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Pandemia e isolamento social estimulam a demanda por cirurgias plásticas

No Brasil, mudou a lista de prioridades das pessoas de maior poder socioeconômico: saem as viagens, entra o bisturi.


08/02/2021 04:00


Historicamente, a cirurgia plástica é mais realizada em períodos de férias, uma vez que repousar é necessário para o melhor resultado. Por conta da pandemia, o período de novembro a janeiro foi mais aquecido, com aumento da procura por esse tipo de procedimento, pois o turismo de lazer sofreu grande impacto com as recomendações de isolamento social. Automaticamente, mudou a lista de prioridades das pessoas de maior poder socioeconômico: saem as viagens, entra o bisturi.

O médico Paolo Rubez, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e especialista em rinoplastia estética e reparadora pela Case Western University, informa que com a possibilidade da vacina, mas a indefinição sobre quando se poderá voltar a viajar, muitas pessoas decidiram se operar.

Há outros motivos para o aumento da demanda. “Embora a pandemia dificilmente se qualifique como férias, ela, ao exigir trabalho em casa, garantiu, sem querer, um período perfeito para a recuperação, sem precisar de afastamento e sem que as outras pessoas saibam do procedimento”, diz o médico.

“Além disso, cada vez mais se busca tratar os sinais do envelhecimento e também os efeitos do isolamento na pele, à procura de um 'efeito antiquarentena', ou seja, do tratamento para a aparência cansada”, acrescenta. Além disso, as máscaras faciais exigidas neste período podem perfeitamente esconder curativos, inchaços e olheiras.

Mas será que a pandemia – nosso “novo normal” de cabeça para baixo – aguça o apetite por procedimentos cirúrgicos? Talvez. “Em meio a todo o estresse e ansiedade, pacientes relatam crises com a própria aparência física. Além disso, muitos foram forçados a passar horas em videoconferências com iluminação ruim, ângulos infelizes e recortes estranhos, expondo características que eles nunca notaram antes”, diz o médico. “Ninguém jamais se olhou dessa maneira por tanto tempo ou com tanta frequência. Acho que isso gera grande parte da demanda.”

Essa “epidemia global” de procura por procedimentos plásticos invasivos, na opinião de Paolo Rubez, é uma forma de recuperar algum controle pelo menos sobre a aparência, nesta época de terríveis incertezas a respeito do futuro. “Muitos estão confinados em casa, com dificuldades de lazer e impossibilitados de viajar”, observa.

Para alguns, pode parecer bobagem se envolver em buscas superficiais durante uma pandemia, mas há motivos para isso. “Sabemos há muito tempo, por meio de relatos de pacientes, que procedimentos estéticos podem melhorar a autoestima, proporcionando maior confiança e qualidade de vida”, observa. E quem não precisa de um pequeno estímulo agora?

Também aumentou a busca pelo autocuidado. “As pessoas estão alocando recursos e tempo para cuidar de si mesmas, priorizando coisas que podem ter deixado de lado até então”, diz o médico. “Pacientes que costumavam pedir procedimentos injetáveis, ou seja, não invasivos, agora querem definitivamente uma cirurgia plástica.”

O fenômeno, segundo ele, também se explica pelo fato de muitas pessoas terem conseguido manter uma renda estável. “Elas percebem que (por meses) não fizeram compras, não tiraram férias, não foram jantar com os amigos. Quando pensam em todo o dinheiro que economizaram, há um pouco menos de culpa associada a gastar em cirurgia plástica. Busca-se isso como uma forma de realização pessoal e de obter algum prazer”, acredita o especialista.

Um dos destaques continua sendo a rinoplastia, que, no pico da pandemia, apresentou aumento vertiginoso de buscas no Google (4.800%). “Os hospitais seguem protocolo muito rigoroso para evitar o contágio por COVID-19, inclusive testando os pacientes e a equipe responsável pela cirurgia”, afirma Rubez. Como há novidades menos traumáticas, como a rinoplastia ultrassônica, há maior procura por esse tipo de procedimento.

“O procedimento visa tratar a parte óssea do nariz com um aparelho que, por meio de vibrações, permite ao cirurgião realizar a fratura nasal de forma menos traumática”, explica o médico. “Realizada sob o efeito de anestesia geral, a rinoplastia ultrassônica tem as mesmas indicações da técnica tradicional, recomendada a qualquer paciente que tenha necessidade de tratar a parte óssea do nariz. A vantagem é o fato de ser mais precisa e menos traumática, resultando em menos inchaço, sangramento e hematoma no período pós-operatório”, observa. “Isso faz com que o processo de recuperação do procedimento seja mais rápido e tranquilo, permitindo ao paciente retornar às atividades rotineiras mais rapidamente.”

Cirurgias para projeção ou diminuição do queixo (mentoplastia) e para pálpebras caídas (blefaroplastia) também impulsionam a nova demanda. Apesar das facilidades e do momento propício, o médico enfatiza que é importante conversar com o cirurgião plástico especialista para a indicação do melhor tratamento.

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