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Estado de Minas COLUNA HIT

Músico do quarteto Mineiros da Lua revela como enfrenta a pandemia

Haroldo Bontempo Cardoso Júnior cita Chico Buarque ao dizer que vai levando 'de teimoso e de pirraça' os desafios impostos pela COVID-19


01/05/2021 04:00

Haroldo Bontempo Cardoso Júnior
Compositor, integrante do quarteto Mineiros da Lua



“Quando você coloca água num copo, a água adota a forma do copo. Quando você coloca numa bacia, ela adota a forma da bacia. Seja como a água, meu amigo.” Essas palavras foram proferidas pelo ilustríssimo ator e artista marcial Bruce Lee, numa entrevista concedida décadas atrás. Desde março do ano passado, essas palavras vêm e vão pelos meus pensamentos. Acho que tudo é uma questão de adaptação, não é? Desde muito novo, escuto da minha família que “até com o que é ruim a gente se acostuma’’. O ser humano é muito forte, diariamente testemunho isso.

Aconteceu comigo, com vários amigos e imagino que com muito mais gente, mas a pandemia da COVID-19 me pegou num momento de muitos planos. Mesmo que o cenário socioeconômico brasileiro tenha feito muita gente sonhar cada vez menos, eu conseguia contornar a situação e estava produzindo, junto ao meu grande amigo Elias Sadala, um novo festival de música alternativa para Belo Horizonte. Ia ser coisa grande! Artistas renomados, line up supereclético e preços populares. As datas estavam confirmadas, estava tudo fechado, só faltava assinar os contratos e começar os pagamentos e preparativos, mas nossa senhora natureza teve outros planos.

"A grande lição, se é que existe alguma, é que, mesmo fortes, somos muito incompletos"



Faço parte de um grupo extremamente prejudicado pelas medidas de isolamento social, o grupo dos artistas e produtores de eventos. Fomos os primeiros a parar de trabalhar e seremos os últimos a voltar, mas isso eu digo com orgulho, essa é a demanda dos tempos. Embora tenhamos lives, Lei Aldir Blanc e nossa invejável criatividade, é consenso que o mercado está em coma, e também que nossa inspiração está cada vez menor.

Há cada vez mais conhecidos doentes, morrendo sem sepultamento digno e testemunhando um exemplo de indiferença nunca antes visto do governo em relação ao seu povo. O Brasil é hoje aquela criança que chora escondida no canto do banheiro, pois teme que se a mãe ou pai achá-la a situação piora.

Mas, como canta Chico, “muita mutreta pra levar a situação/ que a gente vai levando de teimoso e de pirraça’’. Por mais que tenha aversão ao discurso good vibes vazio, acredito que nos resta respirar fundo, levantar a cabeça e tentar tirar o melhor com o que temos (definitivamente, a especialidade do brasileiro).

Por aqui, tenho inventado novos hábitos, jogos virtuais, o facetime com amigos tem aliviado bastante a saudade da mesa de bar. Também estou praticando o autocuidado – entenda-se autocuidado como viver devagar. Honrar as responsabilidades de trabalho e estudo sempre, mas prestar mais atenção no eu, no que como, no meu corpo, na minha casa.

Tive o privilégio de voltar para a casa de mamãe no interior, o contato com a natureza é fundamental, acredite! Tenho plantado muito manjericão, alecrim, maracujá. É catártico ver as mudas crescendo, mostrando com toda a sutileza suas demandas, e com toda a elegância nos presenteando com cheiros, gostos, flores lindas e momentos de foco.

"Por mais que tenha aversão ao discurso good vibes vazio, acredito que nos resta respirar fundo, levantar a cabeça e tentar tirar o melhor com o que temos"



Acho também que é hora de tentar mudar velhos hábitos. Tenho uma banda de rock chamada Mineiros da Lua, e nosso processo de composição sempre foi bem fixo. O isolamento poderia ser o nosso fim, mas encontramos a plataforma SoundTrap, recém-criada pela plataforma Spotify, que permite compartilhar produções musicais ao vivo (para quem conhece, é um software análogo ao ProTools, Ableton e tal). Estamos terminando nosso segundo álbum, completamente gravado a distância! No início, eu estava supercínico, mas depois de me acostumar me diverti muito. O produto final é, de longe, o nosso melhor trabalho!

Queria repetir que o ser humano é muito forte, nossos limites estão sendo sempre testados e sempre me surpreendo. Para mim, a grande lição, se é que existe alguma, é que, mesmo fortes, somos muito incompletos. A gente precisa. Precisamos tanto dos outros quanto de nós mesmos, a gente sempre pode se cuidar um pouco mais e sempre pode cuidar do outro um pouco mais – agora mais do que nunca.

De certa forma, tá todo mundo contando com você fazer sua parte (ficar calmo e em casa), assim como você (ou eu) está contando com a parte dos outros como um todo. Pela primeira vez em muito tempo, todos os seres humanos estão em uma treta em comum, e por mais que a saída seja o isolamento momentâneo, não deixa de ser um momento de união.

Espero que você que está lendo esteja calmo e se cuidando. Garanto que tem bastante gente se esforçando para cuidar de você de alguma forma, e que isso tudo vai passar! Guardo para depois nosso abraço. Desejo a você toda a força que puder.

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