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Estado de Minas PADECENDO

Padecer num paraíso não significa deixar de amar

'Quando uma mulher diz que odeia ser mãe, ela não está dizendo que odeia seus filhos. Ela está dizendo que odeia o peso que a maternidade trouxe para sua vida'


03/10/2021 04:00 - atualizado 03/10/2021 11:41

A função da mãe numa sociedade machista e patriarcal é muito desgastante
Virou moda mulheres dizerem que odeiam ser mães. É confuso pensar que podemos amar nossos filhos e odiar a função de mãe ao mesmo tempo


Ser mãe é carregar um enorme peso social. Virou moda mulheres dizerem que odeiam ser mães. É confuso pensar que podemos amar nossos filhos e odiar a função de mãe ao mesmo tempo. Quando uma mulher diz que odeia ser mãe, ela não está dizendo que odeia seus filhos. Ela está pedindo socorro!

Não é arrependimento de ter filhos. Não é sobre não amar os filhos. É sobre não amar o peso da maternidade. Não amar as cobranças. Não amar as exigências que a sociedade nos faz sem dar nada em troca. É sobre estar exausta. Sobre estar sobrecarregada.

A função de mãe numa sociedade machista e patriarcal é muito desgastante. Quando uma mulher tem um filho, ela perde muito mais do que o homem na mesma situação. A mãe abdica do trabalho, do dinheiro, de noites de sono.
 
A mãe leva ao médico. A mãe se preocupa em dar uma alimentação ba- lanceada. A mãe vai às reuniões da escola. A mãe chega atrasada no traba- lho para levar o filho ao dentista. A mãe busca terapias, diagnósticos. A mãe or- ganiza as roupas. A mãe compra material escolar. A mãe cuida da logística. Quando acontece alguma coisa com a criança na escola, é para a mãe que ligam primeiro. Quando a criança apronta, a culpa é da mãe. Tem pai que faz algumas dessas atividades? Tem, mas é minoria. A responsabilidade, o trabalho de cuidado não remunerado, é da mãe.

Pai abandona filho, briga por causa de pensão alimentícia e fica por isso mesmo. Mãe fala que odeia ser mãe, mesmo sendo a melhor mãe do mundo, e é apedrejada.

Tudo o que torna a maternidade mais difícil, mais pesada e mais sofrida em tantos momentos é não ter com quem dividir a carga. E não falo só das mães solo. Culturalmente, todo o trabalho de cuidado com filhos, com a casa e tudo mais é atribuído às mu- lheres. E esse trabalho, além de não ser remunerado, é invisível aos olhos dos outros.

Ser mãe é sentir medo. Medo de o país piorar tanto e ficar inviável para seus filhos. Medo de não estar fazendo nada certo.

Ser mãe é ser chata. É saber que sempre vai dizer muitos nãos, e vai colocar limite. E que vai fazer os filhos sentirem raiva. Que vai fazer os filhos passarem vergonha.

Ser mãe é adoecer e sentir medo de morrer imaginando como seria difícil se virarem sem você.

Ser mãe é surtar querendo um pouco de espaço, e morrer de saudade quando os filhos estão longe.

Mãe tem que fazer tudo com hora marcada. Falar tudo 20 vezes. Tem que se preocupar com alimentação, com escola, com rotina. Mãe odeia e, ao mesmo tempo, ama tudo isso!

“Ser mãe é andar chorando num sorriso!

Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!

Ser mãe é padecer num paraíso!”

- Coelho Neto

 Ser mãe não é só amor. Precisamos parar de romantizar a maternidade. Nenhum relacionamento é feito exclusivamente de amor. Entre mãe e filho não é diferente. Ser mãe custa caro para as mulheres. Custa sonhos. Custa a carreira. Custa liberdade.

Se uma mulher te disser que se arrepende de ter tido filhos, cuide dela, acolha. Quando uma mulher chega a verbalizar isso é porque ela já não está dando conta nem de si mesma. É porque ela está tão exausta que não vê saída. Ela pode estar com depressão. Ou pode ser Burnout materno (síndrome de Burnout é um distúrbio psíquico causado pela exaustão extrema).

Se você é mãe e está se sentindo assim, nunca diga aos seus filhos que você se arrepende de ser mãe. Diga que ser mãe às vezes é bem difícil para você, mas que você os ama. Seguir a vida com nossos filhos é o que nos faz mais felizes. É importante se lembrar disso. Se a maternidade pesa, não devemos responsabilizá-los. Não devemos dizer que nos arrependemos de tê-los. Não vivemos sem eles.

Se você estiver se sentindo assim, busque ajuda profissional. Essa ajuda não vai mudar a sociedade, mas vai te ajudar a encontrar uma saída para os problemas.

Se você está se sentindo assim, lembre-se de que a solução definitiva para todas essas questões maternas é o feminismo. A equidade entre os gêneros. A divisão da criação dos filhos entre pai, mãe e sociedade. Esse é o caminho para que nossas meninas não passem pelas mesmas dificuldades quando forem adultas.

A maternidade te freia e te impulsiona ao mesmo tempo. Por isso somos tão loucas! Por isso, mesmo sobrecarregadas, não desistimos! Ter filho é ótimo, mas ser mãe é foda!

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