O cerrado mineiro confirma a expectativa de uma safra recorde de café, mas chuvas fora de hora podem comprometer a qualidade de até 30% da colheita. Quem faz o alerta é Simão Pedro de Lima, diretor-presidente executivo da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer), que reúne mais de 800 produtores associados.


A estimativa de safra na região de abrangência da cooperativa é de 2,8 milhões de sacas de café arábica em 2026. Simão justifica a maior safra já colhida devido ao aumento da área plantada e à boa produtividade. De acordo com o último boletim técnico, referente a 24 de julho, 60% da colheita prevista já estava concluída. 

Se comparado ao último ciclo, os trabalhos estão atrasados. Ele explica que, além do aumento da safra, o atraso é justificado pela ocorrência de chuvas isoladas no período de colheita.

"É uma boa safra, que retomou a bienalidade positiva da planta, que é o ano par. Isso no aspecto quantitativo, mas a chuva afetou a qualidade", disse Simão. Ele conta que, no cerrado mineiro, normalmente as chuvas duram no máximo até o final de maio. As "águas" cessam em junho e só voltam no final de setembro, o que permite que a colheita se dê na seca.

“Só que, neste ano, tivemos três momentos de chuvas em junho e julho. Eu diria que chegou a uma média de aproximadamente 80 mm acumulados nessas três sequências de chuvas", relata.

Simão explica que a chuva nesse momento provoca a derrubada dos frutos maduros, já em ponto de colheita. Isso pode comprometer a qualidade porque o fruto não vai ser levantado do chão de imediato, já que a terra úmida não permite essa operação mecanizada, podendo gerar uma ligeira fermentação.

Este fruto no chão ainda pode ser macerado pelo maquinário da colheita, o que também compromete a qualidade do grão. A chuva ainda retarda a colheita porque é necessário deixar o solo secar um pouco para dar continuidade, fazendo o fruto amadurecer demais no pé, perdendo um pouco a qualidade. Outro ponto que a chuva prejudica é a secagem do café no terreiro. "Aquele café de secagem natural fica no terreiro e retoma a umidade. Aí você leva mais tempo para secar o café", esclarece.


De acordo com Simão, a taxa normal de queda de frutos maduros em uma safra é de 10%, mas neste ano gira em torno de 30% na região de abrangência da Expocacer. "Isso não vai afetar toda a safra, mas apenas esse percentual", conforta.


Estoques

Mesmo com a boa safra quantitativa referente a 2026/2027, o diretor-presidente da Expocacer garante que não será suficiente para recompor os estoques de café, já que, de 2021 a 2025, a produção foi baixa e consumiu as reservas. "Para que se possa falar em recompor estoques para uma normalidade, não para um grande estoque, nós precisaríamos de pelo menos duas safras grandes. Isso nós só teremos em 2028, com a bienalidade positiva da planta. Nós temos uma safra boa em 2026, mas a safra 2027 é de bienalidade negativa".

Ele ressalta que, para recompor estoques, a safra 2027, ainda que com bienalidade negativa, precisa ser normal. No entanto, com a ameaça de um El Niño severo já a partir deste segundo semestre - fenômeno que resulta em elevação das temperaturas médias, incidência de temporais, chuvas irregulares, seca extrema e déficit hídrico -, fica difícil ser otimista com a safra 2027/2028.


El Niño

"O El Niño, em regra, traz seca para nossa região em períodos importantes para a árvore de café porque gera um atraso no retorno da chuva. Em condições climáticas normais, a chuva volta em setembro. Tivemos um episódio de El Niño em que a chuva veio no final de outubro, início de novembro. Um segundo problema é o aumento de temperatura também nesse período, com uma primavera mais quente que o normal. E nesse período - final de julho, agosto, setembro - é quando vem uma boa florada do café. Se a florada abre e encontra um ambiente sem chuva e quente, ela pode ser abortada, afetando a safra do ano seguinte", explica Simão. 


Ele acrescenta que a ausência de chuva e a alta temperatura causadas pelo El Niño podem afetar a cafeicultura nos meses de fevereiro e março, quando se dá o enchimento do fruto e crescimento do grão. Com isso, o café perde tamanho e peso. "O cafeicultor está com o olho fixo na questão climática. E não me refiro somente ao cerrado, mas toda a cafeicultura brasileira, já que o café arábica se concentra muito no Sudeste e parte do Sul", diz o diretor-presidente da Expocacer.

