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Estado de Minas ESPUMA ESSENCIAL

Dedicado cervejeiro leva as neuras pro divã

Vazamentos da chopeira e do tanque de fermentação inundam os sonhos de Francisco


postado em 09/08/2019 04:00 / atualizado em 08/08/2019 22:56




Não era pela bebida. Melhor, era. Muita gente diria: “Mas que mal há em sonhar com cerveja?”. Verdade é que jamais havia me imaginado num lugar daqueles. Uma cadeira confortável, em que a gente quer se deixar ficar. Uns quadrinhos discretos, os livros metodicamente organizados na pequena biblioteca. E um silêncio que me fazia perguntar de novo e de novo: o que é que estava buscando ali?.

Eu experimentava um misto de ansiedade e, confesso, uma certa ponta de alívio. Não tinha sido fácil a decisão. Procurar um consultório de análise. Nem sei como reagiria àquela sensação de me ver devassado, de me expor. Pensava nisso, quando o trinco da porta lateral se moveu, meio que me tirando do transe. Ela adentrou num sorriso acolhedor. Aquilo, de alguma forma, confortava.

– Bom dia, Francisco. Cervejeiroooo... É mestre cervejeiro?

– Estamos a caminho, quem sabe um dia...

Ela falava e o fim das palavras ganhava musicalidade. Taí: gostei da primeira impressão. Fiquei à espera da frase seguinte. Ela me olhando, eu, consulta inicial, sem saber quem começava o quê. Não tinha ideia de como “abrir” a sessão. Se mencionava o amigo que a indicara. Se logo apontava o que me angustiava. Ou se haveria um bordão clássico, tipo: “O que é que o traz aqui?”, “Como podemos ajudá-lo?”.

Daí, me surpreendi. Depois de se apresentar, ela fez o convite:

– Me conte um pouco do seu dia, Francisco.

Juro que sempre tive certa dificuldade de falar de mim. Me desconcertava. E arrisquei:

– A senhora se incomoda se o assunto puder ser a minha noite?

Delicadamente, ela moveu os olhos ao relógio. Eram 17h30. Percebi a incongruência e pronto me expliquei.

– Desculpe, não é dessa noite, claro. É das minhas noites.

– E o que há de especial nas suas noites?

– Quem dera tivessem só o lado especial...

Não era bem uma resposta. Era quase um pedido de ajuda. Falei, suspirei. A analista percebeu as reticências e esperou meu segundo movimento.

– Tou virando prisioneiro dos meus sonhos, doutora.

– E o que exatamente anda te incomodando neles?

– A repetição. A incapacidade de fazer parar, de controlar. E a sensação de que são tão reais que me fazem acordar uma, duas vezes madrugada adentro.

– E eles obedecem a uma lógica ou são algo que passa pro lado do surreal? Como é que os descreveria?

Cocei a cabeça, pensei numa maneira mais objetiva.

– Bom, eles são meio que um filme repetido. Há sempre o vazamento que vai inundando todo o quarto. É do tanque de fermentação, é de uma chopeira, é da mangueira desconectada. Vaza a cerveja toda e eu, feito um louco, tentando fechar uma torneira, uma válvula, sem conseguir. Sonhando, entro em parafuso. Já virou pesadelo, né?

A caneta dela agora se movia com mais velocidade, como se esperasse por aquele ápice, como uma espuma abundante. Deu-se um silêncio. E voltei:

– Tou doente, doutora?

Perguntei e fui contando da opção pela carreira cervejeira, nem tão nova nem velha. Que abrira uma pequena produção própria e tralalá...

– Não, Francisco. Tenha certeza, isso é resultado da ansiedade. Essa espécie de mal-estar que entra às vezes sem convite não exclusivamente na sua vida, mas no leito revolto da humanidade em diferentes graus. E abrir-se sobre isso é sinal maduro de sanidade.

– E o que fazer, doutora, dormindo com essa interrogação que, desculpa a força de expressão, embebeda quase todas as minhas noites?

A sessão prosseguiria, eu retornaria mais vezes. E jamais me esqueceria da frase. Longe das receitas prontas, longe dos clichês, tinha um quê de trocadilho, um quê de instigante desafio:

– Beba mais de suas esperanças do que de suas incertezas.

Um brinde, doutora. Continuo sonhando. Mas agora sonho diferente.

*Jornalista, escritor e cervejeiro





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