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Coronavírus vai nos deixar diferentes

Dificilmente o mundo e o Brasil sairão da pandemia do COVID-19 do mesmo modo como entraram. A crise vai passar, como outras, mas as sequelas serão maiores


postado em 15/03/2020 04:00 / atualizado em 14/03/2020 22:11

Um dos personagens da crise viral, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deputado licenciado do DEM, governa as ações de combate à doença com claridade e sobriedade(foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Um dos personagens da crise viral, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deputado licenciado do DEM, governa as ações de combate à doença com claridade e sobriedade (foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Quando passar a pandemia do coronavírus, e ela passará como também passaram as muitas pestes que afligiram a humanidade, o que sobrará será o julgamento sobre a capacidade do governante superar as perdas humanas e materiais. Talvez seja não mais que isso, tal como foi a sequência da síndrome respiratória aguda grave, ou SARS, em 2003 – bastante letal, da mesma família do COVID-19, e rapidamente contida. A expectativa é que o novo coronavírus, para o qual não há vacina, tenha o seu ciclo de incubação e infestação tão breve como a SARS.
 
As implicações, porém, segundo visionários da tecnologia e líderes políticos e empresariais, poderão ser mais profundas que os surtos virais cada vez mais comuns. O COVID-19 chega como um choque exógeno sobre um cenário já bastante polarizado nas democracias ocidentais e asiáticas. Pode, na prática, precipitar, na política, a insatisfação com governantes e sistemas de governo e, na economia, a aplicação de inovações disruptivas. Tais eventos vão reforçar mudanças sociais e culturais já em estágio avançado. A incerteza se tornou permanente.
 
Com a economia mais atrasada entre os países emergentes com alguma relevância e às voltas com a obsolescência da governança pública, bem maior que a crise de representatividade do sistema político, o Brasil dificilmente sairá como entrou na epidemia. Tão grave quanto o vírus é que não há nenhuma discussão sobre o que nos aguarda adiante. Se no passado longínquo à falta de como curar os doentes e evitar a infestação os poderosos de turno pediam orações à plebe, culpavam as influências malignas e instigavam caça às bruxas – as fake news de outrora, que sempre existiram –, hoje a força irradiadora da notícia em tempo real e das redes sociais pune a omissão dos eleitos. E, se o ressentimento exceder a razão, procura culpados, cedendo, tal como antes, aos discursos autoritários e moralistas dos populistas.
 
Em todo o mundo, bem antes da pandemia atual, havia infestações de ódio – em geral motivadas, no lado popular, pela desconfiança na capacidade de os governantes reaver a mobilidade social travada ou em retrocesso nas democracias liberais, e, na economia, pela sensação de ausência de rumo. Assim estamos, num quadro agravado pela omissão e transferência de responsabilidade de um poder para outro.

Respostas estão no passado
 
A resposta a tamanha crise, sobretudo existencial, que incomoda as parcelas mais informadas da sociedade, talvez esteja no passado – em especial, na transformação após as grandes tragédias de cada tempo. Elas foram de saúde pública quase sempre, mas também por mudanças tectônicas de regimes econômicos desafiados pela multidão de pobres tratados como se não existissem e pelos avanços tecnológicos.
 
Passada a devastação, cedo ou tarde vieram as ondas de progresso. A peste negra provocada pela pulga de ratos fez Roma construir redes subterrâneas de esgoto e trazer água por aquedutos – maravilhas da engenharia ainda visíveis na Europa. O fim do poder centralizado de Roma trouxe a ignorância e pestes, a última das quais, no século 14, dizimou ao menos um terço da população europeia e pôs em marcha a longa transformação que levou à Revolução Industrial 400 anos depois.
Hoje, o efeito do coronavírus tende a ter efeito depressivo sobre as economias no mundo, mas com a maioria gerindo inundação monetária e dívidas soberanas recordes, caso dos EUA, do Japão, mesmo da China e Índia, países emergentes que puxam o crescimento global, a prescrição antirrecessão do pós-2008 forçosamente será diferente. Na gestão da macroeconomia e nos mercados. Nisso aí somos repetentes.

Falência do laissez faire
 
A crise viral resgata a necessidade de repensarmos a estratégia em curso desde o segundo governo de Dilma Rousseff contra a crise vista como fiscal, de gastos públicos avançando em ritmo muito acima tanto da receita tributária, quanto da elasticidade de endividamento do Tesouro, cujo marco corretivo se deu na gestão Temer com a emenda à Constituição do teto de despesas federais (e indexadas à inflação).
 
O teto era para forçar a revisão dos gastos obrigatórios, como se fez com a reforma da Previdência, mas sem mexer no passivo do RH do funcionalismo público, cujos benefícios recebem tratamento de direito adquirido. O resultado tem sido a perpetuação da pobreza, que, a bem da verdade, não foi eliminada nos governos petistas, foi só aliviada.
 
Hoje, com a linha ideológica de um governo sem empatia, que atribui ao Congresso a culpa pelo que não faz ou não sabe fazer, o viés é de agravamento da pobreza e do estreitamento do mercado, já que domina o laissez faire mais radical, tipo Reagan, ex-presidente dos EUA para quem “governo não é solução, governo é problema”.
 
A urgência da coordenação que só o governo pode desempenhar contra a disseminação do coronavírus revela a falência da tese. Assim como a de reformas econômicas necessárias, mas com resultados a longo prazo, para enfrentar urgências que já não batem à porta, a arrombaram.

Coronavírus moldará a década
 
Em termos de personagens da crise viral, governar é o que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deputado licenciado do DEM, faz com claridade e sobriedade, em contraponto à turma de reformas que cortam gastos (em geral com pobres) sem revolucionar a gestão do Estado e a da lacração no Twitter – combatentes de uma suposta guerra cultural.
 
Até onde irá assim? A resposta está aberta. A do coronavírus, apesar do pânico, deverá refluir em poucos meses, como refluiu a SARS. Já o cenário de confrontação política é um beco sem saída, com sequelas danosas sobre a paz social e o crescimento econômico que empacado já estava e mais ficará quanto mais tempo durarem as ações prudenciais.

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