O que começou como uma tentativa de desacelerar a vida corrida da cidade acabou se transformando em um negócio rural em expansão, com produção artesanal, doces típicos mineiros e até perspectiva de exportação. Em meio ao avanço da cadeia do amendoim no Brasil e ao crescimento da cultura em Minas Gerais, as irmãs Naiara e Daiane Alves decidiram retomar uma tradição familiar e voltar para o sítio Faisão Sabores da Terra, na zona rural de Itatiaiuçu, na Região Central do estado. Três anos depois do retorno ao campo, elas já veem a produção ultrapassar as cercas da propriedade.
O cultivo do amendoim, antes visto principalmente como uma cultura complementar em áreas de cana-de-açúcar, vive um novo momento no país. A abertura de mercados internacionais, especialmente o chinês, o desenvolvimento de variedades mais produtivas e o aumento da demanda externa fizeram o grão ganhar protagonismo no agronegócio brasileiro.
Em Minas, o cenário também mudou. Dados da Associação Brasileira do Amendoim (ABEX-BR) apontam que o estado teve crescimento superior a 230% na produção entre 2018 e 2023 e desponta como um dos principais vetores de expansão da cultura no país.
Foi nesse contexto que Naiara e Daiane decidiram trocar o ambiente corporativo pela terra vermelha do interior mineiro. “Percebemos que aquele ritmo já não fazia sentido para nós. Como crescemos nesse ambiente da roça, mexendo com horta, animais e vendo o amendoim ser cultivado pela família, resolvemos investir nisso”, relatou Naiara em entrevista ao Estado de Minas.
“O trabalho no campo exige muito esforço físico e dedicação diária, mas acaba sendo recompensador porque toda a família participa. Cada um ajuda de alguma forma, principalmente na época da colheita”, completa.
O retorno ao sítio não representou apenas uma mudança de endereço. As irmãs precisaram transformar uma produção tradicional em um empreendimento estruturado. O manejo segue sendo familiar e totalmente manual, característica comum entre pequenos produtores mineiros da oleaginosa. Na propriedade, elas apostam em três variedades de sementes: amendoim branco, vermelho e preto. As primeiras sementes chegaram de forma simples, quase despretensiosa, e o plantio começou voltado para o consumo da própria família.
“A gente começou plantando mais para consumo próprio. Sempre gostei de mexer com roça e percebemos que o amendoim tinha potencial porque é um produto resistente, que, se bem armazenado, dura muito tempo”, contou Naiara.
A produção começou voltada para o grão in natura, mas rapidamente ganhou novos caminhos. A percepção de que o amendoim poderia render mais valor agregado levou as irmãs a investirem na fabricação de doces artesanais, conectando a atividade agrícola à tradição alimentar mineira.
“Os doces surgiram justamente dessa vontade de aproveitar receitas da nossa família e criar produtos mais artesanais. Hoje estamos buscando diversificar mais, com produtos como amendoim torrado e a rosquinha de amendoim”, contou Naiara. Entre os destaques da produção está o pé de moleque feito a partir de uma receita herdada do pai das produtoras.
O amendoim brasileiro agradou consumidores de diversas nacionalidades e vem ganhando espaço em várias partes do mundo
Assistência
Os produtos passaram a circular em feiras regionais, no Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e também na plataforma virtual “É do Campo”, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG). O crescimento do negócio, porém, exigiu orientação técnica e regularização da produção.
Em 2024, as produtoras procuraram assistência da Emater-MG para ampliar a escala da produção sem abrir mão do cultivo natural. “Desde o início, quando a gente teve essa ideia de plantar, procuramos a Emater para nos orientar. Fizemos análises do solo e eles acompanham a gente até hoje, tanto na produção, na plantação, como também nas feiras, em tudo que a gente precisa. Ees estão lá prontos para ajudar a gente”, conta Naiara.
