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O que mudou desde a minha estreia no 'Diário da quarentena'

Cinco meses depois, a atriz Cynthia Paulino volta ao diário, dando sequência às cenas que escreveu inspiradas na pandemia. Na segunda-feira, o 'DA' chega ao fim com edição especial


10/10/2020 04:00


Entre-cenas (ou prólogo?)
“Nada está parado; tudo se move; tudo vibra” (O Caibalion). Parte II do texto “O isolamento em (quase) sete cenas”, publicado no final de maio.
“Que seja leve”... Sim, porque da tragédia ao nonsense, ao SEI LÁ O QUÊ, é questão de um espirro. Terminei a parte I acreditando que já estávamos há tempo demais isolados, tão inocente ela, ô. Estávamos em MAIO e, hoje, são quantos dias depois mesmo? Falo daqui, deste meu lugar de privilégios e segurança, preciso dizer isso, pude ficar isolada enquanto muitos não tiveram essa opção e outros optaram por não se isolar mesmo. Tudo muito disparatado, eita, socorro, que palavra estranha foi essa que apareceu aqui, mas é isso mesmo, que dias bizarros e ao mesmo tempo extraordinários pra estar vivendo, se      olhar com atenção, sei que o coelho da Alice passa correndo do meu lado, certeza! Exclamações, dias de exclamações-interrogações-reticências e a certeza é de que “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Lulu, segura essa onda.

Cena 7
Acordo e penso: estamos bem. Mas há os que não estão. E parece que soltaram por aí a notícia de que tudo passou e não comunicaram a todo mundo, foi isso? Assim, porque alguns (muitos) vizinhos, por exemplo, nunca deixaram de dar festas de alegria ruidosa, pelo contrário, elas pipocaram nesse período todo em número muito maior do que antes, é pre-ci-so mos-trar que está e sempre esteve tudo, tudo, tudo bem. “... e que você descubra que rir é bom/ mas que RIR DE TUDO É DESESPERO”, cantamos eu e Frejat.

A sensação é de que estamos num movimento de ir e vir pelas fases do luto em looping e muita gente parou na negação, pronto. O mundo chega a 1 MILHÃO DE MORTES por COVID-19, o Brasil é o segundo país em número de mortos – mais de 140 mil –, mas o que importa é ligar o f***-** e usar máscara no queixo ou fazer showzinho pra não usar, no problem, f***-** a dor do outro. “Não conheço ninguém que teve isso”, “na minha família ninguém pegou esse negócio”, “é tudo invenção, tenho certeza”, “morreu, mas também já era velha” e, enfim, “antes eles do que eu”, né?

Perdi duas tias para essa doença. Vibrantes, mulheres interessantíssimas, cheias de planos, viravam meninas quando se juntavam com as outras irmãs e sobrinhas, e, acima de tudo, elas AMAVAM A VIDA. Eu as honro, e honro cada família, cada pessoa que perdeu um parente/amor/amigo/conhecido, eu honro sua dor e meu coração chora com vocês. E também a cada um que esteve este tempo todo na rua por trabalho e missão, todo o meu respeito.

Cena 8
Conseguimos um resultado muito interessante, eu e meus alunos. O trabalho começou em fevereiro e em março foi da sala para o Zoom, estreou em julho depois de muita perna bamba, questionamentos, novas buscas e incertezas. Isso é teatro? E foi, só que diferente. Fernanda Young nos guiou com seus textos, sentimos a paz inquieta do dever cumprido. Em maio, decidi me desligar da escola e parar de dar aulas, aquela foi a minha última turma. O momento todo me deu coragem, um empurrão de “ou vai ou racha”, e eu fui e rachei. Fiz 51 e ri da piada boba do “uma ótima ideia”, bora começar de novo. Quero... espero... nada. Sou infinitamente grata pela experiência, vivi intensamente cada aula-ensaio-apresentação, devotadamente, mas chegou a hora de.

Respiro TEATRO o tempo todo, talvez por isso eu sinta que (de novo, já rompemos outras vezes) preciso me afastar, dar um tempo, até um dia. Pelas redes, acompanho meus colegas de profissão, todos sem saber quando, onde e como, e ainda assim criando, lutando, resistindo. A ARTE CURA E SALVA, e aceitem os que desprezam a cultura: sem ela tudo seria um grande nada.

