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Aproveite a quarentena para esvaziar os armários

Desmontar uma casa post mortem é sempre um problema sério e ninguém pensa nisso enquanto vive


postado em 18/04/2020 04:00 / atualizado em 17/04/2020 22:35


Sempre gostei de minha casa, cuidar de tudo é uma preocupação constante. Mas com uma profissão que exige dedicação quase que exclusiva, aprendi a dividir o tempo entre casa e serviço. E como nos últimos dias a casa é a ocupação principal para passar o tempo, aproveito para fazer a revisão de um comportamento que é bem comum: dotar a casa do necessário e do supérfluo. Há algum tempo ando esvaziando meus armários, passando muita coisa para os sobrinhos, mas nem tudo é do gosto deles. Sempre tive mania de aparelhos de jantar, comprei um pintado a mão em Portugal, fábrica que já fechou e era famosa no país. O que fazer com ele? Não tenho ideia. Através de uma amiga, comprei um aparelho de jantar e copos, herança da família de um ex-governador. São sem identificação, mas combinam pratos com fio de ouro nas bordas com copos com o mesmo detalhe.

Outro lance importante são as manias. As famosas coleções. Fui passar um fim de semana em Olinda, Pernambuco, e, na volta, passeando pela cidade, vi numa dessas ofertas de passeio alguns paliteiros de louça, antigos. Lindos, me conquistaram na hora. Foi o que bastou para se transformarem em uma mania. Todas as viagens que fazia ao exterior passavam por uma visita a lojas de antiguidades em busca de paliteiros. Resultado: tive que fazer um armário para abrigar as peças, todas elas de frutas ou figuras. A coleção é grande e tem um problema: o que fazer com ela?. Pessoas que sofrem da mesma mania já aprenderam que vender coleções ou peças importantes carrega um problema: o valor de venda é praticamente nenhum. Então, o que aguarda a coleção é um sorteio entre os sobrinhos, quando eu me for, para dividir o que colecionei ao longo da vida.

Outra mania que sempre tive refere-se ao Natal. Tenho comigo a memória infantil da data em Santa Luzia, onde os presépios eram a atração do fim de ano, tão ricos, tão lindos, tão cheios de figuras que, na infância de interior, não conhecíamos nem de longe. Além das peças clássicas, muitas delas antiquíssimas, de porcelana, marfim ou outros materiais, havia as importadas, principalmente da Alemanha, raridades da época. Nunca me esqueço de uma, que tinha com coqueiro e um macaco, que subia e descia nele com ajuda de uma corda.

Nessa mania, fui comprando tudo que via, desde que os enfeites natalinos começaram a aparecer na cidade. Primeiro muito caros, porque eram importados, numa época em que importação não existia. Depois, caros porque eram diferentes, raros, destinados a um publico consumidor pequeno. Aprendi a buscar lojas de produtos natalinos mundo afora. Nova York tinha uma que funcionava o ano inteiro. E, em Manaus, as árvores de Natal iluminadas eram uma atração rara e custosa, porque mediam sempre mais de dois metros. Fui comprando várias, ao longo da vida, que foram crescendo na medida do aumento do poder gastronômico. Nos dias atuais, sofro na temporada quando vou ver as novidades na Casa Santa Luzia, onde o estoque é grande e o preço atraente. Não posso comprar mais nada, tenho estoque que quase dá para abrir uma loja.

Esses dias dentro de casa estão colocando outra aflição importante: quem não tem valores monetários para deixar como herança, deixa sempre uma amolação para a família: o que fazer com o que fica?. Quem tem peças importantes, principalmente de arte, pode montar um leilão particular. Mas e essas miudezas que diferenciam uma casa? Desmontar uma casa post mortem é sempre um problema sério – e ninguém pensa nisso enquanto vive. Tenho pensado muito nisso nos últimos tempos, ocupando a minha cabeça não só com as lembranças do passado como também com o que pode acontecer no futuro.

Numa certa época, existia na cidade uma empresa – ou uma pessoa – especializada em promover a venda de espólios de uma casa, de portas fechadas. A família retirava as memórias e o que restava era colocado à venda, durante alguns dias. 
Parece que a ideia murchou, nunca mais ouvi falar. Mas esses dias dentro de casa levantam este novo problema: o que fazer com a “coiseira” que colecionei ao longo da vida?.

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