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Estado de Minas HELVÉCIO CARLOS

Carlos Starling: 'Os vírus são nossos professores'

Infectologista explica a relação da humanidade com as epidemias ao inaugurar a seção 'Vivendo e aprendendo', publicada aos sábados na coluna Hit


21/11/2020 04:00 - atualizado 20/11/2020 18:42

Carlos Starling
Epidemiologista

Vivemos um momento de grande tensão nos dias atuais com a iminência de uma segunda onda epidêmica da COVID-19. Ainda não saímos da primeira e já vem outra. Parece até mineiro na praia. Um caldo atrás do outro.

Exacerbam-se o temor, a sensação de finitude, a insegurança existencial e o medo do amanhã.

Mas toda essa angústia se justifica? Afinal, ao longo de milênios enfrentamos epidemias em situação bem menos favorável e chegamos até aqui. Ou seja, superamos a peste, a cólera, a varíola, a poliomielite e inúmeras outras adversidades pandêmicas em momentos históricos bem piores do que o atual.

A humanidade vem sobrevivendo, a despeito da ignorância, da agressividade e do espírito animalesco que permeiam muitas de nossas condutas. A estupidez humana mata mais do que qualquer vírus ou bactéria.

O que de positivo aprendemos com as epidemias ao longo da história da humanidade? Como as epidemias influenciaram hábitos e mudaram padrões de comportamento? Enfim, o que vírus e bactérias nos ensinaram ao longo de nossa evolução?

As doenças infecciosas condicionaram a existência humana de várias maneiras. Seja dizimando populações, promovendo êxodos, propiciando miscigenação, fortalecendo ou enfraquecendo povos. As doenças infecciosas, implacavelmente, influenciaram o destino da humanidade.

''A estupidez humana mata mais do que qualquer vírus ou bactéria''

Carlos Starling, epidemiologista




Fugindo de doenças, intempéries e guerras, o homem saiu da África, seu berço natural, em direção à Europa, à Ásia e aos demais continentes.

A criação de cidades facilitou a transmissão de doenças infecciosas, gerando epidemias. Grandes aglomerações, guerras e desastres naturais, geralmente, precedem grandes epidemias. O progresso da humanidade, de certa forma, facilitou a disseminação de doenças.

Hoje, estamos reescrevendo a história utilizando conhecimentos oriundos da arqueologia, aliados a técnicas de biologia molecular, que nos ajudam a identificar a relação das doenças infecciosas com a história da humanidade.

O resgate de microrganismos que infectaram animais ancestrais ajuda a esclarecer a nossa existência e nos prepara para o futuro. Podemos entender doenças que acometeram desde os hominídeos até o homem moderno.

Os microrganismos identificados em sítios arqueológicos mostram a nossa rota migratória pelo planeta e o caos instaurado por eles em determinados momentos da história.

Mas quem são os verdadeiros responsáveis por essas epidemias? Os vírus? Os fungos? As bactérias? Os desastres naturais? As guerras? O modelo econômico? O porco, o frango, o rato, o piolho? O próprio homem e suas decisões?

Pois bem: o que esses microrganismos causadores de grandes epidemias nos deixaram de legado, além da dor de nossas perdas?

Comecemos pelo vírus da varíola, que causou epidemias do século 16 ao século 18. Populações indígenas das Américas foram devastadas por epidemias de varíola, sarampo e influenza. Doenças trazidas pelos colonizadores europeus.

Entretanto, a varíola foi uma das primeiras doenças infecciosas erradicadas pela tecnologia humana. Graças aos trabalhos do médico e pesquisador inglês Edward Jenner, ainda no século 18, essa doença se encontra erradicada do planeta.

Jenner inoculou o vírus da varíola bovina em seres humanos, repetindo a prática que aprendera na Ásia. Visto inicialmente com ceticismo na Inglaterra, esse procedimento passou a ser praticado em toda a Europa, sendo fundamental para o controle da doença nos dias atuais.

Aprendemos com a ousadia de Jenner a importância do intercâmbio de informações entre os diferentes povos e culturas. A epidemia de varíola e seu subsequente controle evidenciaram a nossa capacidade de superar as doenças infecciosas, por mais catastróficas que elas sejam.

Da mesma forma, as epidemias de gripe em 1918 (gripe espanhola), 1957 (gripe asiática) e 1968 (gripe de Hong-Kong) causaram milhares de óbitos.

Para combater essas epidemias foram desenvolvidas vacinas, antivirais e programas especiais de prevenção por governos em todo o mundo. Apesar do conhecimento acumulado ao longo de quase um século e de toda tecnologia disponível, o vírus da influenza ainda se associa a cerca de 2 milhões de óbitos por ano.

