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O racismo existe


postado em 15/03/2020 04:00 / atualizado em 11/03/2020 19:06

(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)

''Racismo é tão enraizado na nossa cultura que está além do nosso raciocínio lógico, e do nosso discurso de defesa por igualdade'''


Sempre travo quando vou escrever sobre racismo. Nunca sofri racismo, portanto, esse não é meu lugar de fala. Mas venho sentindo necessidade de falar, porque abri meus olhos e agora vejo esse racismo velado o tempo todo. Me dei conta de que a luta antirracista tem que ser minha também.

Preciso começar pedindo desculpas por todas as atitudes racistas que tive ao longo da vida. Não foi por maldade, muitas vezes eu nem reparei o que estava fazendo, porque é assim que a gente aprende desde que nasce. De uma forma muito dissimulada a gente cresce entendendo que as pessoas valem mais ou valem menos de acordo com a cor da pele.

E a gente vai absorvendo essas ideias de uma forma que é preciso um trabalho diário para tirá-las da nossa mente. Leva tempo para nos libertar de um aprendizado equivocado de uma vida inteira. Me perdoem.

Às vezes, saio de casa sem nenhum documento e sem nenhum medo de ser parada pela polícia, de ser confundida com bandido, de não ter documento para provar que sou "cidadã de bem". Me preocupa mais sair com documento e ser roubada ou perdê-lo do que não ter como provar que eu não sou bandido.

Já saí correndo feito uma louca pela rua, atrasada para algum compromisso e ninguém achou que eu estivesse fu- gindo. Nunca fui barrada na porta giratória do banco, mesmo carregando uma bolsa enorme e cheia de tralha, sem conseguir tirar todos os objetos de metal lá de dentro.

Nunca sugeriram que eu usasse meu cabelo para ariar panela. Ninguém nunca disse que não ia discutir comigo por causa da cor da minha pele. Nunca me perguntaram se eu moro na favela. Nunca acharam que sou babá do meu filho. Nunca fui confundida com empregada doméstica. Nunca olharam torto para mim no elevador social achando que eu deveria usar o elevador de serviço. Quando eu entro numa loja, ninguém acha que eu não vou ter dinheiro para pagar por algum produto.

Pessoas negras passam por situações como essas o tempo todo. Eu vejo os olhares, as falas, os gestos, as ações. Atitudes que costumam vir daquelas mesmas pessoas que gostam do discurso: “Somos todos humanos”.

Branco já vem com "honesto e trabalhador” tatuado na testa, não precisa provar nada para ninguém. Às vezes o branco é até bandido, mas não tem cara de bandido. Por que será?

Quantas vezes você já ouviu alguém dizer: “Só podia ser preto!”. Quantas crianças negras você viu sozinhas no recreio em escolas particulares, onde a maioria dos alunos é branca? Aliás, quantas crianças negras você vê na escola particular do seu filho? Quantas vezes você já ouviu alguém dizer que preto não aprende?

Quantas pessoas você conhece que deram a “sorte” de nascer com a pele clara ou o cabelo “bom”, apesar de ter pai ou mãe negro?

“Ah, eu não sou racista, eu convivo com muitos negros”, disseram. Convive mesmo com a babá do filho, o garçom do bar, o porteiro do prédio, o segurança do banco, a faxineira, a empregada doméstica, o caixa do supermercado, o auxiliar de enfermagem do hospital.

E quando o negro é o médico, a professora da escola particular, o passageiro do avião, o hóspede do hotel? Ou quando o negro é o sócio do seu clube, o colega de sala do seu filho, sua colega de profissão, seu chefe? Isso incomoda?

“Mas como fulana conseguiu se tornar arquiteta?”

“Como eles podem ter dinheiro para se hospedar neste hotel?”

“Médico negro? Não vou confiar nesse diagnóstico!”

Racismo existe.

Você ficaria feliz se fosse tratado como uma pessoa negra é tratada na nossa sociedade?

Eu poderia parar por aqui, porque tenho certeza de que ninguém diria que sim. Que ninguém ia querer trocar sua pele clara por uma pele preta. Racismo é tão enraizado na nossa cultura que está além do nosso raciocínio lógico, e do nosso discurso de defesa por igualdade. Somos racistas na essência.

A miscigenação no nosso país reforçou essa crença de que racismo não existe. “Somos um povo que exala diversidade!” Mentira! A carne mais barata do mercado continua sendo a carne negra.

A taxa de homicídios de pessoas negras é muito maior que a de pessoas brancas.

Os salários dos negros são menores que os salários dos brancos. Um levantamento do IBGE mostra que mulheres brancas ganham 70% a mais que mulheres negras. Sendo que a maioria das mães solo brasileiras são negras. Elas também recebem menos que os homens. Além disso, as mulheres negras são as que têm menos acesso aos serviços básicos.

Mulheres negras são chefes de família, sustentam casas sozinhas e criam filhos com os piores salários. Que futuro essas crianças terão com uma mãe sobrecarregada, exausta, sem acesso a uma educação de qualidade e vivendo à margem da sociedade?

As mulheres negras são solitárias. Desde a época da escravidão elas eram usadas como escravas sexuais. Mulheres brancas serviam para ser esposas, mulheres negras serviam para sexo. Ainda hoje, as mulheres negras têm dificuldade em ter um relacionamento sério; na hora de assumir compromisso os homens procuram as brancas. A sexualização da mulher negra também é um reflexo do racismo.

Enquanto não buscarmos soluções e tivermos políticas públicas eficientes, a situação não vai mudar. E se a situação delas é difícil, a situação dos filhos delas também será.

Vou voltar a abordar essa questão em breve, porque ainda há muito a ser dito. Por hoje, queria dizer que há racismo no Brasil e dizer o contrário é hipocrisia. Dito isso, fica o lembrete:

Racismo existe.

Racismo não é opinião.

Racismo é crime.

Racismo não deve ser aceito.

Não existe racismo reverso.



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