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Estado de Minas COLUNA HIT

Olívia Araújo fez faxina geral. Em casa e na vida

Atriz revela, no 'Diário da quarentena', como lidou com a interrupção da novela que estava gravando, a solidão e a tragédia imposta pela pandemia


09/09/2020 04:00

Olívia Araújo
atriz

Entre fotos e o final das gravações de Malhação naquele fim de semana, teria muito o que fazer no Rio de Janeiro. Apesar de tudo certo com o embarque no aeroporto de São Paulo e o desembarque no Rio, a conversa sobre o coronavírus já estava nas mesas, tinha passado o carnaval e os jornais anunciavam os primeiros casos por aqui.

Longe, muito longe de pensar em tudo o que estava por vir. Mais de 100 mil mortos. Afinal, por aqui, esse vírus não será tão assustador. Era isso o que ouvia e também concordava, na minha inocência.

Me preparando para gravar, recebo a primeira mensagem da produção dizendo que as cenas seriam adiadas para data a ser anunciada. Mais tarde, outra mensagem informando que, por conta da pandemia, o final da novela seria adiantado em uma semana. Foi o meu primeiro sinal de alerta – percebi que a coisa era mais mais séria do que imaginava. Afinal, tínhamos ainda um mês e meio de novela pela frente.

No mesmo dia, mais tarde, veio a notícia que para mim foi como uma bomba. Só o casal de protagonistas iria gravar, no dia seguinte, as cenas finais. O restante do elenco foi dispensado. Foram alguns longos minutos de paralisia. Depois veio uma sensação estranha de medo, ansiedade. Estava no Rio, longe da minha casa, os jornais avisando que iam fechar as estradas, aeroportos, tudo confuso. E junto a tristeza de não conseguir me despedir das pessoas com quem convivi por mais de um ano.

A importância dos ritos. A gente precisa dar ponto final para poder seguir com tudo na vida. Eu estava perdida no meio disso tudo. Bom, 24 horas depois, estava dentro de um carro cheia de malas voltando para São Paulo, a estrada meio deserta. A cada parada, olho as notícias na TV. Tudo tão sem sentido.

A primeira semana em casa foi aterrorizante, nada ligava com nada. O confinamento, não poder ver as pessoas, não poder sair de casa. Ao mesmo tempo, eu estava exausta. Chegou uma hora em que resolvi relaxar. Dormi muito, comi muito.

Depois de duas semanas, vi que era hora de arrumar as gavetas do guarda-roupa e da alma. Me reavaliar, cuidar da saúde do corpo e da cabeça. Tinha chegado a hora de lidar com assuntos difíceis, rever coisas que não tinham mais sentido, desapegar.

Comecei trocando as coisas de lugar, colocando para fora coisas que já não serviam mais, abrindo espaço no guarda-roupa, na casa. Fiz o mesmo com minhas memórias, conquistas, as dificuldades, os sentimentos que já não têm sentido de ser relembrados. Faxina completa.

Banho de água limpa na casa e na alma. Claro que nessa limpeza tem caixas difíceis de a gente se desapegar, hábitos complicados de mudar. Leva tempo esse tal desapego. A pandemia jogou na minha cara o que já sei há muito. Ensinamento de vó: “O que se pode fazer hoje não se deixa para amanhã”, “o amanhã não nos pertence”. O que resta é o hoje, o tempo presente. Se esse hoje for bom, há chances de o amanhã ser melhor.

Esse tempo esquisito da pandemia trouxe a oportunidade de parar de buscar por perguntas que não terão respostas, de reafirmar tudo aquilo em que realmente acredito. Claro que ansiedade, às vezes, bate à porta. 

É inevitável não pensar e me perguntar quando poderemos abraçar, conviver com as pessoas, voltar a trabalhar.

O que posso fazer é me perdoar pelo que não consegui resolver, me amar e amar o que tenho hoje, liberar para receber bem o que está por vir.

Os sonhos, esses eu quero preservar, sair do chão, voar. Manter sorriso no rosto também. E, nos dias difíceis, ouvir um bom samba é santo remédio. Aliás, samba é sempre um santo remédio pra mim.

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