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Estado de Minas PADECENDO

A vida te obriga a seguir, você escolhe se vai sorrindo ou resmungando

Em 2019, a proximidade com minha própria finitude foi uma experiência enriquecedora


postado em 22/12/2019 04:00 / atualizado em 22/12/2019 08:19


 
Em fevereiro de 2016, perdi uma amiga. Michelle descobriu um câncer de estômago em janeiro, operou em fevereiro, tudo certo, mas ele teve uma embolia uns dias depois. Ela dormiu e não acordou mais.
 
Gabo, filho dela, era amigo do meu filho. Ela era moderadora do grupo @padecendo, postava coisas bonitinhas toda noite, o #helppadecendo. Um dia, ela sentiu dores no estômago e foi isso. Tudo muito rápido. Tinha 42 anos. Partiu deixando marido, filho de 8 anos e várias viúvas. É incrível o poder da doçura. Muita gente chorou por ela sem tê-la conhecido pessoalmente. Ela fazia diferença na vida das pessoas.
 
Quando descobri o meu câncer, em março de 2019, não teve como não pensar nela. E meu filho também associou o meu diagnóstico com o dela. Ele perguntou se eu ia morrer, afinal, a Micho teve câncer e morreu.
 
Mães são seres mortais, eu não podia dizer que não ia morrer. Respondi que o câncer dela era diferente do meu, que o estômago é muito mais importante que a mama, que ela fez tudo que podia, mas que quando chega a hora, não tem jeito mesmo.
 
As mamas servem para amamentar os filhos, a função já havia sido cumprida maravilhosamente com ele e não terei mais filhos. A única coisa que eu podia prometer era que ia fazer tudo o que fosse recomendado pelos médicos. Também contei que o médico disse que eu tinha 80% de chance de cura e perguntei se ele achava que a gente devia se segurar nesses 80% ou deveria pensar nos outros 20. Ele concluiu que 80 é um número muito bom e que nos prenderíamos a ele.
 
Uma coisa que aprendi com a vida foi a nunca mentir nem esconder nada do meu pequeno. Crianças merecem saber a verdade, mesmo que a verdade seja que mães não vivem para sempre. A gente conta de um jeito que a criança consiga entender de acordo com a faixa etária. Mas conta.
Para deixá-lo mais seguro, levei-o à consulta pré-operatório, minha mastologista também é mãe, assim ele participou da consulta, ouviu toda a conversa com a médica. Em casa, até contou para minha mãe que eu estava com medo da anestesia geral e que tinha muito mais medo de embolia. Eu nunca tinha feito nenhuma cirurgia.
 
Como muitas outras mães que têm câncer, operei para retirar o tumor, depois fiz 20 sessões de radioterapia e hoje eu tomo Tamoxifeno para evitar uma recidiva. Viver demanda uma boa dose de coragem e 2019 precisou de muitas doses extras. E, de repente, a gente olha para trás e vê quanta coisa já passou. Que foi difícil, mas deu tudo certo.
 
Essa proximidade com minha própria finitude foi uma experiência enriquecedora. Quando olho para trás me sinto tranquila. Sentindo mais necessidade de manter a paz interior. Lembrou-me que ninguém é totalmente bom, nem totalmente mau.
 
Embora o clima tenha sido de polarização, consegui entender que ninguém está 100% certo, nem 100% errado. Que a interpretação que cada um tem do mundo depende muito das suas vivências.
Que neste Natal, e todos os outros dias, a gente busque olhar para dentro e a ser empático, acolher.
Minha amiga Michelle dizia que “a vida te obriga a seguir em frente, você escolhe se vai sorrindo ou resmungando”.
Vamos sorrindo?

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