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Estado de Minas CORAÇÃO DE MÃE

Diário de bordo

Eles lançaram as cinzas no Ushuaia, na Argentina e em Torres Del Paine, no Chile. Eram lugares que eles queriam conhecer com Yumi%u2019


postado em 01/03/2020 04:00


 




Nossos corações voltaram a bater em sintonia 10 anos depois de tudo. Uma reportagem da BBC News Brasil me transportou de novo até Sonia Imanishi, de 59 anos, e Geraldo Faraci, de 64, pais de Yumi. A jovem de 18 anos que foi soterrada junto com mais dois colegas do curso de arquitetura naquele réveillon de 2010 para 2011, em Angra dos Reis, Rio de Janeiro.
 
Sônia sempre me surpreende. Aprendo que a dor de perder a única filha dá asas às boas lembranças e desejos de Yumi. Menos de 15 dias depois da morte dela, Sônia e Geraldo jogaram parte das cinzas dela no mirante Topo do Mundo, na Serra da Moeda, em Minas Gerais. No fim daquele janeiro de 2010, fizeram uma bonita cerimônia em Angra dos Reis. Junto com amigos da filha mergulharam para jogar mais uma parte das cinzas dela no mar.

Ao longo dos anos, ela e o marido recomeçaram. Decidiram que fariam o que amavam. Largaram o turismo, porque o trabalho na pousada era uma loucura e eles não queriam mais. A formação de Sônia é em artes e voltou a trabalhar como artesã. Geraldo que ama cozinhar, se tornou sushiman.

Antes de falar sobre a decisão do casal de voltar a viajar para jogar as cinzas da filha nos mais belos lugares do mundo, preciso dizer que conheci Sônia Imanishi há seis anos, quando ela me contou que a cura de uma dor que não tem nome veio através do barro. O mesmo barro que deixou cicatrizes profundas na alma dela. Entre ser vítima ou sobrevivente, essa mãe escolheu a última. Não partiu para o caminho de vítima nem de tentar culpar alguém por uma tragédia que poderia ter arruinado a sua vida por completo.

Os pais de Yumi eram donos da Pousada Sankay, na Enseada do Bananal, Ilha Grande, um lugar paradisíaco que escolheram para ter qualidade de vida e criar a filha junto à natureza. Até que o pesadelo veio na virada do ano de 2010, às quatro da manhã, depois das comemorações de ano-novo.

Até hoje, Sonia se belisca para saber se não está dormindo. Como se tivessem tirado o seu chão – e ela continuasse a flutuar sem bordas para segurar. Imagine perder ao mesmo tempo casa, trabalho e a única filha.

Conhecer Sônia Imanish é um presente para qualquer mãe. Com a simplicidade zen de seus antepassados, ela teve que refazer a vida, restaurando tudo, com paciência, aceitação e a força dos guerreiros samurais. Sônia é carioca, nasceu no Rio de Janeiro, mas é filha de pais japoneses que vieram para o Brasil no fim dos anos 1950. Até os 10 morou no Rio, onde os pais trabalhavam em uma indústria japonesa, depois vieram para Minas. Ela se confessa carioca, mineira e japonesa.

Desde 2012, o casal mora em um condomínio fechado em Brumadinho, Região Metropolitana de BH, onde está o ateliê de Sônia e o jardim em homenagem à filha, onde os girassóis estão sempre virados para a luz a lembrar da passagem rápida e ensolarada de Yumi entre nós. A casa tem todos os caquinhos da pousada, fica no meio do mato, embaixo do Topo do mundo, onde os pais jogaram parte das cinzas da filha que, por incrível que pareça, já havia expressado o desejo de ser cremada.

Foi justamente a urna com as cinzas de Yumi que fizeram de Sônia uma ceramista reconhecida. A ideia era aprender a fazer o mais belo pote em cerâmica para colocar as cinzas da filha. O antigo pote de porcelana nunca fora do agrado de Sônia, até que descobriu uma vizinha famosa, a ceramista Erli Fantini, com o seu gigantesco forno a lenha para queima do barro. Ficou apaixonada com o fogo, o barro e as pessoas em volta da queima. Descobriu que “o barro tem alma”.

Com o barro que soterrou os seus sonhos, ela reencontrou a filha. Cada peça de Sônia é dedicada a Yumi, pois as duas amavam arte. Viajavam, visitavam museus, pintavam juntas, seja em paredes, desenhos na pousada, na decoração e até nos barcos.

Na casa de Sônia em Minas, as lembranças da filha estão por toda a parte. Afinal em sua meteórica passagem pela Terra, Yumi falava cinco idiomas, tocava violão, teclado, compunha e reunia títulos como o de ser a segunda mulher a conquistar a faixa preta na arte marcial kobu-dô.

Se ela sente saudade de Yumi? Todos os dias. Sônia tem marcada na pele duas tatuagens em homenagem à filha: uma com o formato do violão dela, na perna direita, e outra com o nome dela, nas costas. O pai tatuou o rosto dela nas costas. Mas Sônia transformou a dor em arte. Pegou o barro que lhe tomou tudo e o transmutou em beleza. Hoje, ela respira a arte da cerâmica. Acorda às quatro da manhã para moldar o barro com a dor de perder, mas a felicidade de ter convivido com essa espécie de anjo que só esteve aqui para alegrar as pessoas à sua volta. Enquanto trabalha no barro, Sônia recita uma espécie de mantra: “Farei dos meus olhos os seus olhos e dos seus olhos os meus”.

A história continua a cada passagem de ano. Sônia e Geraldo combinaram que estar próximo de Yumi é continuar viajando. “E a cada lugar bonito que represente algo para nós, vamos jogar parte das cinzas dela. Faremos isso aos poucos, até acabar. Quando eu e Geraldo partirmos, um parente ou amigo se encarregará de jogar os nossos restos em algum lugar também.”

Pois não é que em 31 de dezembro de 2019, eles lançaram as cinzas da filha no Parque Nacional Los Glaciares, em El Calafate, na Argentina. “Estávamos em um catamarã e pedimos autorização para o comandante. Ele disse que abriria exceção e permitiu que a gente fosse para um cantinho da embarcação, perto a um paredão de gelo muito bonito, e lançamos as cinzas. Rezamos um Pai Nosso depois. Foi um momento lindo.”

Nos dias que se seguiram, eles lançaram as cinzas no Ushuaia, na Argentina, e em Torres Del Paine, no Chile. Eram lugares que eles queriam conhecer com Yumi.

Pretendem continuar a cada ano novo. Já escolherem o próximo lugar. Vão jogar as cinzas da filha na região de Açores, em Portugal, pois um amigo da família, que conheceu Yumi desde pequena, estará velejando por lá.

Sônia e Geraldo fazem um juramento: “Que possamos te levar até que o último de nós dois se vá. Que possamos realizar todas as viagens que um dia quiséramos fazer, para que possamos sempre guardar em nossas memórias o tamanho do nosso amor. E para que um dia, quando nós três nos reencontrarmos, tenhamos muitas coisas para contar. Até a próxima viagem, Yumi”. 

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