A extensionista da empresa Bruna Amaro Quintas acompanhou desde o planejamento do plantio até a regularização da agroindústria junto à Vigilância Sanitária, além do suporte para a comercialização. “Elas têm muita proatividade, capacidade de tomada de decisão e abertura para adoção de tecnologias. Essas características trazem ganhos produtivos e econômicos em curto prazo e refletem na sustentabilidade da atividade”, afirma.
A expansão do negócio ganhou um impulso inesperado durante a participação em feiras. Um cliente levou parte do amendoim produzido no sítio para a China. O produto agradou consumidores locais e abriu caminho para conversas sobre uma possível exportação futura. “Eles conheceram o nosso produto e ficaram muito admirados. O problema é que hoje ainda não conseguimos atender a quantidade que eles precisam. É uma demanda muito grande”, relata Naiara.
A família agora trabalha na estruturação da produção e na criação de uma cooperativa para ampliar a capacidade de fornecimento. “Estamos nos organizando para crescer. A ideia é aumentar a produção e conseguir, futuramente, contribuir nessa exportação junto com outros produtores”, afirma. “Foi muito gratificante ver que aquilo que começamos sem saber se daria certo cresceu tão rápido. No início, a gente tinha muito medo, mas as coisas aconteceram de forma surpreendente”, completou Naiara.
Amendoim passou de cultura de rotação à atividade principal em várias propriedades
MERCADO
A história das irmãs ocorre em um momento em que o amendoim brasileiro ganha espaço no mercado internacional. Hoje, grande parte da produção nacional é destinada à exportação. O interesse chinês se tornou um dos principais motores do setor e contribuiu para melhorar os preços pagos ao produtor nos últimos anos.
Tradicionalmente utilizado como cultura de rotação em áreas de cana-de-açúcar, principalmente em São Paulo, o amendoim agora passou a ser encarado como atividade principal. A combinação entre ciclo rápido, menor necessidade de investimento inicial e possibilidade de mais de uma safra por ano ajudou a ampliar o interesse pela cultura.
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Em estudo divulgado no ano passado, a ABEX-BR estimou em R$ 18,6 bilhões o faturamento da cadeia produtiva do amendoim em 2024. O levantamento, considerado o primeiro raio-x completo do setor no país, mapeou desde os produtores até as agroindústrias e exportadores.
Apesar do avanço, a cadeia produtiva ainda enfrenta obstáculos em Minas Gerais. Segundo a extensionista da Emater-MG, a produção no estado é formada majoritariamente por pequenos produtores, que convivem com limitações estruturais e dependência intensa de mão de obra manual. “A agregação de valor por meio dos derivados tem apresentado boa aceitação comercial, especialmente por estar fortemente associada à cultura alimentar e à tradição mineira”, destaca Bruna.
Outro gargalo é a falta de estrutura de armazenagem e beneficiamento no estado. Atualmente, parte da produção mineira precisa ser enviada para São Paulo, onde estão concentradas cooperativas e empresas cerealistas. O deslocamento aumenta os custos logísticos e reduz a competitividade dos produtores mineiros.
Mesmo assim, Minas é vista como uma das regiões mais promissoras para a expansão da cultura. Hoje, o estado representa cerca de 5% da área plantada nacional, com 17,4 mil hectares. O Triângulo Mineiro concentra a maior parte da produção, impulsionado pela proximidade com São Paulo e pelas áreas de renovação de canaviais.
Além da demanda internacional, fatores agronômicos também favorecem a expansão do cultivo. O amendoim contribui para a recuperação do solo na rotação de culturas, apresenta boa resistência a períodos de estiagem e pode ser cultivado em áreas mais arenosas e consideradas menos férteis.
“Elas têm muita proatividade, capacidade de tomada de decisão e abertura para adoção de tecnologias. Essas características trazem ganhos produtivos e econômicos”
Bruna Amaro Quintas
Extensionista da Emater-MG
230%
foi o crescimento da produção de amendoim no Brasil entre 2018 e 2023
R$ 18,6 Bilhões
foi o faturamento da cadeia produtiva do amendoim em 2024
5%
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da área plantada com a oleaginosa no Brasil fica em Minas, com 17,4 mil hectares