O que aprendemos com essa epidemia? Não basta termos vacinas e medicamentos se eles não chegam para todos, particularmente às populações mais vulneráveis.

Outra epidemia viral com a qual estamos convivendo é a Aids. Apesar de dispormos de métodos de diagnóstico, prevenção e tratamento altamente eficazes, milhares de pessoas ainda se infectam e morrem todos os anos por essa doença, surgida na década de 1980.

Aprendemos em todos os sentidos com a Aids. Quebramos tabus e preconceitos, passamos a lidar de forma mais honesta e humana com as nossas diferenças.

As pesquisas científicas em busca de medicamentos para o tratamento do vírus da Aids nos deram drogas fantásticas para o tratamento da hepatite C, para a qual temos, hoje, cura em mais de 95% dos casos.

''Não basta termos vacinas e medicamentos se eles não chegam para todos, particularmente às populações mais vulneráveis''

Carlos Starling, epidemiologista


Descobrimos que os ancestrais do vírus da Aids, retrovírus primitivos incrustados em nosso DNA, são responsáveis pela fixação do óvulo no útero e impedem que o sistema imunológico feminino rejeite o embrião. Ou seja, devemos nossa existência a parentes distantes do vírus da Aids.

Outra epidemia que teve profunda influência na história da humanidade foi a epidemia de infecção fúngica que acometeu os dinossauros milhares de anos antes da nossa existência.

Estudos de paleatopatologia mostram que as alterações climáticas provocadas pela queda do asteroide na Península de Yucatán, no México, favoreceram o crescimento e a proliferação dos fungos responsáveis pela infecção generalizada de dinossauros, extinguindo-os da face da Terra. Portanto, fomos simbióticos com os fungos na conquista deste planeta.

Além do vinho, do pão e da cerveja, os fungos fizeram o “clearence” de seres com os quais seria extremamente complexa a convivência na superfície da Terra.

No século 14, a peste, doença que dizimou cerca de um terço da população mundial, foi responsável por profundas transformações culturais, religiosas e econômicas, resultando no momento histórico conhecido como Renascimento. Os desígnios divinos foram sendo questionados e paulatinamente substituídos pelo livre-arbítrio. O conceito de que podemos e devemos mudar o nosso destino a partir de ações efetivas foi profundamente influenciado por uma devastadora epidemia.

Assim como a peste, a cólera foi impiedosa com a humanidade. Entretanto, estudos do epidemiologista John Snow na Inglaterra, durante o século 19, mostraram que as péssimas condições sanitárias eram responsáveis pelo problema. Snow criou as bases metodológicas para o estudo das epidemias, as quais utilizamos até hoje para investigá-las e controlá-las.

Infelizmente, o conhecimento se transforma em prática de forma lenta, principalmente quando depende de políticas públicas. Até hoje, mais da metade da população mundial vive em condições propícias às epidemias relacionadas a deficiências sanitárias elementares.

Vírus, bactérias, fungos e outros microrganismos responsáveis por nosso sofrimento e angústia servem para nos acordar da alienação existencial. Somos responsáveis por nosso destino. Prestar atenção no que é fundamental, prevenir e educar em tempos de calmaria, se é que esses momentos algum dia existiram, nos tornam mais preparados para enfrentar a dura e prazerosa missão de existir.

Vírus, fungos, bactérias e microrganismos nos ensinam, a duras penas, a ser mais solidários e humanos.

A epidemia atual não é a primeira e não será a última que enfrentaremos. Sairemos dela com enormes perdas, mas com mais dignidade e ensinamentos importantes que nos tornarão mais aptos a sobreviver em tempos futuros.

Lidamos com a epidemia da mentira, do negacionismo científico, da arrogância e do desprezo pela vida humana. Mas, felizmente, a população tem anticorpos e memória imunológica contra essas mazelas do espírito humano.

''Lidamos com a epidemia da mentira, do negacionismo científico, da arrogância e do desprezo pela vida humana''

Carlos Starling, epidemiologista


Aberrações políticas e acidentes eleitorais têm sido democraticamente eliminados do cenário pré-histórico que tentam impor ao povo.

As recentes eleições, aqui e pelo mundo afora, são evidência clara de que o que aprendemos com o Renascimento ainda está presente em nossas células de memória... Somos donos e responsáveis pelo nosso destino.

Evoluir e mudar, esse é o papel dos vírus na natureza. Eles não são nossos inimigos, mas professores. Cruéis por um lado, anjos por outro...


* A seção Vivendo e aprendendo, que estreia hoje e será publicada aos sábados, traz depoimentos de   convidados sobre as lições da pandemia.

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