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Estado de Minas CARLOS STARLING

A grande Ibiá e Greta Garbo

Médico traz memórias da infância na cidade vizinha a Araxá e conta a divertida história sobre uma sessão de cinema


(foto: ibia.mg.gov.br)
(foto: ibia.mg.gov.br)

Quando me perguntam, 'de onde você é?', respondo:
-Tenho dupla cidadania! Nasci em Belo Horizonte, mas sequei o umbigo em Ibiá.

A pergunta seguinte é a prova cabal da ignorância geocultural do interlocutor:
- mas, onde fica Ibiá?!

Princípios educacionais me impedem de dar a resposta desejada. Respiro fundo, seguro a língua e respondo:
- Sabe Araxá?! Fica perto de Ibiá...

Segundo Dr. Ivo Mendes, meu dentista na infância, se Araxá põe a mesa, Ibiá põe também, mas bem antes.

Araxá fez parte da minha infância, de forma mágica. Ir de Ibiá a Araxá era uma aventura. Estrada de terra, poeira que não acabava mais. Além disso, tinha ainda a ponte sobre o Rio Quebra Anzol. Vocês podem imaginar os peixes que apareciam por lá!

Eu sempre dormia logo depois da ponte e acordava sem saber bem onde estava. Mas, sabia que em breve estaria na casa da Tia Manuelita. Ela morava num sobrado próximo a cadeia pública, com um quintal fantástico, repleto de árvores frutíferas centenárias de todo tipo. 

Tia Manuelita era filha única de um prospero fazendeiro, Coronel José Ferreira, do qual eu tinha um certo temor pela altura e fala potente, que intimidava até quem ele queria agradar. Depois da morte dele, ela passou a viver no sobrado com sua empregada, Maria Chica, filha de escravos, surda e muda, cuja alegria, simpatia e carinho com as visitas contagiava meio mundo. Me lembro bem que o sonho dela era casar-se com um dos jovens soldados da cadeia ao lado da casa. 
 
Tia Manuelita virou uma colecionadora de objetos antigos. A sensação que se tinha em seu enorme sobrado era que estávamos num grande museu. Inúmeros relógios e louças de todo o mundo compunham o seu acervo, que rivalizava com o museu da Dona Beija.

Ir ao Barreiro e Grande Hotel era como estar em algum lugar da Europa. Sofisticação, luxo e elegância eram marcas registradas deste local. Os ossos de dinossauro expostos no Barreiro me fascinavam. A água fedorenta, nem tanto.

Quando eu voltava para Ibiá, tinha histórias para contar por semanas. Que sorte, Araxá pertencer a grande Ibiá.
 
Motivo de orgulho para quem mora em Araxá é saber que Buenos Aires também pertence à grande Ibiá. Defendi essa tese recentemente, quando fui fazer uma conferência no Congresso Argentino de Infectologia. 

Mostrei nos primeiros slides que o Rio da Prata nascia do encontro do Rio São João, Quebra Anzol e Misericórdia, primordialmente em Ibiá. Mais especificamente, próximo à Serra da Sobra, pertencente ao Sr. Juquinha Sobrado. Apesar de ser um homem de bem, se ele resolvesse, de uma hora para outra, fechar sua bica d’água e abrir de uma só vez, inundaria Buenos Aires. Pertence ou não à grande Ibiá? Imaginem vocês, os Argentinos não sabiam do risco que corriam!

Há cerca de 2 anos fui convidado pelo Governador para uma reunião. Ao saber da minha íntima relação com Ibiá, não se acanhou em reclamar da sombra da chaminé de uma das principais fábricas do vasto parque industrial da cidade em sua casa em Araxá. Claro, mesmo sem ter nada com isto, por educação, me desculpei.

Mas, todas estas recordações me vieram a cabeça por uma mensagem que recebi da minha sogra, Isaura Pena, com um recorte de jornal da Folha de São Paulo de segunda-feira, 15/11/1993, Coluna Painel/Contraponto, de autor não mencionado, o qual reproduzo aqui, com discretas “licenças poéticas”.
 
O título era “Garbo não morreu em Araxá”. Nos idos dos anos 30, o Cine Glória de Araxá (filial do Cine Brasil de Ibiá) anunciou a apresentação do filme “Dama das Camélias” - dividido em 2 partes, para aumentar a bilheteria.

A casa encheu e, antes da segunda sessão no dia seguinte, Mafalda, a loura mais cobiçada da cidade,  confessou ao jovem operador do cinema, Mimilo Araújo, que seria a mulher mais feliz do mundo se a heroína não morresse no final.

De olho na loura e comovido com seu desejo, Mimilo trancou-se na cabine munido de tesoura, fita durex e ousadia artística. Não teve dúvidas, reeditou o filme. Cortou as cenas finais e as substituiu por outras do meio da fita em que Greta Garbo aparecia aos beijos com Robert Taylor. Exibido o filme, choveram protestos. O prefeito Villas Boas, futuro ministro do STF, estimulou a ira do promotor Christiano Barsante. Chamaram o projecionista:
- Semana passada, assisti a este mesmo filme em Ibiá. A atriz morria tuberculosa no final. E aqui não?,  começou Barsante.
- Uai doutor, todo mundo sabe que o clima de Araxá é muito melhor que o de Ibiá, fulminou Mimilo.

A quem diga que, eventualmente, Greta Garbo passeia pelas noites de Araxá, linda e vivinha até hoje. Em Ibiá ela vai de vez em quando, apenas a negócios, ou para sentir o gostinho de “Boi” nos Aires...

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