Publicidade

Estado de Minas IDENTIDADE COLETIVA PARA AÇÃO

Por que protestamos?

Cinco fatores essenciais explicam por que pessoas se mobilizam para protestos coletivos nas ruas e outros lugares públicos


10/06/2021 06:00

Protesto contra o presidente Bolsonaro em Brasília, em 20 de maio passado(foto: Correio Braziliense/Arquivo)
Protesto contra o presidente Bolsonaro em Brasília, em 20 de maio passado (foto: Correio Braziliense/Arquivo)


Por que as pessoas protestam? Essa pergunta tem ocupado a cabeça de inúmeros psicólogos sociais, sociólogos e cientistas políticos interessados em compreender como indivíduos avaliam os custos e benefícios de sair de casa para protestar nas ruas junto a centenas, talvez milhares de desconhecidos, e o impacto que protestos podem gerar nas instituições políticas.

Antes de tentar explicar o que leva as pessoas a protestarem, com base no que cientistas que estudam o fenômeno vem demonstrando, proponho um exercício. Que tal olharmos retrospectivamente para junho de 2020, quando começou uma onda de protestos nos Estados Unidos decorrentes do assassinato de George Floyd? Quais eram, naquele momento, as condições que influenciaram as pessoas a saírem as ruas, fazendo com que os protestos do movimento #blacklivesmatter reunissem mais manifestantes que os do movimento por direitos civis na década de 1960? 

O primeiro aspecto a ser pontuado é o impacto que a pandemia teve na vida das pessoas. Muitos foram obrigados a ficar confinados em casa, que se tornou seu único ambiente para o trabalho, educação dos filhos, lazer e descanso. Há que se ponderar o quanto essa experiência pode ter permitido maior senso de empatia para com as dificuldades enfrentadas por outras pessoas. Importante frisar também que, no início da pandemia, o presidente Donald Trump manteve uma postura negacionista frente a crise sanitária enquanto o número de casos e mortes causadas pela covid aumentava dramaticamente no país. 

A campanha eleitoral já se mostrava acirrada e a disputa pelos eleitores indecisos nos chamados “swing-states” se tornava mais difícil por conta das medidas de proteção que impediam aglomerações  (embora Trump tenha feito vários comícios com centenas de pessoas aglomeradas e sem máscara). Esse cenário de incertezas políticas e a experiência de passar por uma pandemia sem precedentes são ideais para aumentar o sentimento de insatisfação popular.

Entretanto, o evento, comum na vida de muitos negros nos Estados Unidos mas também no Brasil e outros países multirraciais, que funcionou para canalizar essa insatisfação, até então fragmentada em diferentes queixas, ocorreu no dia 25 de maio. Naquele dia em Minaeapolis, no estado de Minesota, George Floyd, um cidadão negro, foi asfixiado por 8 minutos e 46 segundos por um policial branco diante de várias testemunhas. A rápida circulação do vídeo mostrando todo o ocorrido nas redes sociais contribuiu significativamente para gerar comoção e indignação num grande número de pessoas. 

Essas razões, entre outras, levaram as pessoas a ponderar e sair às ruas para protestar contra a violência policial apesar dos riscos de exposição ao vírus da covid. Daquele momento em diante a frase “I can’t breathe”, repetida por Floyd enquanto era asfixiado, adquiriu um significado político gigantesco, capaz de reunir milhares de pessoas nas ruas de vários países em diferentes continentes em prol da justiça social.

Corta para o Brasil. Maio de 2021. Após o presidente Jair Bolsonaro desfilar de moto junto com seus apoiadores no Rio de Janeiro, relembrando estratégia semelhante protagonizada pelo líder fascista Benito Mussolini em 1933, um contra-movimento se formou e cresceu nas redes sociais. O chamado às ruas levou milhares de pessoas a protestar contra o governo em diversas capitais no dia 29 de maio.

Mais uma vez recorro ao exercício de escrutinar as condições que influenciaram as pessoas a ocupar as ruas, apesar das condições adversas. Enquanto nos Estados Unidos e parte dos países da Europa Ocidental a vida começa voltar a normalidade aos poucos, o Brasil atingiu a marca de quase 500 mil mortos e a vacinação segue lenta e caótica. A CPI da pandemia vem revelando que o governo federal optou deliberadamente por uma estratégia negacionista, criando um gabinete ministerial paralelo que o ajudou a tomar as decisões desastrosas que nos trouxeram a esse estado de coisas. O país atingiu a espantosa marca de 14,4 milhões de pessoas desempregadas e cerca de 19 milhões passando fome. E, apesar de ter deixado de responder 53 e-mails da Pfizer solicitando um posicionamento do governo sobre a compra de vacinas, a gestão Jair Bolsonaro foi célere em aceitar sediar a Copa América de última hora, depois que a Colômbia e a Argentina decidiram não mais sediar o evento.

Diante desse cenário desolador, não é forçoso afirmar que a sensação de não poder respirar, metáfora política que se agigantou após a morte de George Floyd, se aplica perfeitamente à situação vivida pelos brasileiros desde o início da pandemia. Por essa razão, a energia vital - expressão que tomo de empréstimo da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado – observada nas manifestações contra o governo no dia 29 de maio veio para se contrapor à sensação de asfixia que dominou parte significativa da população nos últimos 15 meses.

