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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Lavagem de Dinheiro Futebol Clube: exagero ou realidade?

"O negócio das apostas onlines é a salvação financeira do futebol brasileiro ou o uso delas por organizações criminosas é um câncer que só cresce?"


03/03/2023 04:00

Jogo do Cruzeiro de 2005 apitado por Edilson Pereira de Carvalho
A vitória do Cruzeiro sobre o Paysandu por 2 a 1, em Belém, pelo Brasileirão de 2005, foi um dos 11 jogos suspeitos, e anulados, que foram apitados por Edilson Pereira de Carvalho (foto: Cláudio Pinheiro/Imapress/Agência O Globo - 26/9/05)


Em 2005, na principal divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol, um dos maisimportantes e milionários do mundo, 11 partidas foram anuladas. A ligação entre elas:todas apitadas por Edílson Pereira de Carvalho. A Polícia Federal e promotores deJustiça de Combate ao Crime Organizado desmantelaram uma quadrilha internacionalque usava casas de apostas para lavar dinheiro e obter lucros de forma ilícita por meioda atuação direcionada do árbitro. Quase 20 anos depois do maior escândalo demanipulação de resultados do futebol brasileiro, 90% dos times da Séria A doBrasileirão são patrocinados exatamente por casas de apostas online.

Nos últimos dias, um novo esquema de possível manipulação de resultados no Brasilveio à tona, envolvendo jogadores de clubes da segunda divisão do CampeonatoBrasileiro. Novamente, o meio de se lavar o dinheiro pago nos subornos aos atletasseriam as casas de apostas online.

Mas não é de hoje que escândalos como esses são descobertos no mundo inteiro. Naprimeira divisão do futebol italiano, em 2006; no próprio Brasil, com a “Máfia da LoteriaEsportiva” de 1982 – que envolveu mais de 100 pessoas – e até mesmo em outrosesportes, como foi bem retratado no filme “Untold: Corrupção no Basquete”, queconta o caso do árbitro Tim Donaghy, usado por uma rede criminosa de apostadoresque lavava dinheiro na NBA.

O canadense Declan Hill, jornalista especializado em manipulação de resultados noesporte e autor de diversos livros, como “Thue Insider’s Guide to Match-Fixing inFootball”, relembra que, na segunda década do século 21, a massificação da lavagemde dinheiro no futebol começou em campeonatos irrelevantes para a mídia e de poucaatenção para investigadores, como divisões intermediárias de países asiáticos. Isso seacelerou com o boom dos sites de apostas online, que hoje, inclusive, sãopatrocinadores de clubes gigantes e até mesmo da Copa do Mundo.

É bom deixar claro que, na esmagadora maioria das vezes, as casas de aposta sãoapenas usadas como meio. O ato ilícito de se lavar dinheiro quase sempre é uma açãodos apostadores para colocar “dinheiro sujo” dentro do sistema financeiro formal. Porexemplo, o criminoso tem 100 mil dólares. Ele aposta 10 mil numa operação “10/1” epaga 90 mil em propina para jogadores ou árbitros. Ao vencer, com a ajuda dossubornados, ele recebe de volta 100 mil dólares limpos.

Atualmente, a possibilidade de diversificar o que se é apostado aumenta ainda mais aschances do uso das casas de aposta para a lavagem de dinheiro via manipulação deresultados. Por exemplo, hoje é possível apostar na quantidade de pênaltis que umtime irá cometer – como no caso da segunda divisão do Brasileiro; se terá um golcontra; qual time receberá o primeiro cartão amarelo, entre outras. E, pior, em algunscasos, o próprio apostador (criminoso ou não) pode sugerir o que será apostado.Outra forma ilícita – e que nem sempre tem ligação só com a lavagem de dinheiro – é oesquema para burlar o limite de apostas por CPF imposto como trava por alguns sites.

Para isso, os apostadores criminosos usam CPFs de laranjas para dividir valoresmaiores em apostas que já estão com o resultado manipulado ou que são uma“barbada”. Essa prática já foi detectada no Brasil pelos Ministérios Públicos.

Hoje, 3 de março, se completam 25 anos da Lei 9.613, conhecida como a Lei Brasileirado Combate à Lavagem Dinheiro. Momento oportuno para uma reflexão: o negóciodas apostas onlines é a salvação financeira do futebol brasileiro ou o uso delas pororganizações criminosas de apostadores é um câncer que só cresce, incurável e quepode levar a magia do esporte mais popular do planeta à metástase? 

O tema está longe de ser esgotado, mas muito próximo de requerer um maior controletributário, mais regulamentações e um olhar crítico – e não julgador – quanto àproliferação do jogo de azar como um dos maiores financiadores do futebol, ondesorte, azar, gols e títulos deveriam ser fruto apenas de uma disputa honesta dentrodas quatro linhas.

* Texto em coautoria com o Promotor de Justiça William Garcia PintoCoelho, coordenador de combate a crimes corporativos e lavagem de dinheiro doMinistério Público de Minas Gerais
 

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