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Estado de Minas CORAçãO DE MãE

Generoso não está mais aqui

"Foi embora, cansado dos maus-tratos, do abandono, dos chutes e pauladas, dos xingamentos"


postado em 23/06/2019 13:54

"Ficou conhecido por todos no Cipó como meu segurança, mas eu sentia que era meu protetor, ou melhor, uma espécie de anjo da guarda de quatro patas" (foto: Arquivo Pessoal)
Nem todas as rezas, mantras e incensos do mundo. Nem as benzedeiras, as bruxas e os orixás. Nem as videntes tradicionais ou virtuais. Nem a milícia celeste, com anjos e arcanjos. Nenhuma bola de cristal ou talismã. Nem os terços e rosários debulhados fervorosamente. Nem psiquiatras, padres, teólogos e cientistas podem explicar o tamanho da crueldade humana que parece não ter fim. Não dá mais para pensar no futuro. Muito menos prevê-lo. Até porque, pensar no futuro é algo que dá medo. Na verdade, o sentimento é de pânico.

Outro dia, tive mais uma prova da estupidez e violência do ser humano. Sem falar do massacre à natureza, que está sangrando. Apesar de ter escolhido morar por uns tempos na Serra do Cipó – um lugar considerado paraíso por turistas de fim de semana, que vão embora deixando para trás toneladas de lixo.

Mas, hoje, vou falar de um ser vivo em especial. Ele me adotou aqui na Serra do Cipó. Não pedia nada. Só me seguia. Eu parava, ele também. Quando sentava à sombra para escapar do sol ardente do cerrado, ele também. Não latia nunca, mas quando me via do outro lado da MG-10 vinha ao meu encalço. Atravessava a rodovia sem prestar atenção. Alguns carros freavam quase em cima dele, assustados com os meus gritos de para, para, para! Ah, que alívio, não foi desta vez. O meu grito conseguiu parar o carro como se fosse uma arma. Ele, então, chegava perto de mim, pulava em festa por ter me encontrado - e, em vez de latir, dava um grunhido que mais parecia um choro de alegria.

Ficou conhecido por todos no Cipó como meu segurança, mas eu sentia que era meu protetor, ou melhor, uma espécie de anjo da guarda de quatro patas, porque nenhum outro cão podia se aproximar de mim. Nesses momentos, ele avançava no pescoço do outro. Apesar dos meus protestos, ele só deixava o outro cão em paz quando esse se afastava de mim.

Nunca entendi aquele amor incondicional. Afinal, quem o alimentava era Waninha, a artista plástica da Rua Santana, onde eu morava. Ele apareceu por lá quando adotei a Mel, a vira-latas de olhos verdes. Não sei se porque Mel estava no cio ou se ele fora abandonado pelos donos. Depois o abandono foi confirmado. A dona se mudou para BH e o deixou na rua, ao deus-dará. Essa é a realidade da Serra do Cipó - e de outras tantas cidades.

Em BH, sei de trabalhos de defensores dos animais que não se cansam de lutar pela causa. Waninha também foi responsável por ter me apresentado a Mel, descartada na rua como um traste. Fiz até uma crônica para a Mel, que me conquistou. Contei até que, certo dia, ela fugiu de madrugada, em pleno cio e instinto animal. Voltou prenha e teve nove filhotes, alguns deles com a cara de Generoso. Sim, esse foi o nome que dei para o cão que se tornou meu protetor.

Silencioso, doce, ele vigiou o portão da minha casa. Quando Mel aparecia, eles se cheiravam pelas frestas do portão. Depois que xinguei Generoso bastante por ter um monte de filhotes, em uma paternidade irresponsável, ele nunca mais me deixou. Mesmo depois que mudei de casa e de rua. Por um tempo, Generoso ficou perdido com o meu desaparecimento.

Com certeza, pensou que fora abandonado de novo, até que me rastreou, correu ao me ver na rodovia e continuou a missão de me seguir, sem querer nada em troca. Ele me seguia à padaria, aos Correios, à lotérica, ao mercadinho Tá Caindo Fulô. Ele farejava meus passos. Até aos restaurantes ele ia comigo. Ficava quieto me esperando, até que presenciei uma cena de horror. O dono do estabelecimento chegou sem mais nem menos e deu um chute no Generoso, que saiu ganindo em disparada para a rodovia. Não consegui mais comer de nojo. Paguei a conta e fui embora. Por incrível que pareça, ele estava me esperando lá na frente. Conversei com ele sobre o ocorrido, fiz carinho, pedi desculpas pela monstruosidade e segui meu caminho com uma dor nova, no meio de tantas outras que já vivi. Não fui mais ao restaurante.

Aqui na Serra do Cipó, tem outras pessoas que também se preocupam com os maus-tratos aos animais além de Waninha, que é minha amiga do coração. Ela acaba de adotar mais uma que vivia na rua e fazia companhia ao Generoso. Já tem Fry e Flor há mais tempo. E agora está encantada com Valentina.

Aqui também tem Manu, Imaculada, Gisele, Joelma, Jussara, Luís, Orlando, Priscila, Marquinho e outros tantos que não somente batalham pelo fim das atrocidades, mas que adotam os cães de rua - e oferecem o que eles precisam: alimento, água, vacinas e afeto.

Tenho que voltar a falar de Generoso. Certa manhã, preparei-me para a caminhada diária e pensei em dar uma passada na casa de Waninha. Chamei no portão várias vezes, mas ela não respondeu. Estranhei e liguei para ela, que também não atendeu. Já estava voltando para casa quando Waninha ligou, pediu que eu esperasse porque tinha algo para me contar. Nem imaginava o que estava por vir.

Ela desceu do carro da Gisele e veio ao meu encontro. Estava séria demais, triste - e soltou a bomba. Generoso foi agredido de madrugada e estava morrendo no quintal do vizinho, quando foi avisada. Na mesma hora, ela e Gisele pegaram o cão e foram para São José de Almeida levá-lo ao veterinário. Aqui na Serra do Cipó não tem nenhum. Generoso ficou lá com a esperança de que iria se recuperar.

Generoso não resistiu. Morreu uma hora depois, mesmo com todos os cuidados. Foi embora, cansado dos maus-tratos, do abandono, dos chutes e pauladas, dos xingamentos. Como se fosse uma coisa a ser descartada como lixo, como um objeto velho, sem uso, um pedaço de nada. Os traumas na cabeça selaram o fim trágico do cão, apesar da torcida para que ele se recuperasse. Ainda bem que não o vi em seus momentos finais. Não iria aguentar.

Uma semana depois que Generoso partiu, sinto a falta dele por todo lugar. Estou só nas minhas andanças pela Serra do Cipó. Sinto um vazio, um buraco do tamanho da minha dor. Generoso me abandonou.

 

*Déa Januzzi assina essa coluna quinzenalmente


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