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Estado de Minas ESPUMA ESSENCIAL

A magia de transformar cerveja em histórias quase inacreditáveis

Será a voz dele que, do nada, entrecorta toda noite de rock lá no bar?


postado em 04/10/2019 04:00 / atualizado em 02/10/2019 18:13


Se era verdade, eu não sei. Mas como foi divertido! Da ponta da mesa, enquanto ia e vinha com os dedos por entre a barba (em que tempo inventaram o estereótipo de cervejeiro no estilo lenhador?), Guto repisava a história. A cada descrição, adicionava detalhes que tornavam tudo uma coleção de lances tão atraentes quanto fantasiosos. E eu apimentando:

– Então, quer dizer que sua cerveja, que transita só em dois quarteirões do Barreiro de Cima, foi parar lá do outro lado do mundo. E você bebeu dela num vilarejo do Pacífico...

As órbitas dele fizeram aquele movimento de dragão ferido.

– Putaquipariu!!! Vou contar de novo pra ver se acreditam.

Envergou o copo até o fim. Pausa. Todos vidrados nele para a retomada do caso. Dava a ele atmosfera que remetia a músicas do estilo Roberto.

– A noite era de chuva fina. Eu limpava o balcão, já me preparando pra fechar o bar, quando ela surgiu. Tinha jeito de gente perdida. Fôlego acelerado. Me olhou, conferiu as prateleiras, examinou os quadros. Sem se mover um milímetro. Saudei. Respondeu em sotaque estrangeiro. Feições orientais.

Um dos nossos quis saber, impaciente:

– Mas falava nossa língua?

– Nada... Usei todos os protocolos, até parar naquele meu inglês macarrônico. Fui oferecer e, feito mágica, ela balbuciou a palavra cerveja num português cristalino.

Um mais ansioso interrompeu:

– Conta a reação dela, caramba!

– Deu um sorriso de quem finalmente encontra uma coisa especial que nem parecia procurar. Sugeri uma Stout, das punks, mas ela preferiu uma Blond Ale, das Belgian.

– E gostou?

– Gostou?! Ela amou!! Saiu de lá com duas caixas. Falou o nome três vezes. Juro que não guardei. Tailandesa. Cinco meses depois, pra onde eu viajo a trabalho? Tcharãã... Tailândia!

A turma era um poço de incredulidade. Um de nós se antecipou ao que soava como suprema invencionice.

– Vai dizer que, por obra do acaso, topou com a tailandesa e com sua cerveja lá no quiprocó de uma vila do Pacífico?

– Exatamente. E ela não acreditou quando cruzei a porta. O espanto foi também meu. Boquiaberta, dava gritinhos, apontava o dedo, cobria e descobria o rosto com as mãos.

Alguém logo quis saber como terminava a parada.

– Ah, vão seguir sem saber se tenho filho tailandês com uma verdadeira sereia.

Mas jurava, invocando santos, que desde então ganhara olhos com contornos orientais. Tinha mesmo.

Ah, vá...

No papel de mestre da provocação, instiguei:

– Mais alguém com casos da série ‘Isto é incrível’?

Foi que Miro, que raro se manifestava, levantou o braço. Surpresa, porque variava unicamente de cerveja a rock pesado.

– Se lembram daquela Red Ale que produzi no início do inverno?

A maioria não se lembrava, mas, beleza, balançamos a cabeça.

– Vendi todo o lote com o primeiro copo que servi.

– Calma aí, o assunto é cerveja. De pescaria a gente fala depois.

– Verdade, porra! Era um sábado daqueles em que a cidade toda parece ter viajado e não entrava ninguém na growleria. A música pesada no talo...

– Peraí, não exagera. Seu fermentador menor é de 3 mil litros. Como é que vende isso num estalar de dedos?

– Vendi. Mas foi o meu negócio mais sinistro.

Os amigos se entreolhando, esperando o próximo lance.

– O sujeito assinou um cheque ali na hora. Reparei nos dedos longos. Voz cavernosa. Ao se despedir, falou num tom um tanto sombrio: ‘Seu Miro, esse negócio tem o significado de um pacto’.

– Mas o que ele quis dizer com pacto?

– Sei lá. Dei de ombro, carregando o checão que salvava mais do que o trimestre. Depositei, entrou na conta, mandei entregar.

– E termina assim?

– Pior que não. Antes de sair, ele se virou e, indicador em riste, praguejou sobre a trilha sonora.

– Foda-se. Se pagou... E como o cara se chamava?

– Nome esquisitão. Tal de Cauby. Cauby Peixoto.

– Cauby Peixoto, o cantor?!?! Mas o cara morreu faz mais de dois anos, doido!

– Taquipariu, gente!! Então será a voz dele que, do nada, entrecorta toda noite de rock lá no bar? E a galera adorando, achando que é discotecagem da hora aquela canção como uma navalha no vácuo de um Sepultura e Black Sabbath:

– ‘Conceição, eu me lembro muito bem...’.

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