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O coronavírus iguala África, Ásia, Oceania, Europa e América. Será?

O coreógrafo Rui Moreira analisa o impacto da pandemia no mundo globalizado. 'É cada vez mais difícil ser um homem do meu tempo', confessa ele ao 'Diário da quarentena'


postado em 17/04/2020 04:00

Sei que nada
será como antes,
amanhã

Rui Moreira
Coreógrafo e bailarino

Estamos vivendo um momento ímpar em tempos de quarentena globalizada.

Acometidos pela hipótese de muitos serem vitimados de forma letal pelo biopoder de uma virose pandêmica, estamos ordenados a proceder de maneira comum em todo o planeta. Essa condição iguala África, Ásia, Oceania, Europa e América. Será?

Tempos atrás, a companhia SeráQuê? encenou o espetáculo intitulado Urucubaca na roda do mundo, inspirado no livro A roda do mundo, com poemas de Ricardo Aleixo e Edimilson de Almeida Pereira. Um dos temas musicais que embalava a peça dizia: “Urucubaca quando é tempo dela, ela vem de uma vez/ Não olha sexo, classe, idade ou a raça do freguês/ dá no pé 'rapado'/ ataca o burguês...”.

Um quase prenúncio dos tempos atuais e – por que não? – de tempos ainda vindouros. Dando meia volta, a história da humanidade nos traz à memória outras muitas dizimações por pandemias. Da peste bubônica na Idade Média passando pela gripe espanhola e o ebola, sem desconsiderar outras já descritas nas antigas escrituras culturais como a Bíblia.

Essas pestes não escolheram a quem contaminar, mas, por certo, foram difundidas pelas ignorâncias sobre procedimentos de prevenção e de lida com as mesmas. Higienização, por exemplo, ainda nos dias de hoje se mostra como privilégio para poucos. As condições desiguais e precárias no mundo tornam atos simples, como lavar as mãos com água e sabão, situações exóticas interditadas para parte da população. Um momento como este deflagra degraus sociais ainda intransponíveis.

Fica explícito o interesse de algumas castas na materialidade que envolve a vida. Observamos alguns, que se tomam por poderosos, instaurando prioridades na escolha de quem deve ter a vida protegida.

Outro aspecto interessante é como este momento mexe com a estrutura econômica planetária. Na busca de caminhos, uma nova onda de inclusão digital está em curso. Pessoas de todas as idades são impelidas a utilizar dispositivos portáteis para trabalhar, estudar, vender produtos, trocar imagens e namorar, entre outras atividades, sem sair de suas casas.

Mas isso pode revestir a realidade de ilusão ao imaginar-se que todos, sem exceção, têm acesso à internet e que a distribuição da informação acontece de forma horizontal e democrática.

É cada vez mais difícil ser um homem do meu tempo. O dinamismo dos atos é imenso, mas ainda guardo como crítica o pensamento de que a diversidade dos meios disfarça os fins da homogeneização universal, do mesmo modo que aparências democráticas fortalecem o “globalitarismo” sistêmico.

Enfim, preocupações à parte, sou daqueles que seguem as orientações da Organização Mundial da Saúde. Posso me manter em casa por 14, 30, 40 dias ou mais, produzindo imagens, dançando, organizando pensamentos e em processo constante de construção do hoje, revisitando o passado com vistas no futuro, mas com a total certeza de que nada será como antes, amanhã.

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