Cena 9
“Que será de nossas vidas/ Eu não sei te dizer/ Só sei que juntos seremos tudo/ Contra o que de mau vier” (música do 14 Bis, beeeeeeeeeem 80’s e que eu cantava alto aos 15 e canto hoje, aos 50 e tantos e tudo). Cortei e costurei e costurarei sei lá quantos mil retalhos, tricotei sei lá quantos xales e cachecóis e aprendi o quadradinho granny square de crochê com o incentivo da minha amiga-professora-crocheteira. Fiz o quê?

Oooooooooooooooutro xale (prazer, Lady Xale), e dei pra minha irmã, porque ela elogiou e disse que queria um no aniversário em janeiro e eu SEI LÁ DO DIA DE AMANHÃ, toma aqui o seu presente! Fiz também uma manta pra cadeira “gatificada” da sala e, claro, hoje ela já é mais um gato. Bordei e bordo e tenho bordado MUITOS corações, de todos os tamanhos. A vontade é sair (de máscara, claro) pelas ruas tacando coração em todo mundo, chuva de coração, e que beleza, e berrando ACORDA, OLHA PARA ALÉM DO SEU UMBIGO – com carinho, juro.

Bom, criar UMA COISA LINDA TODO DIA virou meta mantra, e ando cumprindo, religiosamente, pois “a felicidade é um coração pra colorir” (Dom Vital). Aprendi a fazer pão, um sonho antigo, e fico me achando A Mulher que Sabe Fazer Pães, muito maravilhoso isso. Fujo de lives, lá vem, EU SEI, tem quem gosta, mas sou dessas não, cada um gosta do que gosta e pronto. Pintei várias paredes da casa – comecei com o verde-limão, depois misturei o restinho em outro restinho de vermelho e apareceu um novo vermelho e pintei outra parede e outra. Cuido das plantas e dos meus amores, marido-filha-gatos-casa e mãe e irmãs. Me cuido, com cursos-rezas-orações-mandalas-benzimentos-cristais-incenso-ritos e óleos essenciais. Acredito, cada vez mais, porque “sinto fé”, assim, não é mais “ter fé”, entende? É sentir e ser fé mesmo, sou isso.

Hoje apareceu aqui uma mariposa com corações nas asas, geometria sagrada aqui na minha varanda, e o meu coração sorriu. Decidi vibrar no amor por tudo e em tudo e com isso vou me resolvendo, desapegando, deixando ir, um detox de coisas e picuinhas e pequenas-médias-grandes antipatias que não me acrescentavam na-da. Conto nos dedos os amigos e me sinto afortunada por cada um deles, me são preciosos. Ah! Sim, paguei língua, fiz “amizades virtuais” e me divirto com elas, mas nada de chamadas de vídeo, bitch, pleeeeeeease.

Cena 10
“O sagrado está nos olhos de quem vê” (Claudio Naranjo). Cena final? Isso já não existe mais, aprendemos com 2020. Quando você pensa que, tcham, tcharam!!! Então vou para algumas considerações/ideias finais que este texto sei lá como está indo, mas sei que já passou do tamanho.

1) Ficar tanto tempo em casa nos mostrou o óbvio: precisamos de muito menos do que pensamos que precisamos. Olho e vejo que está tudo bem por aqui e a voz dentro da cabeça diz AGRADEÇA por cada mínimo segundinho, celebre cada pedacinho do seu ninho e AGRADEÇA. Amém.

2) O trabalho de casa nunca acaba. Então, vai com calma, Lady Sísifo. Se você não relaxa, tem serviço o tempo todo, c******. Aprendi a reservar um período para as tarefas e depois vamos que os livros não vão se ler sozinhos e por aí vai, vou ali me enroscar com meus gatos e deixa a bagunça pra lá, miau.

3) Envelhecemos todos nestes tempos, ou sou só eu que sinto isso? “Ultimamente tem passado muitos anos” (Rubem Braga). É como se estivéssemos mesmo experimentando uma aceleração de tudo. E daí, quando desacelerar, quem cuidou do “de dentro” vai espelhar isso pra fora, radiante. As asas da borboleta, o tufão do outro lado do mundo, a teia que conecta todo mundo. Medo-preocupação-ansiedade-fadiga-exaustão? Chegou a hora da mudança de consciência, sair do EU para o NÓS, eu sei, eu sei, esse papo é batiiiiiido. Mas apesar de, eu ainda acredito na bondade humana, Anne.

Cena 11
(com certeza, uma hora a gente continua...)

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