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Estado de Minas Inspiração

As manhãs e suas luzes

"Costumo dizer que as manhãs me pertencem. Resolvi adotá-las para o meu deleite"


26/06/2021 06:00

(foto: Chezbeate/Pixabay )
(foto: Chezbeate/Pixabay )

As manhãs sempre me inspiram. São a infância do dia. As luzes sobre a cidade e a serra do Curral Del Rey aquecem e acendem para o espetáculo do acordar.

Costumo dizer que as manhãs me pertencem. Resolvi adotá-las para o meu deleite. Há alguns anos venho tentando praticar essa peculiar forma de desfrutar a única coisa que de fato temos na vida: o nosso tempo.

São nessas manhãs, que começam nas madrugadas, que escrevo, pedalo e, quase sempre, leio.

Leio de tudo um pouco. De mensagens de WhatsApp (as piadas principalmente), a filosofia e textos diversos. Começar o dia rindo é uma receita preciosa.

É nessa hora também, que respondo a alguns amigos próximos e distantes.

Eventualmente, muito distantes e jamais encontrados pessoalmente, como Irfan, que vive na Tanzânia.

Em minha primeira olhada no WhatsApp, me deparei com o relato de um efeito colateral comum, pós-vacinal, em um colega do mesmo grupo que participamos: febre baixa, dor de cabeça e algumas dores articulares.

A primeira hipótese, naturalmente, era que se trataria do processo natural de metamorfose para transmutação em jacaré. Teoria e premonição do Messias, assessorado pelo seu gabinete oculto de notáveis e letais desconhecidos. Megueles nacionalizados, defensores do cloroquinamento amazonense, tratamento precoce e imunidade de rebanho.

Tudo que nos colocou no pódio mundial de mortes nessa pandemia e, agora, a caminho de 1 milhão de mortes.

Na tentativa de acolher o colega em sua angústia metamórfica, dissertei sobre a provável origem daquela reação adversa tão comum.

Expliquei que, provavelmente, se trata de uma reação natural do nosso organismo ao adenovírus, usado como veículo para os marcadores imunogênicos do coronavírus. Simples resposta da nossa memória imunológica a um vírus ao qual sobrevivemos há milhões de anos.

Certamente, naquela época, o insumo terapêutico de hoje foi um pesadelo, o qual superamos com o sacrifício de milhares de nossos descendentes. Ou seja, o pesadelo pandêmico passado se transformou em uma das estratégias terapêuticas do presente.

Mas, não estaríamos brincando de Deus e mudando o curso natural da evolução humana, argumentariam os antivacinólogos e defensores da imunidade de rebanho. Deixa morrer até surgirem os super-homens daqui a 60 milhões de anos imunes ao vírus da moda.

Mas, como é madrugada de domingo, dia da semana que, na minha infância, sempre foi de ir à missa e visitar a divindade, me senti no direito de defendê-la.

Sim, se podemos brincar de Deus, é porque somos parte do todo universal. Poeira cósmica com livre arbítrio e amor ao próximo.

Mesmo sem entender nada dos cânticos em latim das missas das minhas manhãs de domingo, a energia abençoada do momento da comunhão me contaminou e fez sentir parte e fruto da complexa engenharia cósmica. Coisas que iluminam todos os meus dias quando abro os olhos.

Foi nesse momento que uma mariposa subitamente apareceu voando, passou bem perto do meu nariz e decolou rumo à luz do box do chuveiro. Em seguida, despencou e achou o ralo. Entrou ralo adentro e não a vi mais. Triste destino de mariposa.

Lembrei mais uma vez do meu amigo Treco. Velho companheiro de viola, sanfona e serenatas nas noites de Ibiá. Ele, sempre ao apagar das luzes de uma boa farra, recitava a poesia das mariposas: "Nois semos as mariposa, que voemos e esvoarcemos em redo das lampidas e não queimemos as asas. Oh flor."

Se Platão tinha Sócrates, eu tenho o Treco, meu avô, Didico e tantos outros com os quais aprendi a rir e a chorar.

Livre arbítrio!

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