Voltamos então às minhas perguntas iniciais: por que protestamos? Qual o impacto dos protestos nas instituições políticas? Tanto as manifestações antirracismo do ano passado como o prenúncio de uma sequência de protestos contra o governo Bolsonaro neste ano contribuem para ajudar a responder tais questões. 

Estudiosos de movimentos sociais e protestos usaram, por muito tempo, uma metáfora mercadológica para explicar por que as pessoas protestam. Posta de maneira simples, é como se os cidadãos fossem consumidores e o Estado, o mercado. Os cidadãos demandariam bens e serviços do Estado e, quando não atendidos, lançariam mão de protestos como forma de induzir o mercado a se reorganizar para melhor satisfazer as demandas dos cidadãos. Mas essa metáfora é insuficiente para explicar os motivos pelos quais as pessoas protestam.

Psicólogos sociais, como o holandês Bert Klandermans, estudam a dimensão psicossocial dos protestos há décadas e propõem cinco fatores essenciais, encontrados nos dois exemplos de manifestações que detalhei acima, para explicar por que as pessoas protestam. Em primeiro lugar, é necessário que exista grande insatisfação que possa ser canalizada para a ação. A raiva expressa por indivíduos isolados é condição necessária, mas não suficiente, para a ação. É fundamental que um líder político ou uma organização, mesmo que virtual, ajude as pessoas a se mobilizar coletivamente.

Em segundo lugar, é fundamental que exista um sentimento de eficácia, ou seja, a crença de que é possível alterar a situação política pela via dos protestos.

A identificação é o terceiro elemento a contribuir para que as pessoas decidam protestar coletivamente. Quanto mais um individuo se identifica com um grupo maiores são as chances de que ele participe de protestos que beneficiem tal identificação. Mesmo que a pessoa não se sinta parte do grupo, ela pode se identificar a partir da sensação de partilharem um destino comum que é determinado pelo sistema político, o que pode estimulá-la a se engajar em protestos.

Emoções são elementos-chave para o protesto. A raiva, em especial, ao contrário do medo, desespero ou vergonha, serve para impulsionar as pessoas para a ação. Ademais, a raiva promove uma relação adversarial com as autoridades, induzindo ao confronto. Por fim, a integração social exerce um importante papel para que os protestos possam ocorrer. Dialogar com as pessoas sobre o que está errado e suas insatisfações cria um senso de compartilhamento de emoções e, ao mesmo tempo, ajuda a identificar o que tem causado tal insatisfação coletiva, de quem é a responsabilidade e o que pode ser feito a respeito. 

Todos os cinco elementos elencados acima são observáveis nas manifestações pelo #blacklivesmatter em 2020 e nos protestos de 29 de maio. Mas ainda fica uma questão a ser respondida: qual o impacto desses protestos na política? Não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito entre a realização de protestos e as respostas políticas a eles. As instituições políticas podem estar mais ou menos abertas às demandas vocalizadas nos protestos, pois a relação entre grupos contestatórios e o Estado não é apenas do tipo oposição-integração, mas também de competição.

Nesse sentido, para além da repressão, os agentes estatais podem restringir o acesso de atores sociais que protestam ao antecipar, e incorporar de maneira segmentada, algumas de suas reivindicações. Além disso, o grau de abertura institucional varia ao longo do tempo, a depender das configurações de poder e do grau de apoio coletivo dado às demandas daqueles que protestam. Por fim, os protestos têm mais chances de impactar a esfera político-decisória quando há uma certa divisão e instabilidade de aliança dentro da elite política.

As manifestações pelo #blacklivesmatter tiveram um inequívoco impacto na política norte-americana. Em várias cidades e estados foram elaboradas propostas de redução do financiamento das polícias e transferência dos valores antes destinados a segurança pública para as comunidades negras. Congressistas do Partido Democrata apresentaram um projeto de lei de reforma do sistema de justiça criminal e mobilização negra teve peso considerável na eleição presidencial, sendo responsável pela vitória democrata em alguns estados tradicionalmente republicanos.

Mas as manifestações contra o racismo e violência policial também foram seguidas de forte backlash. A invasão do Capitólio dos EUA em 6 de janeiro por supremacistas brancos e a tentativa de aprovar leis que aumentam a supressão do voto em mais de 40 estados são apenas dois, dos muitos, exemplos de reação virulenta às manifestações de 2020.

No Brasil, os protestos de 29 de maio serviram para mostrar ao governo que a insatisfação é generalizada. Porém, é cedo para analisar seu impacto político. Caso novos protestos ocorram, dando um caráter mais consistente e coerente à insatisfação observada em maio, é de se esperar uma resposta do sistema político. Porém, não há garantias de que essa resposta seja positiva. Sempre que acuado, Bolsonaro acena com a possibilidade de radicalização e ruptura democrática. Ademais, as polícias militares e as milícias podem contribuir para o caos social caso os protestos se tornem frequentes e se adensem. Sem contar a força da narrativa conspiratória, difundida e incentivada por Bolsonaro, sobre a possibilidade de fraude nas eleições.

O futuro dos protestos e seu impacto político no Brasil é incerto. Por isso é tão importante nos atentarmos aos seus desdobramentos, pois há riscos de que 2021 se converta num 2013 piorado. Ou não?

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade