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Estado de Minas ESPUMA ESSENCIAL

Quando beber uma artesanal está para além de um gesto solidário

É verdade, foi um brinde um pouco sem graça, mas celebrava ali uma amizade que cruzara três, quase quatro décadas inabalável


postado em 12/12/2019 04:00

Putz!!! Aquilo era promessa que se fazia? Vá entender... Depois de se privar da sinuca com a turma, de abrir mão de navegar via celular ao menos às segundas e de cortar o torresmo de barriga semanal, tomaria a decisão mais radical. Tomou, estava tomada, e pronto. Cumpriria.

Era ele à mesa do bar, meio fora do corpo, quebrando um palito e outro, quando chegou Fabrício. Sorriso amarelo, um tanto sem assunto, fugia inteiramente ao perfil daquele Carlito que se apresentava feliz, sempre em duas doses acima da humanidade. Mais do que isso, espantava do que se servia.

– Suco, malandro? Doze torneiras de cerveja artesanal pra escolher de uma ponta à outra e te reencontro nessa nova onda. Febre?

Carlito ruminou se contava, se não contava. Contou, entre constrangido e triste.

– É promessa.

Fabrício amainou a voz, como solidário.

– Alguém doente na família?

– Não, velhão, é... é... Ah, deixa pra lá...

– Peraí, mano, agora você me deixou preocupado. Alguma bronca no trabalho? Tá tudo bem entre você e a Mari?

– Em paz no amor e na senzala, ve- lhão. Em paz.

Engoliu em seco, fez cara de amargor...

– É meu time, cara, meu time... Não ganha uma. Tá flertando com o inferno do rebaixamento. Eu suspendi a sinuca, restringi celular, aboli torresmo. Não adiantou. Então, embarquei na penitência monstro. Quase dois meses que não boto uma cerveja na boca. De repente, Deus tem misericórdia, né?

O fim da frase pôs Fabrício atônito, numa inquietude, que não se segurou.

– Deus?!?! Mas você é ateu, daqueles de ignorar até missa de sétimo dia.

– Ué, sou, mas vai que existe algum departamento de milagres aí pra cima...

Fabrício não era muito do mundo da bola. E, para piorar, ainda preferia o time rival, mesmo que não tripudiasse sobre a desgraça alheia. Sempre andou mais conectado ao universo da política. Não era uma provocação ao amigo, mas pôs o assunto na roda.

– Carlito, imagina se a galera aqui se mobilizasse tanto pra coisas fundamentais como se mobiliza pro futebol. Não teriam massacrado a aposentadoria nem teriam nos roubado tantos direitos sociais.

– Ah, não. Discurso político a essa hora, não, por favor. Eu na podre. Respeita o luto.
– Eu luto!

– Trocadilho infame...

Baixou um silêncio longo, não de desconforto, mas um tanto de descompasso, em que não se sabe exatamente onde colocar as mãos ou que palavras usar. Até que Fabrício quebrou o gelo. O garçom passando, chamou:

– Jurubeba, me traz um suco de goiaba, por favor.

O atendente e Carlito surpresos, face de espantalhos, repetiu, quase soletrando:

– Qual problema? Suco de go-ia-ba.

– Tem Ipa nova, sour, Bohemian Pilsen fresquinha, uma saison...

– Suco de go-ia-ba!

É verdade, foi um brinde um pouco sem graça, mas celebrava ali uma amizade que cruzara três, quase quatro décadas inabalável. Assim, Fabrício foi meticuloso ao retomar o papo.

– E a produção caseira, como anda? Tenho feito experimentos bacanas com umas ervas.

– Ah, sei lá... Tou meio parado. Tava indo bem com umas adições de gengibre e uma Rauchbier com um defumado de endoidecer... Até que o meu time...

– Caramba, Carlito, eu fazendo curva pra fugir de futebol e você volta com essa ladainha...

– Cara, juro, não consigo. Eu esqueço, pisco, e lá vem a lembrança, como se fosse uma goteira incessante sobre a testa. Vou fazer o quê? Sou apaixonado mesmo por essa porra e não tem como não sofrer.

Fabrício se deu por vencido. Conversaram mais um pouco e, na despedida calorosa, abraço afetuoso, prometeu:

– Ó, jamais torceria pelo seu time. Mas vou torcer por você, eu tipo neutro, congelado, pra que você não se machuque tanto.

Cada um tomou seu rumo na noite de brisa leve, céu generoso em estrelas, típico dos setembros.

E naquele domingo diante da TV, Fabrício, que empunhava outras bandeiras, respeitou o luto do amigo. Colocou as cervejas na geladeira. Não bebeu uma só gota. Com a derrota, a queda se consumava. Meia cidade indo às janelas, e foguetes viajando irados em todas as direções. Escuridão avançando, era ele à porta de Carlito. Nem telefonou, porque sabia que o encontraria ali, anestesiado. A sacola com seis artesanais variadas e, câmera lenta, tirou dali uma taça personalizada com o escudo da equipe que o amigo aprendera a amar. Entraram em silêncio. Serviu e, servindo, a espuma foi tomando as laterais, transbordando, como numa emblemática sangria. Bem o símbolo daquele instante em que, jogo perdido, era preciso recomeçar. Sempre.

Esta coluna é publicada quinzenalmente
eduardomurta.mg@diariosassociados.com.br

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