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Estado de Minas PANDEMIA

Liliane Prata: 'Temos medo e temos medo de ter medo'

No 'Diário da quarentena', escritora relata suas inquietações nestes dias de isolamento social


postado em 09/05/2020 04:00

O ponto de interrogação

Liliane Prata
Escritora

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Tudo igual, tudo diferente – essa tem sido a atmosfera dos meus dias qua- rentenantes. Eu já trabalhava em casa e, em janeiro e fevereiro, houve semanas em que saí apenas duas ou três vezes para ir à academia e ao supermercado. Passei o carnaval escrevendo, descansei lendo e vendo filmes, já fazia a limpeza doméstica e já tinha o hábito de cozinhar e fazer minhas refeições em casa. Não mudou nada?
 
Mudou tudo. Apenas o verniz segue igual, não há criatividade nos vernizes. Mas a existência não é feita de vernizes, embora gostemos de fingir que seja. Há caos, subtextos e um mundo de segredos e perguntas sem resposta adormecendo sob a rotina. Quando o dia organizado se locomove, a noite misteriosa se aproxima. Como tudo se reorganizará após o novo nascer do sol? Meu mundo organizado foi locomovido pelas notícias, pelo fechamento da escola onde minha filha estuda, pela opção de ficar em casa que se tornou imperativa. Lá fora, vejo a enxurrada que tem levado vidas, tirado empregos, fragilizado ainda mais os mais vulneráveis e exigido mais da saúde mental, material, criativa.

E ali, entre os prédios e postes, sobrevoando calçadas e asfaltos, eis o gigantesco desconhecido à espreita, com seus olhos misteriosos, provocando os nossos medos mais esquecidos, despertando nossas angústias mais adormecidas, acenando com perguntas incômodas, revelando as verdades mais doloridas, escancarando todo o despreparo e o desamparo.

Temos medo e temos medo de ter medo; não suportamos o vão entre nós e as coisas. Para seguir menos à deriva, vamos inventando certezas. Alguns concluem: “Isso está acontecendo para o melhor”. Como se o melhor fosse uma consequência dada, um desdobramento por osmose, e não por conquistas, decisões, mudanças de atitudes de empresas e governantes, mobilizações, boicotes e escolhas de cada um de nós, cidadãos.

“Depois dessa pandemia, tudo vai continuar igual; afinal, a humanidade já passou por muitas guerras e isso não conteve o rumo à destruição”, outros dizem. Como se estivéssemos confinados no passado; como se, porque antes foi assim, estivéssemos condenados a continuar sendo assim. Mesmo estando em um momento tão novo, mesmo diante de fatos sem precedentes, muitos de nós vão fechando suas frágeis portas para o enorme desconhecido, recusando-se a abrir espaço para o novo, para novas maneiras de se pensar as relações, a economia, o ser humano, e pegando atalho na conclusão precipitada, seja pessimista ou negativa.

É difícil aceitar o gerúndio e transformar confusões em novas ações – generosas, lavadas de nossa ansiedade e prepotência, envoltas em gestos na direção do outro. Admitir que as coisas vão acontecendo e que nós vamos percebendo os novos panoramas, desdobramentos e possibilidades à medida que elas acontecem, não a priori.

Neste momento, o a priori parece rir de nós. Numa tarde qualquer em dezembro de 2019, tomando uma cerveja com os amigos, como poderíamos imaginar que, dali a poucos meses, mais de quatro bilhões de pessoas estariam obrigadas ou sob a recomendação de ficar em casa? Quando imaginaríamos uma adesão tão expressiva em uma situação tão repentina e, ainda, tensionada por diferentes condições de vida e interesses políticos? Em vídeo disponível no YouTube, o pensador e ativista indígena Ailton Krenak e o físico Marcelo Gleiser perguntam o que mais pode acontecer que não tínhamos imaginado. Se tantos de nós se uniram para atender ao chamado do confinamento, de que outras mobilizações e mudanças nós, como cidadãos que podem se organizar na invenção (no descobrimento?) de uma nova humanidade, somos capazes?

Essa pergunta tem me acompanhado nos últimos dias. Essa pergunta e as frestas entre suas letras. Parece que, agora, pegar caminhos conhecidos já não leva aos lugares de que precisamos. Às vezes, não saber respostas nos conduz a respostas melhores, e ter essa cautela me parece o mais razoável neste momento nada razoável, neste momento intenso que tem colocado tantos de nós e tanto de nós à prova. Quem somos, como indivíduos, comunidade e humanidade? O que buscamos? O que desejamos, o que não desejamos mais?

No ponto de interrogação, o silêncio cauteloso caminha abrindo, só alguns palmos de cada vez, espaços de boa visibilidade numa floresta; o horizonte lá na frente parece enevoado, mas a paisagem de trás foi incendiada, e só resta caminhar, aos poucos e adiante, de acordo com o que conseguimos enxergar.

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