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Estado de Minas DIÁRIO DA QUARENTENA

Overdose de notícias contamina o cineasta Alfredo Alves

Ele passou dois dias sem sair da frente da TV, acompanhando o avanço do coronavírus. Quando o termômetro (daqueles antigos, de mercúrio) registra 36,5 graus, vem o pânico: 'É ele. Ele me pegou!'


postado em 15/05/2020 04:00

Alfredo Alves
Cineasta

2020. Que ano!!! Começamos com a cerveja matando os mineiros. Imagine, tomar uma gelada poderia ser letal. Não houve nem tempo de recuperar desse trauma e os rios invisíveis resolveram dar as caras e dizer: “Estamos aqui”. Quando tudo parecia voltar ao normal, o coronavírus chegou mandando em nossas vidas.

20 de março de 2020. Nessa primeira noite de confinamento, fui dormir pensando nisso: 2020, que ano!!! Uma sensação de tremor tomou conta do meu corpo. Acordei. Era como se o frio escorresse pela coluna, do pescoço até a lombar. Estou com febre???!!!

Saí da cama e fui para a sala. Peguei o termômetro e medi minha temperatura. Bip, bip, bip, 36,5. Isso está errado! Esses termômetros moderninhos, digitais, não valem nada. Procurei um daqueles antigos, com um filete de mercúrio dentro. Nesses, sim, eu confio! São só uns cinco minutos debaixo do braço. 36,5... Uai??? Não devo ter colocado no lugar certo. Mais cinco minutos... 36,5!!!

Sem entender nada, me lembrei de que na madrugada tive uma crise de falta de ar, coisa que nunca senti antes. A respiração curta, ofegante. Estava com dificuldade de respirar!

Comecei a juntar as coisas: sensação de febre, dificuldade de respirar... e o acesso de tosse que quase acordou a vizinhança, duas noites antes. Cansaço? Achei que estava sentindo também. Tinha todos os sintomas que serviam de alerta. É ele... Ele me pegou! Estou contaminado.

Voltei para o quarto, liguei a TV e, sem prestar atenção ao que via, comecei a repassar o acontecido. Depois de um tempo, mais calmo e com a cabeça no lugar, concluí: não é coronavírus!. Durante os dois últimos dias, não havia arredado o pé da frente da televisão. Infectados, falta de leitos, mortos. Sem que notasse, influenciada por tanta notícia ruim, minha cabeça deu sinais de que eu já fazia parte daquelas estatísticas. Desliguei a TV. Foi isso: o que tive foi uma overdose, overdose de informação.

26 de abril de 2020. Trinta e sete dias dentro de casa! Não me tornei um alienado. Sigo vendo as notícias, mas sem overdose. Tudo é muito triste e grave. Ficar em casa é o melhor a fazer. Minhas filhas organizaram uma festa surpresa, reunindo a família e amigos pela internet. Comemoramos a vida. Fiquei mais velho. Passo bem!!!

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