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Depois daquela dose de artesanal, o mundo certamente será outro

Num piscar de olhos, o telefone, preso entre o ombro esquerdo e a orelha, se desgarrou


postado em 18/10/2019 04:00

No exato instante em que o panelão começava a borbulhar, o bendito celular tocou. Era o tempo de correr e adicionar o primeiro lúpulo à cerveja em elaboração. Mas preferi, de qualquer modo, responder à ligação.

– Oiii....

Caramba! O primo Seabra! Caramba! Gente do meu time, mas costumava levar uns cinco minutos lustrando uma frase só pra contar que o gato estava no beiral do telhado. Prossegui.

– Fala, primo.

– Opa, beleza? Tava aqui lembrando uma coisa. Sabe aquela vez quando fomos àquela cidade...

Eu começando a me desesperar, conferindo o peso do lúpulo, ele falando naquele compasso que faz ansiosos se matarem, a panela fervendo, meus neurônios já em curto-circuito.

– Ô, primão, te retorno daqui a uns dois minutinhos. Segura aí. Vou só colocar o lú... putaquipariuuuu!!!!

– Ploft! Num piscar de olhos, o telefone, preso entre o ombro esquerdo e a orelha, se desgarrou. Foram centésimos de segundo que pareciam, em câmera lenta, condenação ao fogo eterno. Um rodopio, meus dedos batendo à borda, três giros em velocidade. E a morte discada num mergulho sob mais de 90 graus ardentes. Já era.

Pausei. Respirei fundo... E admito que virei a jarra num soluço tão amargo quanto o lúpulo. Chorei mesmo. Numa incerteza absurda sobre que cerveja sobreviveria àquilo. E, ao mesmo tempo, no arrependimento de ter, como tanta gente pelo mundo, transformado o celular numa segunda pele, um bicho de estimação, meia morada. Acabei por resgatá-lo mais tarde. Mudo. Morto. Disforme. E sem ouvir a história completa do primo Seabra...

O bom da festa é que, fim do mês, tínhamos uma Bohemian Pilsen maneiríssima. Saborosa. Equilibrada. Um tesão. E cá estou, quieto, pensando na vida, da janela de casa mirando a serra, e toca o celular. Origem desconhecida.
– Oiii...

– Ei, é o Bento?

– Ele.

– Bento, aqui é a Lígia. A gente não se conhece, mas tou bebendo da sua cerveja e tá rolando uma coisa muito maluca...
Putz!! Será que deu merda? Contaminação? Off-flavour dos inferno? O coração disparou, a boca secou, e o céu dava sinais de desabar sobre minha cabeça. Entre solícito e amedrontado, fui adiante. E como, diabos, descobriu o número do meu telefone?
– Mas, me conta, o que há com a cerveja?

– Ah, tá maravilhosa! É que...

– Ufa, que notícia boa...

– ... É que, no segundo copo, do nada comecei a ver imagens rodando no ar. E aquilo girava, girava, e lá no centro piscava um número repetidamente. Não sabia mais o que fazer. Daí, liguei...

– Lígia, juro que não sei como explicar.

Assumi o lado psicólogo.

– Mas as imagens te causaram algum incômodo?

– Não, não, não. Ao contrário. Era muita confraternização, encontro com amigos, um pouco de balada. Mas fiquei intrigada.

Daí, fui me socorrer na filosofia. Barata, reconheço.

– É normal. O que não conseguimos compreender às vezes nos inspira.

– E o seu número, que pintou aleatório no meio das imagens?

– Vá saber, de repente, é só o destino dando um alô...

A conversa migrou dali pra amenidades. Cachorro, música. Falamos de vinho, vida digital. Nos despedimos. Sem paquera, juro.

Eu absurdado, me recompondo daquele episódio que beirava as obras de realismo mágico e, na soneca de sabadão no fim de tarde, soa o celular outra vez.

– Oiii...

– Desculpa aí. Tou bebendo aqui uma Bohemian Pilsen e, pá-pum, a tela do meu celular pisca sem parar com o seu número. Já vi vídeos de produção cervejeira, fotos de formatura, casamento, Natal, futebol, praia. Tudo saltando meio desembestado. Enlouqueci? É uma espécie de efeito especial?

Fui toureando, tateando. Terminamos falando de economia. E eu afirmando a ele que aquilo deveria ser só extrema coincidência, dessas que nem mesmo tecnologia de última geração ou deuses seriam capazes de decifrar.

Me despedi e resolvi adotar uma medida drástica. Fui ao botão terminal e desliguei o celular. Por segurança, tirei a bateria. Quem me dera pudesse ligar a García Márquez, Murilo Rubião, Cortázar ou Borges, a que interpretassem aqueles sinais. Na manhã seguinte, segunda-feira, fui à jugular. Às 8h59, era eu à porta do lugar. Atmosfera de separação doída.
– Em que posso ajudá-lo, senhor?

– Quero me divorciar.

A atendente da operadora de telefonia me mirando, boquiaberta.

– Brincadeirinha... Quero só trocar o número do meu celular antes que alguém tome a primeira dose.

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