Como o produtor não tem controle sobre o clima, Simão conta que lhe restam as medidas de mitigação, como a irrigação. Ele diz que o método não chega a substituir a chuva, que seria preciso uma semana de irrigação para igualar um dia de chuva, mas é melhor que nada. O cerrado tem em torno de 35% da área plantada de café irrigada, chegando a 80% em algumas regiões.

Outra alternativa para os efeitos do El Niño é o plantio de variedades de café mais resistentes, mas que ainda assim não são completamente isentas da influência climática. "E tem a questão da geada. É preciso evitar o plantio em áreas sujeitas a isso. Mas, em 2021, essas áreas não sujeitas também tiveram afetação da geada. Por hora, não se fala em geada aqui", ressalta Simão.

Ele explica que a geada não é natural no cerrado, motivo pelo qual a cafeicultura se movimentou para a região, mas acontece, sendo as últimas ocorrências significativas em 1994 e em 2021, portanto com intervalos longos. A geada é uma grande preocupação do Sul de Minas.


Projeção da safra

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a expectativa da safra 2026/2027 de café no Brasil é de 66,7 milhões de sacas, alta de 18% em relação ao último ciclo. Além da bienalidade positiva para o arábica, o crescimento é justificado pelo aumento da área de produção, o crescente uso de tecnologias e de insumos e as condições climáticas mais favoráveis. A área total cultivada com café, arábica e conilon, no país é de 2,34 milhões de hectares, incremento de 3,9% em relação à safra anterior.

A produção do café arábica foi estimada em 45,8 milhões de sacas, aumento de 28%. A área total cultivada com a espécie está estimada em 1,9 milhão de hectares, crescimento de 3,2% sobre a safra passada.

O cultivo do arábica corresponde a 81% da área total destinada à cafeicultura no Brasil. Minas Gerais concentra a maior área com a espécie, somando 1,42 milhão de hectares, correspondendo, nesta safra, a 75% do total ocupado com café arábica no país. Em seguida vem São Paulo, com área de 204,1 mil hectares, o equivalente a 10,8% da área cultivada com a espécie no país.

Já a produção nacional do café conilon está estimada em 20,9 milhões de sacas, aumento
de 0,8% sobre a safra anterior. A área total cultivada com a espécie é de 444 mil hectares, um aumento de 6,9%. No Espírito Santo encontra-se a maior área destinada ao café conilon do país, com 306,2 mil hectares, equivalente a 70% do total ocupado pela espécie, seguido pela Bahia, com 55,6 mil hectares, e Rondônia, com 50,5 mil hectares.

A produtividade total aumentou 13% e está em 34,4 sacas por hectare. Para o café arábica a estimativa foi de 29,5 sacas por hectare, aumento de 22,6% em relação à safra passada, enquanto para o conilon é de 53,9 sacas por hectare, redução de 3,5%, justificada pela supercarga atingida pelas
lavouras no ciclo anterior.

A produção estimada pela Conab para Minas Gerais é de 33,4 milhões de sacas de café, aumento de 29,8% em comparação ao volume total produzido na safra anterior. Os fatores apontados para a alta são a melhor distribuição das chuvas, principalmente, nos meses
precedentes à floração, além do clima favorável até março, o que proporcionou uma boa granação, fatores que contribuem para uma boa produtividade.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


Café - Safra 26/27 (estimativas)


Produção

  • Brasil - 66,7 milhões de sacas (+18%)
  • Arábica - 45,8 milhões de sacas (+28%)
  • Conilon - 20,9 milhões de sacas (+0,8%) 
  • Minas Gerais - 33,4 milhões de sacas (+29,8%)



Área cultivada

  • Brasil - 2,34 milhões de hectares (+3,9%)
  • Arábica - 1,9 milhão de hectares (+3,2%)
  • Conilon - 444 mil hectares (+6,9%)


Produtividade

  • Brasil - 34,4 sacas/ha (+13%)
  • Arábica - 29,5 sacas/ha (+22,6%)
  • Conilon - 53,9 sacas/ha (-3,5%)


Fonte: Conab

compartilhe