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Estado de Minas COLUNA

Um prato de família... conceito de solidariedade

O que estas pessoas longevas nos dão e deram de tão precioso? Elas nos deram as suas vidas e nos ensinaram a cuidar uns dos outros com carinho e respeito, até mesmo depois da morte


(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)

A longevidade, por enquanto, é um privilégio de poucos afortunados. Ao longo da vida, quase nunca pensamos na morte, digo, nossa morte.

Geralmente, miramos nos 100 e, como diz o Zeca, deixamos a vida nos  levar...o que vier depois disso é lucro.

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)
Na infância, começamos a percebê-la com a perda de um ente querido. No meu caso, foi a minha avó Lala, mãe da minha mãe. Eu tinha 7 anos e estava no grupo escolar quando mandaram me chamar avisando que ela havia morrido.

Eu ainda não entendia bem aquele novo sentimento. Eu deveria chorar, mas ainda não sabia porquê. Eu a adorava, mas a minha ligação com meu avô era tão forte, que as vezes ela nos incomodava com suas rabugices.

De certa forma, estaríamos livres para caçar, ir para a fazenda e nos divertirmos. Isto, ele fazia como ninguém.

Esta foi a metabolização da morte da minha avó. Entre o grupo escolar Dom José Gaspar de Ibiá e a minha casa, na Rua 20, número 67, eram apenas 600 metros.

Ao chegar em casa e ver o sofrimento da minha mãe, em prantos, arrumando o corpo da própria mãe, foi que comecei a entender o que significava a dor de uma perda. A dor da minha mãe era tão grande, que eu chorava pelo desespero dela.
Talvez, neste momento, eu tenha, de fato nascido...

Minha mãe a vestiu com a roupa de sempre. Uma saia cinza que ia até o meio da canela, as mesmas pelas quais o meu avô havia se apaixonado.

A blusa era estampada de azul, usada apenas em dias de festa. Era de abotoar pela frente. Ficou abotoada até o último botão. Naquele momento, um lenço amarrava o seu queixo à cabeça. Minha mãe era uma exímia arrumadeira de defuntos, não deixaria jamais a vovó ficar de boca aberta.

Esta função social da minha mãe, me rendeu muitos traumas, dos quais demorei para me livrar.

Meu pai cuidava dos vivos e minha mãe dos mortos. Ela chorava pelo defunto alheio. Todos, sem exceção. Aprendi com ambos o conceito de solidariedade.

Um dos traumas que me assombrou durante muitos anos foi a morte da Tia Mariquinha. Ela não era de fato minha tia, mas eu a chamava assim, ela gostava.

Tia Mariquinha era uma senhora gorda, muito gorda. Risada fácil, sacudida e gostosa. Uma risada, da qual se ri, da própria risada.
Na sua casa sempre tinha guloseimas mil. Ela adorava assentar na varanda de casa com um balaio de manga espada e ir descascando, para ela e para quem estivesse do lado.

Meu pai a visitava sempre num sítio próximo à cadeia pública, às margens do Rio Misericórdia. Ele a tratava de uma ferida na perna que não sarava nunca. Mas, isso não parecia incomodá-la, nem a mim...

Certa madrugada minha mãe foi chamada às pressas na casa dela. Eu fui junto. Tia Mariquinha havia morrido. Suas duas filhas choravam e se trancaram num quarto.

Minha mãe estava sozinha para arrumar a Tia Mariquinha, cujo peso estaria na casa de muitas arrobas, segundo meu avô.

Puxa de cá, ajeita de lá, prende o queixo, enfaixa a perna e segura uma mão contra a outra e amarra. Foi aí que ela me pediu:
- Carlos Ernesto, segura a mão da Tia Mariquinha para a mamãe.
 
Lembro-me que que aquelas mãos quentinhas e que descascaram tantas mangas e laranjas para mim, agora estavam frias e azuis. Eu até que tentei segurá-las, mas era muito peso. A mão soltou e me deu um belo de um tapa na cara.

Tia Mariquinha estava me acordando para a vida...

Eu nunca mais ouviria aquela risada sacudida, não teria o carinho dos bolos e biscoitos. Aquelas mãos caprichosas e amigas não mais descascariam laranjas...

E assim, uma a uma, estas pessoas maravilhosas foram indo embora. Meu pai, meu avô, meu irmão e, por fim, minha mãe.
Na vez dela, eu, seu companheiro de tantos defuntos, a peguei em casa com uma forte dor abdominal. Boa coisa não seria.

Acompanhei a tomografia e não restava dúvida que se tratava de grave isquemia mesentérica. Doença que aos 93 anos é praticamente fatal. Eu a deixei no hospital para ir em casa trocar de roupa e me arrumar para a longa noite que viria. 

Ao me despedir, ela arrumou o meu jaleco, abotoou até o último botão, da mesma maneira que fazia quando eu saí para o meu primeiro dia de escola. Foi assim...

O que estas pessoas longevas nos dão e deram de tão precioso? Elas nos deram as suas vidas e nos ensinaram a cuidar uns dos outros com carinho e respeito, até mesmo depois da morte.
Que privilégio as ter tido por tanto tempo. Queria que não acabasse nunca, mas acaba... 

Acaba, mas continua em nosso jeito de olhar e abraçar o mundo.
O lado mais cruel desta epidemia não é o fato do vírus levar com maior probabilidade os mais velhos, mas é o desprezo do Estado por estas figuras que nos são tão caras.

Me rejuvenesço ao conviver com o espetáculo de Maria Helena Andrés, que na vibração dos seus aniversários, que se aproximam dos 100, inventa músicas e presenteia a todos com fino humor, arte e sensibilidade.

Me emociono ao assistir a elegância e serenidade da Rainha Elizabeth, aos 94 anos, condecorando o capitão Tom Moore, de 100 anos, pela sua ação filantrópica de caminhar em torno de casa para arrecadar fundos para os profissionais de saúde em plena epidemia. Arrecadou 33 milhões de libras, quase 300 milhões de reais. Ele afirmou ser aquele o dia mais feliz de quase um século de sua existência.

Mas, impressionante mesmo é o otimismo e vivacidade da avó do Bráulio, cujo nome verdadeiro, até seus filhos costumam esquecer. Dona Fé, aos 103 anos, está preocupada com a insanidade e falta de sensibilidade dos nossos governantes:
- Que mundo este povo vai deixar para mim...


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