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Estado de Minas

Joia rara e preciosa

Ela gosta é da montanha em que vive cercada pela natureza, flores e verduras, animais, pássaros e respeito aos ancestrais'


postado em 05/01/2020 04:00


 
Ufa, até que enfim 2019 morreu, mas não sei se está sepultado. Tenho medo de alguns zumbis que ainda podem surgir nas esquinas do assombro. 2019 foi um ano de dores, de amargura, de fiascos homéricos, de atraso de vida, em que tive de ficar em silêncio quando queria berrar para o mundo. Ainda por cima, fui obrigada a aceitar a morte de amigos queridos já no fim de um ano catastrófico. Só para citar dois: José Luiz Longo e Luiz Fernando Perez, que partiram perto do Natal, como se eu não tivesse a morte de minha mãe, também nessa época, para lembrar – ou melhor – tentar esquecer a dor de perder. Como diz Arnaldo Antunes na música Envelhecer: “Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer”.
 
Quero dizer que já tenho os meus mortos, uma lista que vai crescendo a cada ano. Em um texto de Carlos Saul Duque, no dia em que o maestro Nico Nicolaiewsky morreu de leucemia, ele cita: “Ficar velho não é achar mais um fio branco de cabelo. Nem notar que aquela ruga de expressão aumentou consideravelmente. Ficar velho não é sentir mais dores do que antes. Ter que fazer mais exercício do que antes. Ficar velho, mesmo, é ver aos poucos o seu mundo ser despovoado de amigos. Dos seus tios queridos. De parceiros. De pessoas que você admira. De gente cujas ideias influenciam você. De talento. De visionários. De autores da sua época. De personagens da sua aldeia”.
 
Para que 2020 não nasça morto – e desperte algo dentro de cada um – vou falar de uma amiga que sempre me faz sentir viva. Longe dos holofotes, das vaidades, ela mora longe da cidade, em uma espécie de Macondo, de Cem anos de solidão, do escritor Gabriel Garcia Marques. O passaporte para conhecer essa joia rara pode ser uma flor, pois ela não liga para likes de celulares e redes sociais. Aliás, nem está no Facebook. Esqueça: ela gosta é da montanha em que vive cercada pela natureza, flores e verduras, animais, pássaros e respeito aos ancestrais. Leve um xale, uma saia rodada, um chapéu para dançar em volta do fogo, para escutar o som do tambor que é a ponte para a alma. Apenas vá, em silêncio.
 
Conhecer Magdala Ferreira Guedes, a Magui, é transformador, porque tem horas que essa dama das ervas exala o perfume da açucena. Em outras, ela toma a forma dos lírios ou se torna o tapete branco das flores de mirra que acabam de cair e cobrir o chão do caminho. Se você estiver por perto, pode ser que Magui conte o segredo da erva Mil em Ramas. É no próprio jardim do Sítio Sertãozinho, na Serra da Moeda, que ela busca o remédio para o corte do dedo que tanto incomoda.
Magui é assim: perfuma tudo à sua volta. É como flor: faz desabrochar virtudes, despertar valores esquecidos, sintonizar com o sagrado perdido dentro da pressa e da velocidade sem fim do mundo contemporâneo. Desligue o celular, pois Magui tem raízes profundas no ritual do pão que realiza há mais de 20 anos, com fervor, para intencionar a massa disforme da vida de cada um. E que tem se multiplicado há tempos, na alquimia e no milagre do pão.
 
Magui é assim: irmã na solidão da Terra e no desconforto do ser. Ela é bálsamo para os deserdados. Ela não é morna nem passa despercebida. Ela é como o Sol, ilumina tudo à sua volta. Ela é como o fogão a lenha que cozinha e aquece lentamente a comida que irá nutrir o corpo e o espírito dos convidados para o almoço. Ela não vive pregando, ela ouve. Ela é e deixa que o outro seja.
Tem horas que a gente acha que Magui é a própria Terra e sua urgência de redenção. Magui é a semente de um novo mundo. É o orvalho do amanhecer, mas conhece também as sombras da noite. Ela é a mulher sábia que conversa com as anciãs, que aprende com a Lua e com o Sol, que tempera o viver com o brilho das estrelas.
 
Magui é a montanha, a observar nossas inconsistências e inconstâncias. É o oráculo, o óleo essencial que unge nossas feridas ancestrais. É a geleia do pão que traduz afeto a quem entra nessa espécie de santuário chamado Sertãozinho. Ninguém sai de lá a mesma pessoa. Todos recebem o consolo merecido, o colo e o acolhimento necessários.
 
Foi com Magui que aprendi a ressignificar, a desdobrar, a sentir o cheiro de terra molhada. Foi com ela que rezei a oração da cura, da alegria de ser mulher, de se perdoar e de se reciclar. A partir deste mês e deste novo ano, quem quiser conhecê-la pode reservar as “Quartas com Magui”. Duas vezes ao mês, ela receberá as pessoas. Das 9h às 17h, todos poderão conhecer o universo de Magui, cujo vagão de trem que ela tanto sonha poderá levar cada convidado para uma viagem de aconchego. Cada um pode descobrir a própria natureza ao lado dessa pessoa que é o símbolo de um novo tempo, em que ser chique é viver na simplicidade.


*Déa Januzzi assina esta coluna quinzenalmente

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