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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

A história de padre Américo, cujo manto celeste também era abençoado

Figura icônica para o Cruzeiro, o religioso foi por décadas uma espécie de guardião espiritual de nosso clube


23/12/2020 04:00 - atualizado 23/12/2020 08:15

O Cruzeiro vai completar seu centenário em janeiro e carrega uma história apaixonada, assim como a Nação Azul(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS)
O Cruzeiro vai completar seu centenário em janeiro e carrega uma história apaixonada, assim como a Nação Azul (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS)


O futebol mineiro caminha para fechar o ano com duas surpresas e uma reprise. Enquanto o multicampeão Cruzeiro amarga seu pior capítulo, o América vive dias de protagonismo regional. Já o Atlético de Lourdes, como há 50 anos, vive a mesmice de não vencer absolutamente nada relevante e de estimular – institucionalmente – sua Turma do Sapatênis a se alimentar de ódio.

Nós, cruzeirenses, caminhamos para completar 100 anos de história mergulhados num drama pessoal. Mas para um clube forjado na superação de adversidades com títulos e respeito, não cabe retroalimentar o fel destilado contra nós. Muito menos às vésperas do Natal.

Na chegada da data religiosa, tomo a liberdade de usar meus rabiscos para contar a história de um personagem icônico da Nação Azul, que ostentava dois mantos sagrados ao mesmo tempo: o de sua profissão, a batina e o de seu profundo amor, a camisa do Cruzeiro. Padre Américo Campos Taitson. Palestrino, cruzeirense e barro-pretense (às favas o português correto, jamais cometeria o sacrilégio de intitulá-lo com algo terminado em “ano”).

Américo nasceu em Nova Lima, em 1909. Quando caminhava para completar 11 anos de idade, em Belo Horizonte, era fundado aquele que viria ser sua eterna paixão: o Palestra/Cruzeiro.

Poucos anos após o tri palestrino de 1928/29/30, ele se despediu dos outros seminaristas, no Bairro Coração Eucarístico, e pegou o trem para o litoral. De lá tomou o navio para terminar os estudos na Itália.

Num dia frio de final de janeiro de 1935, os sinos das igrejas de Roma anunciaram um enterro. Metido em suas leituras no Vaticano, Américo certamente não pôde se juntar à multidão formada na despedida de Nininho Fantoni, ex-jogador da Lazio, da Seleção Italiana e do Palestra/Cruzeiro. Dois anos depois, a capital italiana se encheria novamente com os dobrados da Basílica de São João de Latrão, mas desta vez para anunciar a ordenação do futuro palestrino, padre Américo Taitson.

Em 1943, o já Cruzeiro Esporte Clube se preparava para estrear oficialmente a camisa azul e branca, quando ali, a poucas quadras de sua sede no Barro Preto, um novo pároco era recebido com palmas na Paróquia de São Sebastião, que vivia dificuldades financeiras.
 
Assim como fez o então presidente-raposa Mário Grosso para reformar o estadinho JK, em 1945, padre Américo buscou doações dos fiéis para terminar as obras da igreja. Conseguiu. Entre os seus operários estava um goleiro-pedreiro que também ergueu as novas arquibancadas do campo do Cruzeiro: Geraldo II.

Por 52 anos, o cruzeirense padre Américo celebrou todas as missas de aniversário do Cruzeiro; agradeceu por dezenas de títulos do clube amado e, como ele mesmo gostava de dizer, colocou em suas orações, por milhares de vezes, pedidos para que os jogadores não se machucassem. Principalmente seus três maiores ídolos: Tostão, Dirceu Lopes e Natal. Todo fiel que chegava à casa paroquial em busca de aconselhamento era saudado pelo papagaio do padre com um “olê, olá, o Cruzeiro tá botando pra quebrá”.

Viveu uma rivalidade sadia com os padres atleticanos. Certa feita, Dom Serafim, seu arcebispo, sapatênis roxo, quis fazer uma missa de formatura de seus alunos na Igreja de São Sebastião. Foi demovido da ideia por padre Américo, pois, para ele, o solo sagrado e celeste do Barro Preto jamais poderia ser salão de festividade promovida por rivais, muito menos sendo ela uma santa missa.

Em 28 de janeiro de 1995, Cruzeiro e Bahia se postaram para uma peleja da Copa do Brasil. O árbitro Oscar Roberto de Godói apitou, abaixou a cabeça e levantou um dedo. Era dado um minuto de silêncio em respeito a um ícone da torcida cruzeirense. Horas antes, as cinco estrelas tinham parado de bater no coração celeste de padre Américo.

No janeiro de 2021, a Igreja de São Sebastião se abrirá para celebrar o batismo do sobrinho-bisneto do padre Américo, o pequenino cruzeirense Diego Taitson. Com essa história de paixão estrelada que se renova na família do inesquecível padre celeste, desejo um Feliz Natal a toda a Nação Azul!

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