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Estado de Minas FRED MELO PAIVA

Linda homenagem a nossos ídolos negros, mas injustiça com Seu Du

'O Galo produziu vídeo, muito emocionante, em que perguntava o que seria de nós sem os nossos negros maravilhosos. Mas, em plena pandemia, demitiu o Seu Du, massagista havia 36 anos'


postado em 13/06/2020 04:00 / atualizado em 13/06/2020 07:30

Dario, um dos tantos ídolos negros do Atlético, em partida no Mineirão: diretoria homenageou acertadamente jogadores, mas relegou funcionários(foto: O Cruzeiro/Arquivo EM/D.A PRESS %u2013 1/9/70)
Dario, um dos tantos ídolos negros do Atlético, em partida no Mineirão: diretoria homenageou acertadamente jogadores, mas relegou funcionários (foto: O Cruzeiro/Arquivo EM/D.A PRESS %u2013 1/9/70)

No Brasil há 27 presidentes de federações estaduais de futebol. Nenhum é negro. A CBF, que em 2018 lançou a campanha “Somos Iguais”, tem sua diretoria composta por 11 pessoas. Ao que tudo indica, alguns são mais iguais que os outros, já que todos são brancos, inclusive o presidente Caboclo. Entre os 20 técnicos de clubes da Série A, apenas um é negro – Roger Machado, do Bahia. Na Série B, somente Hemerson Maria, do Brasil de Pelotas. Negros são a farta pé-de-obra dentro das quatro linhas.
Nas instâncias decisórias do futebol, contudo, são quase ninguém. Os números foram levantados por signatários do manifesto Esporte pela democracia, grupo encabeçado por Walter Casagrande e composto por essa brava gente que se dispõe a misturar política e cidadania com futebol, vôlei, basquete, natação, esgrima – a despeito da quantidade de cabeça de gado que deseja ver seu ídolo integrado ao rebanho, ainda que a caminho do matadouro.
 
Como se diz, nunca é só futebol. Entre os 28 presidentes da confederação e das federações do basquete brasileiro, nenhum é negro. Entre os 28 que comandam o vôlei, apenas três são negros. Só os escravos negros mortos durante o trajeto da África para o Brasil são o dobro daqueles que foram efetivamente escravizados nos Estados Unidos. Mas é preciso que os Estados Unidos se levantem por George Floyd, para que o Brasil se dê conta de que não é possível comentar o assunto na televisão tendo uma bancada inteira de brancos. E que há negros estudados e capazes de opinar sobre temas além do racismo, embora nunca sejam chamados. E que não basta a polícia matar sistematicamente as crianças (crianças!) negras para que o país exploda e os brancos no poder se sensibilizem.
 
O Atlético fez campanha pelo isolamento social na pandemia do coronavírus. Botou o ícone da casinha em seu perfil no Twitter. Fez lives com jogadores, golaço. Mas celebrou o início das obras de seu novo estádio, quando trabalhadores da construção civil deveriam estar em quarentena. São os pobres, e, portanto, os pretos, que morrem e morrerão para que a economia ande (e nem há sinal de que andará). Pretos e pobres serão sacrificados para que sobreviva o CNPJ dos brancos. Todo atleticano se emociona com o novo estádio. Mas se emergir um mundo mais justo depois do vírus, será preciso ser mais verdadeiro.
 
O Galo produziu um vídeo, muito bonito e emocionante, em que perguntava o que seria de nós sem os nossos negros maravilhosos, Reinaldo, Dario, Ronaldinho Gaúcho, Leonardo Silva. Mas, em plena pandemia e desemprego, demitiu o Seu Du, massagista do clube havia 36 anos. Um senhor negro que dificilmente encontrará outro trabalho. Se você não o conhece, reveja o último pênalti do Olimpia contra o Atlético na final da Libertadores: ele é o primeiro a abraçar o Cuca quando o técnico desaba no chão – achou que ele tivesse passado mal. Seu Du foi mandado embora pra gerar economia aos cofres do clube. Não fosse pela fama, Belmiro teria ido também. Certamente, o salário do seu Du será fundamental para a contratação de Róger Guedes, Marrony, Léo Sena, Alan Franco e Bueno.
 
Os pobres, e, portanto, os negros, foram alijados dos estádios. A democracia das arquibancadas foi substituída pela ditadura do consumidor. Quem paga mais fica nos melhores lugares. Quem não tem dinheiro fica em casa. Quem não pode arcar com um pay-per-view, bem, dane-se. Tudo isso parece natural, dentro da lógica da oferta e da procura, dos investimentos e do lucro. O futebol, no entanto, se resguardava como a utopia de um mundo possível, onde a congregação de todos era, no final das contas, o motivo da sua existência. O Galo era o retrato, em preto e branco, dessa coisa fora da ordem. Quando a Massa passou a segregar os seus, o que fizemos? Nada.
 
E assim, sem que a gente se dê conta, naturalizando as regras de um “mercado” perverso e excludente, sem acertar as contas com o passado, já não nos importamos. Nem com os vivos – e nem com os mortos.

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