Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. ASSINE AGORA >>

Publicidade

Estado de Minas

Na decisão mais épica no Mineirão, deu Cruzeiro tri

De virada, a Raposa venceu em 2000 o São Paulo, chegando a seu terceiro título pela Copa do Brasil


postado em 10/06/2020 04:00





XXXXXXXXXXXXXXXXXX

ege1006p0014

Gustavo Nolasco

DA ARQUIBANCADA

“O tri da Copa do Brasil pelo Cruzeiro, em 2000, foi a decisão final mais épica da história do Mineirão”
Cruzeiro, a paixão do 6+1 Câmara

Toda quarta-feira, exercito uma paixão que tenho em comum com o presidente do Atlético de Lourdes: falar do Cruzeiro. Faço por amor, e ele, por ódio, rancor ou sei lá qual sentimento mesquinho. Mas não importa a motivação. Saúdo essa coincidência para dar a esse espaço semanal um novo nome, “Da Arquibancada (e do 6 1 Câmara)”. Ponto final. Deixo a Turma do Sapatênis de lado para voltar a escrever sobre ser feliz e ter títulos.

Por falar em felicidade, no domingo revivemos a maior decisão final da história do Mineirão: o tri da Copa do Brasil em 2000. Também nos surpreendemos com o capitão da conquista, Clebão, se emocionando por ter defendido, com respeito, o clube amado por seu saudoso pai, seu Joaquim, um incrível cruzeirense.

Seu Joaquim, assim como eu, estava na arquibancada, presenciando o inacreditável 2 a 1 sobre o São Paulo. Também estavam José Saturnino e seu filho Rafael Gomes, que um dia me contou assim sobre aquele dia mágico:

“Às vésperas do jogo, segui a tradição. Comprei antes, no Barro Preto, meu ingresso e dos meus companheiros de estádio, o Juninho e meu pai, José Saturnino. O jogo era domingo, 18h30, mas a aventura começou na sexta-feira. Meu pai foi apanhar laranja no sítio do vizinho. Caiu do pé e torceu a perna. Sábado, o joelho amanheceu do tamanho de uma bola de futsal. O ortopedista do bairro analisou e sentenciou: fora do jogo do dia seguinte. Foi o médico virar as costas e o enfermo balbuciou: ‘Eu vou ao jogo’.

O domingo amanheceu com pouca evolução. O velho de 56 anos deixou para tomar o remédio contra dor próximo ao horário do jogo. Saímos às 15h, três horas antes. Foi a única vez que subestimei a torcida do Cruzeiro. No Anel Rodoviário, perto do Bairro Caiçara, percebi o erro. Trânsito parado.

Às 15h30, estávamos em frente a um posto. Até 15h50, andamos apenas 500 metros. Às 16h, comecei a ver a Avenida Catalão impraticável. Alguém deu a ideia de pararmos o carro no Shopping Del Rey e ir a pé. ‘Estão doidos? Querem que papai ande do Del Rey ao Mineirão com esse joelho?’. Seu Jósé Saturnino, que foi uma das 113.715 pessoas no Cruzeiro e Bayern, depois de uns segundos de silêncio, soltou: ‘Eu vou conseguir’. Fui apoiando meu pai pela Catalão. Naquele ritmo, ficaria feliz se visse a disputa de pênaltis.

Passei na portaria da Faculdade de Veterinária, na UFMG. 18h15. Até chegamos, mas nosso tradicional local na arquibancada não cabia mais ninguém. Tivemos de ir para a antiga arquibancada inferior, uma espécie de geral de luxo. Ao nosso lado, um sujeito magro e alto, com uma jaqueta de couro surrada, cabelo do Raul Seixas, óculos e um rádio gigante no ouvido. Ele tomava a visão de meio campo dos baixinhos como eu e meu pai, que ainda precisou assistir ao jogo em pé e com o joelho torcido.

Gol do São Paulo. Fábio Junior, 1 a 1. O Zé do Rádio (já tínhamos até lhe dado um apelido) ficou praticamente narrando o tempo a cada vinte segundos. Falta. Silêncio e reza no Mineirão. Gol.

A maior emoção que vivi em um estádio. Voou tudo para cima. Meu pai caiu. Uma pirâmide de marmanjos sobre ele. Desesperei para tirá-los dali. Percebi um silêncio repentino e depois uma explosão de alegria. Quando tirei o último mancebo de cima do meu velho pai, ele estava abraçado com o Zé do Rádio, felizes da vida. A alegria apagou sua dor. Título, volta olímpica e festa.

Mineirão quase vazio. Numa daquelas grandes mesas de madeira, em frente ao Bar 13, sentamos. A primeira vez desde que largamos o carro no Shopping Del Rey. Um silêncio reconfortante, só sentido por quem vence batalhas épicas.

2018. Dezoito anos depois. Seu José Saturnino já com 74 anos. Final contra o Flamengo. Nossos dois ingressos garantidos. Seria nossa primeira final juntos desse 2000. Jogo quarta-feira, e na segunda-feira anterior, papai pisa em falso no sítio e quebra o tornozelo. Direto para o hospital, com internação para a cirurgia. Perdia meu parceiro. Meu tio se dispôs a ficar com ele, mas resolvi assistir à final junto de meu pai. Dentro do hospital, em uma TV até honesta”.



Compartilhe no Facebook
*Apenas para assinantes do Estado de Minas

Publicidade