respeitabilidade de nossa diplomacia está sendo jogada pela janela, apesar de sua cultura secular, cujas raízes são as negociações com os países vizinhos, nas quais garantimos a consolidação de nossas fronteiras, sem derramamento de sangue. Ou na questão ambiental,  na qual nosso protagonismo, da Rio-92 ao Acordo de Paris, deu lugar à vexatória condição de “pária” internacional, nas palavras do chanceler Ernesto Araújo.

As mentiras (1), as afrontas legais aos demais poderes(2), a promiscuidade com as milícias e outras atividades transgressoras (3), a proteção aos apaniguados (4), o não-reconhecimento dos fracassos (5), os incentivos à grilagem de terras, ao garimpo ilegal e ao desmatamento (6) e a terceirização dos problemas nacionais (7) tecem impressionante paralelo do governo Bolsonaro com o governo Trump (derrotado na reeleição), a partir da crítica de Hannah Arendt à degradação política do governo de Nixon (afastado por impeachment). Com a vitória de Joe Biden, esse espelho se quebrou.


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