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Estado de Minas Francisco Morales

Quais as tarefas da filosofia na pós-pandemia de COVID-19?

O vírus deixou em total questionamento alguns conceitos que dávamos como consolidados: fronteiras, nações, classes sociais e papel do Estado


27/07/2020 04:00 - atualizado 26/07/2020 21:13

(foto: Pixabay/Reprodução)
(foto: Pixabay/Reprodução)

A filosofia é um procedimento humano que afirma, sem deixar dúvidas, a liberdade de pensar. Nesse sentido, a filosofia se identifica com a história do pensamento humano e, portanto, do próprio ser humano.

Muitas vezes esquecida nas políticas públicas ou, quando muito, reduzida a um “conteúdo formal”, com um horário mínimo dentro do currículo das escolas, a filosofia como ciência teve e tem um papel preponderante na sociedade, pois se relaciona com o processo de emancipação intelectual do ser humano.

A grandeza da história do pensamento humano é incontestável. Basta destacar, a modo de lembrete, o fulgor dos grandes pensadores gregos e romanos; os debates eclesiásticos da idade média; as escolas especulativas; a apropriação do indivíduo no racionalismo; a apertura para os arcanos e o cosmos; a filosofia social, as lutas e os grandes movimentos de massas; o pensamento científico, tecnológico e algorítmico; a desconstrução do ser dependente e a ilusão de “sermos como deuses”.

A crise dos conceitos filosóficos básicos, significou o declínio da filosofia especulativa; com o avanço do século 20, também os empiristas tiveram que admitir o seu fracasso.

Vencidas as posições apriorísticas e empiristas, chegou-se à necessidade de conceber o conhecimento como um processo construtivo, seja no nível individual (do nascimento à morte) ou social (desenvolvimento da ciência moderna).

O conhecimento, base da vida de , tem se convertido hoje na base do poder. Porém, a situação atual trouxe de volta a centralidade do humano e, com ela, inúmeras perguntas vitais, acompanhadas de insegurança e angústia. Essa “nova realidade” irá exigir da filosofia um protagonismo necessário, assim como o trabalho dos filósofos deverá estar diretamente relacionado com a compreensão do que está acontecendo, com a necessidade de dar sentido ao viver e apontar aquilo em que erramos.

Quais os pontos de atenção sobre os quais deverá a filosofia deitar o seu olhar? Quais serão os novos compromissos nesse contexto? Destaquemos alguns, dentre outros possíveis:

* Refletir sobre a vida e a morte. Esses temas, sempre presentes na filosofia, foram aguçados pela pandemia e a sua letalidade (física e psíquica). A morte já foi vista na filosofia com indiferença, como um bem ou até como aniquilação. A filosofia deve nos ajudar a entender que somos mortais durante toda a vida, não apenas no final dela. Aprender a morrer é, na realidade, aprender a viver. Outro assunto em pauta hoje, é a perda de seres queridos e como encarar essa dor da separação e desgarro daqueles que faziam parte substancial da nossa vida.

* Apoiar a “importância da investigação científica”, que trabalhe e se desenvolva a favor de todos os seres humanos sem exceção. Isso significa exigir dos poderes públicos, nacionais e internacionais, um compromisso inquestionável com o financiamento da ciência básica, de qualidade e universal, para que os benefícios redundem em prol da coletividade.

* Denunciar o “exibicionismo moral”: discursos exagerados, moralistas, querendo mostrar uma falsa e anacrônica indignação e que têm como objetivo não o enriquecimento do confronto de ideias, mas sim firmar a ideia de que nós somos os que estamos do lado certo. Isso fortalece a intolerância com o pensamento dos outros e a polarização, dando vantagem aos mais agressivos e persistentes. Esse conceito, conhecido como “grandstanding”, foi elaborado por Justin Tosi e Brandon Warmke (2016).

* Fortalecer “a cidadania digital”. Interagimos cada vez mais através de espaços digitais. É uma cidadania digital privatizada, embora dependamos das grandes corporações que dominam o digital. Falamos de uma tecnologia situada, por analogia com o conhecimento situado. Significa entender o contexto e as necessidades locais concretas e dar respostas adequadas, para evitar o distanciamento humano, a manipulação e o aumento das brechas da injustiça.

* Apostar no “cosmopolitismo”. O vírus deixou em total questionamento alguns conceitos que dávamos como consolidados: fronteiras, nações, classes sociais, papel do Estado. A filosofia, que vem de uma tradição universalista, tem lições a dar desde os seus primórdios. Já na sua época, dizia Diógenes: “sou cidadão do mundo”; ou o estoico Hiérocles: “nas nossas relações com os outros, vamos construindo círculos concêntricos que nos aproximam dos outros, até dos desconhecidos”.

* Criticar a “invasão epistémica”, que acontece quando um experto num tema ultrapassa os limites das suas competências. O termo foi elaborado pelo filósofo norte-americano Nathan Ballantyne. No seu último livro, Conhecendo os nossos limites (2019), se pergunta: “Como mudar de ideia? como ser mais abertos, tolerar conflitos, avançar na investigação coletiva e enxergar outras perspectivas nesse mundo complexo?” Ballantyne defende uma abordagem interdisciplinar da epistemologia, misturando teorias filosóficas com insights das ciências sociais e cognitivas e desenvolve um método para distinguir entre nossas opiniões razoáveis e irracionais, que nos leve a uma maior abertura intelectual.

Se concordamos com Foucault que “escrevemos para transformar o que sabemos e não para transmitir o já sabido”, e o aplicamos à educação, teremos que concluir que é na construção do indivíduo crítico, solidário, competente e cidadão que a filosofia, a ética, a pedagogia e a política se abraçam.

Francisco Morales Cano
Professor e consultor
Diretor da Doxa Educacional

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