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Estado de Minas COLUNA HIT

Família de Mariana revive a pandemia da gripe espanhola

Aos 102 anos, a artista plástica Julieta Tavares Simão relembra, no 'Diário da quarentena', o drama experimentado por seus pais em 1918


26/09/2020 04:00

Julieta Tavares Simão,
servidora aposentada

Era uma manhã de junho de 1918.

Seria uma manhã comum, na pacata cidade de Mariana, não fosse a pandemia da gripe espanhola, saldo de um fim de guerra na Europa, que, avançando pelo mundo todo, matou tanta gente.

Me lembro de minha avó contar que, num quarto da casa, meu pai, acometido pela doença, estava praticamente condenado. No quarto vizinho, minha mãe, corajosamente, me trazia à vida! Felizmente, tudo, enfim, passou, restando só a lembrança triste...

Hoje, para minha surpresa e mais de 100 anos depois, eis que aparece um vírus, advindo da China, ocasionando uma pandemia sem precedentes ou parâmetros, desconhecida, terrivelmente agressiva, ceifando muitas e muitas vidas, desconstruindo lares, deixando órfãos, invertendo a ordem natural da vida em que pais enterram seus filhos.

Decorridos mais de 100 anos, a medicina e a ciência evoluídas não conseguem decifrar a doença a ponto de estancá-la, erradicá-la, impedi-la por meio das vacinas ambicionadas. Nações procuram desesperadamente descobrir o antídoto, tanto por causa nobre de saúde pública como por oportunismo político-social.

A princípio, nos foi recomendado permanecer em casa, em quarentena, mantendo o isolamento social à custa de nos privarmos do convívio com nossos familiares e amigos; suspensos os encontros e os abraços que nos agasalham e nos dão vida... Beijos? Nem pensar! Tudo de longe, bem de longe, senão o vírus se instala em nós.

Agora, outra recomendação é o uso obrigatório de máscaras, que nos escondem o rosto a ponto de não conseguirmos nos identificar prontamente. E, ainda, a impossibilidade de convivência social com mais pessoas, o que impede celebrações festivas de qualquer natureza. Casamentos adiados; velórios com o mínimo de 10 pessoas presentes, justamente quando um abraço é reconfortante e ameniza a dor; formaturas não compartilhadas; churrascos domingueiros em família... Nada!

E meu trabalho, minhas aulas de pintura ministradas até dezembro do ano passado... Justamente no momento de recomeçá-las, surge esta pandemia, assim do nada, sem aviso, uma surpresa inteiramente dispensável e indesejável.

Agora, somos comandados pelo já famoso “fique em casa” e, se possível, sozinho! Moro com minha filha, mas morro de saudade de ver e tocar meus netos e bisnetos, sentir deles o cheiro, a alegria, o carinho, a presença. Me faltam as alunas tão queridas. Lives e vídeos não substituem isso.

Não sabemos e nem temos ideia de quanto tempo isso vai durar. Mas tenho fé de ainda poder ver essa pandemia passar. Afinal, tenho apenas 102 anos...

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