
Por Luiz Ruffato
Escritor
Exilado entre as quatro paredes do meu quarto
Tendo por única companhia
O silêncio ancestral dos meus gatos
Acompanho imperturbável
O naufrágio lento do imenso barco
Que outrora eu chamava utopia
Sei que por detrás das cortinas da janela
Há rangidos, gritos, alvoroço
Mas meu corpo se recusa a ir até ela
Pois sondar o insondável
Não traria de volta o meu querê-la
E aguardo calmo a água me alcançar o pescoço
Eu idealizei futuros impossíveis, até quis
Abraçar as multidões, amar o estranho
Mas tudo que aqui finquei, toda raiz
Mostrou-se frágil, inviável
Percebo tarde demais que daquele país
Nada mais resta, nada ficou, nem mesmo o sonho
*O escritor Luiz Rufatto conta que, durante a quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus, só se animou a escrever esse poema, que foi lançado no exterior. O Estado de Minas publica-o pela primeira vez no Brasil.
