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Estado de Minas NOVO NORMAL

Empatia e solidariedade, as duas lições que aprendi durante a pandemia

O diretor teatral e gestor cultural Carlos Gradim conta, na seção 'Vivendo e aprendendo' da coluna Hit, as redescobertas que fez durante o confinamento social


30/01/2021 04:00

Carlos Gradim
Diretor teatral e gestor cultural


Mais tarde, quando tudo não passar de uma lembrança no nosso imaginário cansado, esse 2020 talvez seja lembrado como o ano em que ficamos em casa.

Para alguns, o recolhimento obrigatório significou uma chance de redescobrir e reinventar os usos práticos e afetivos de suas moradias. Para outros, o isolamento social é uma realidade independente da própria pandemia. Estou falando de gente que vive isolada no conforto de uma boa casa, de um bom salário e um bom emprego, de uma infraestrutura capaz de lhes permitir ficar em casa para se esconder da morte e da infâmia causadas pelos vírus e vermes que parecem querer dizimar a parte mais sofrida – exatamente a parte mais sofrida! – da nossa raça brasileira. E para além desses, os que desejam, mas não podem, se manter em casa em decorrência de seus ofícios ou aqueles que, simplesmente, não querem se isolar.

Privilegiado, faço parte dos que redescobriram, no conforto da minha casa. Retirei velhos livros não lidos, filmes estacionados na lista de desejos. Passei a perceber cada risco na pintura das paredes, as gorduras impregnadas nos azulejos, e a melhor descoberta: o prazer de cozinhar. Que alegria!!!! Fiquei seduzido com as cores vivas dos ingredientes. O vermelho do tomate, o roxo da berinjela, o amarelo da cenoura, e assim fui me perdendo e me encontrando na alquimia dos temperos.

E mais, as viagens... As paisagens...

Na tentativa de me esconder da morte, deixei os aeroportos e me aventurei nas estradas. As nuvens, ou flocos de algodão como as via em minha infância distante, deram lugar a lindas paisagens. Solitárias, silenciosas, deslumbrantes em sua diversidade de tonalidades, quietas quase como em uma tela de Van Gogh. Uma sensação de déjà vu tomou conta de mim. Retornei a um passado empoeirado de minha memória. Esse novo cotidiano passou a me acalmar a alma e a me fazer esquecer, por algum tempo, os pensamentos doidos dos noticiários, a média móvel de mortes que ecoavam insistentemente em minha cabeça exausta!! Exausta do medo. Exausta do negacionismo. Daqueles que acreditam na terra plana.

Mas não é só isso.

Foi em um dia de feriado. Últimos dias do meu inferno astral. Fui ao supermercado. Retornei. Lavei as mãos com sabão, tirei a máscara, higienizei as compras e mãos à obra. Limpar a casa. Tarefa de pandemia. Entre uma torcida de pano, uma vassourada e espanar de pó, ufa, cansaço. Muito cansaço. Estranho. Uma respiração pesada. Uma leve dor no peito e acima dos olhos, como sinusite. Continuei. O ar parecia pesado. Para finalizar, abro um vidro de desinfetante. Nenhum cheiro. O diagnóstico!!! Dezesseis dias sem olfato e sintomas leves. Medo. Medo? Rotina solitária ao lado do oxímetro e as estatísticas desoladoras que não paravam de vir. Desliguei a TV.

Vai passar...

Entre as gotinhas da homeopatia, a água de hortelã e o afeto dos amigos, os 14 longos dias foram ficando para trás. Utopia? Não!! Os vírus passarão. Todos eles. Um aprendizado há de contaminar todos: empatia e solidariedade. E agora, tomo emprestada a fala do personagem Philip no romance Servidão humana, de Somerset Maugham:

“– O que eu aprendi?

– Aprendi a olhar para as mãos das pessoas, coisa que eu nunca fazia antes. Aprendi a não olhar apenas para as casas e para as árvores, mas olhar para elas tendo o céu como fundo. E aprendi também que as sombras não são pretas, elas são coloridas.”

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