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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Vitória na guerra psicológica faz do Galo o Freud dos gramados

Com todos os ingredientes de uma Libertadores, bater o Boca nos pênaltis foi parte também de uma sessão de descarrego


24/07/2021 04:00 - atualizado 24/07/2021 00:07

As mãos mágicas de Everson - e depois o pé - salvaram o Atlético na dramática decisão das penalidades contra Boca(foto: RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS)
As mãos mágicas de Everson - e depois o pé - salvaram o Atlético na dramática decisão das penalidades contra Boca (foto: RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS)


No Réveillon de 2012, a Fabi me presenteou com um sabonete cuja glicerina supostamente incluía ervas com poderes para espantar urucas variadas. Com certeza, ela imaginava assim contribuir com a melhora da minha performance no casamento, na paternidade e no trabalho. Mas, até que seu último cotoquinho escorresse pelo ralo, eu o utilizei inteiramente para o benefício do Atlético na Libertadores do ano seguinte. Com o Galo campeão, por vias indiretas a Fabi acabaria por alcançar seus nobres objetivos. À época, este sabão ungido ficou famoso entre os fiéis da Igreja Universal do Reino do Galo como “Sabonete da Libertadores”.

Essa história havia se perdido entre as centenas de Doves e Palmolives que se sucederam ao cotoco escorrido pelo ralo do hotel em Marrakesh, acidente que, sem dúvida, custou o título mundial. Havia toda uma técnica e um apurado ritual para que se garantisse a adequada ativação de seus efeitos. Antes do jogo, enquanto aplicado nas pernas e partes íntimas, era preciso mentalizar nossas injustiças do passado, em um comovente processo de vitimização capaz de sensibilizar a entidade transcendental escalada para a peleja. Depois de passear pelos chacras, quando então a lavagem atingia a região do tórax e, portanto, do coração, a epifania se dava cantando no chuveiro, a plenos pulmões, a música da Galoucura: “Ganhar Libertadores, e vamo, vamo, Galo, ganhar Libertadores…”. Por fim, guardava cuidadosamente a criptonita que viajaria comigo pelo Brasil, Paraguai e Marrocos.

Havia esquecido do Sabonete da Libertadores quando, há uma semana, recebi um pacote em minha casa. O remetente era um certo “Keké”. Ele fazia algumas digressões, ali mesmo no pacote pardo, e assinava “Att, Keké”. Em parêntese posterior, explicava, atenciosamente, tratar-se o Att de “atleticanamente”. No interior da embalagem, dormitava um sabonete de origem russa trazido daquelas plagas pelo misterioso Keké – que, fazendo enfim chegar o artefato ao destinatário, finalizava com sucesso sua primeira incursão no tráfico internacional de armas.

Keké, e apenas ele, guardava lembranças do bem-sucedido Sabonete da Libertadores. E julgou necessário dar-lhe um upgrade, substituindo as ervas advindas da Tonga da Mironga do Kabuleté, plantas pra gente ficar Odara, por um artefato de guerra produzido, imagino, por prisioneiros de Putin na Sibéria. Embora disfarçado numa caixinha meio Natura na Amazônia, o que se tinha era um sabão de coco da União Soviética. Ao usá-lo uma vez, nunca mais na vida se precisa de um esfoliante, coisa de gente que cavalga ursos. Tem a vantagem de não precisar ser poupado, porque uma pedra rígida e indestrutível – disputará o Brasileiro, a Copa do Brasil, a Libertadores e o Mundial.

Claro que eu o utilizei antes do jogo contra o Boca. Aquela lixa me instigou a cânticos ferozes e impublicáveis, contra a PM e a favor da morte. Falei com Ares, fi de Zeus, o deus da guerra. Graças ao soldado Keké, estava preparado para o desfecho sangrento em que até singelos bebedouros se tornariam armas letais. Pensei, assim como Stálin deve ter falado aos seus comandados quando da incursão dos alemães no inverno rigoroso: “Dexezvin, sô, dexezvin”.

A guerra também se vence na psicologia dela. O Galo travava o bom combate até o Hulk ficar putin – brasileiro não aprende. Com o nervo aflorando à pele (e apenas eu protegido pelo esfoliante da URSS), o meia Boca conseguiu igualar o jogo. O argentino só não contava com a astúcia do mineiro, esse povo que produz queijos e possui bancos. O VAR salvou a nossa pele, mas o vacilo do Everson fez eles pensarem que a contenda dos pênaltis era fatura ganha, ainda mais depois de o Hulk peidar na farofa.

O argentino foi pro pênalti como quem vai na feira, e acabou por escorregar no tomate. “Mire veja”, se tivesse lido o Rosa, saberia, “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”. Primeiro, o Everson deve ter pensado, “dexezvin”, e catou dois. Pra terminar, fez o gol da classificação, no que, humilde e mineiramente, podemos chamar de O Pênalti de Todos os Pênaltis, jamais batido antes na história do ludopédio com tamanha coragem, eficácia e beleza.

Agora, temos o River, e só penso que estão deixando a gente sonhar: Boca, River, Palmeiras, Flamengo. A Libertadores de Todas as Libertadores! Farei a minha parte, como Stálin fez a dele: dexezvin, sô, dexezvin.
***
E lá vem o Bahia! Ainda bem que desfalcado de seus orixás, todos em Tóquio com a Seleção. É Putin neles! Vamo, Galo, pelo amor de Ares.

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