Eleonora Cruz Santos
Eleonora Cruz Santos
Economista, com mestrado em Demografia, doutorado em Administração e pós-doutorado em Economia, trabalha como consultora para organismos internacionais, atuando nas áreas sociais, de mercado de trabalho, migração e desenvolvimento humano; também leciona p
ECONOMÊS EM BOM PORTUGUÊS

Democracia, Oligarquia, BETs e Copa do Mundo

A democracia não é capaz de caminhar livremente e acaba por se sustentar na sombra oligárquica do capital de poucos

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O historiador Matt Simonton, autor de dois livros sobre as primeiras formas de democracia na Grécia Antiga e o papel das oligarquias, publicou, recentemente, um artigo no Project Syndicate em que mostra as similaridades dos movimentos cíclicos da política e das formas de poder econômico que os sustentam e os tornam cada dia mais dissecados. Na era das IAs, das BETs escancarando a fragilidade do fair play na Copa do Mundo e dos ditadores democráticos, a relação dos oligarcas ou dos detentores do capital torna-se mais aviltante. E a dívida cresce!

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Simonton, em sua obra “Oligarquia grega clássica”, narra como as oligarquias sobreviveram e caminharam lado a lado com o regime político democrático, mesmo sendo um “governo de poucos” e com elevada resistência por parte da maioria da população. Na visão do autor, as oligarquias criam instituições e arranjos políticos com o objetivo de (i) prevenir a ação coletiva por meio de recompensas para informantes, repressão direcionada e controle do espaço público, bem como (ii) manter a coesão e a cooperação dentro do próprio grupo oligárquico.

Sobrevivem à impopularidade adotando estratégias de cooptação de oponentes e criação de sistemas de informantes para semear desconfiança; criação de regras que restringem o acesso ao poder – na Grécia Antiga, limitada a 10-15% da população masculina mais rica; e apoio de aliados estrangeiros – na Grécia Antiga, os espartas. Embora Simonton argumente que a oligarquia tenha perdido a batalha ideológica para a democracia em termos de legitimidade política, eu ousaria dizer que seu modus operandi, por trás dos bastidores, permanece intacto.

Em seu artigo datado de 01/07/2026, no Project Syndicate, Simonton faz interessante digressão sobre a história da oligarquia e da inspiração grega para a formulação da Constituição dos Estados Unidos. Tudo isso para chegar à discussão sobre a atual fragilidade que vive a política norte-americana acrescida do ressurgimento dos grupos oligárquicos, atualmente dominados pelo capital tecnológico. A estreita relação entre os poderes privado e público, externalizada na posse do presidente norte-americano e na composição de seu gabinete ministerial é bem clara.

A força das empresas de tecnologia, com toda sorte de manifestação popular para sua regulamentação e restrição, é das maiores evidências de que a democracia não é capaz de caminhar livremente e acaba por se sustentar na sombra oligárquica do capital de poucos. E nessa esteira chegam as casas de apostas – as BETs com novas formas de adoecimento. A campanha contra as BETs é feita pela minoria do futebol, como por exemplo, os jogadores Danilo (seleção brasileira) e Mbappé (seleção francesa). São vozes silenciadas pelo “grito dos coesos”.

A Klavi desenvolveu o Placar das BETs, uma espécie de monitor amostral dos gastos oficiais dos brasileiros com casas de apostas legais, no Brasil, para o período da Copa do Mundo. Até segunda-feira, dia 06/07, os gastos oficiais dos brasileiros já haviam superado os R$727 milhões, para uma amostra de 1,2 milhão de apostadores. A maioria é composta por homens (63%) e os dez maiores estados, em termos de população envolvida com apostas, encontram-se no Norte e Centro-Oeste do País, à exceção do Espírito Santo (10ª posição) e do Paraná (8ª posição).

Os dados da Klavi, embora embasados oficialmente, são amostrais e não conseguem captar o mercado das BETs ilegais. Há estimativas de que, não só o crescimento venha sendo extremamente ostensivo neste período de Copa do Mundo – BBC News apresentou uma estimativa de aumento de 3 vezes do público –, mas também traz sinais claros de endividamento como fruto de dependência – a ludopatia, classificada como CID pela Organização Mundial de Saúde como jogo patológico, mania de jogo de azar e transtorno devido a jogos de azar.

Desde 2024, os dados vêm preocupando o Governo Federal. Em agosto daquele ano, o Banco Central do Brasil divulgou um estudo indicando que 17% das famílias beneficiadas com o Programa Bolsa Família enviavam recursos para as BETs. Estudos mais recentes, realizados pela Confederação Nacional do Comércio e pela Klavi mostram o crescimento do volume e do número de apostadores, ainda assim considerados subestimados, haja vista a estimativa de informalidade de aproximadamente 50% das BETs.

Voltando ao ponto inicial desta coluna, a democracia deturpada e depauperada tem caminhado lado a lado e, muitas das vezes, de braços dados com as oligarquias do poder econômico. Conflitos explícitos de agência e assimetria de informação podem ser vistos a olho nu, como atualmente na Copa do Mundo e na relação entre times, jogadores e BETs. Na última sexta, a influenciadora Virgínia Fonseca estimulou seus seguidores a apostarem na seleção de Cabo Verde, na partida contra a Argentina, em clara promoção da casa de aposta que a patrocina.

Nos dias de hoje, o presidente norte-americano pode interferir na arbitragem da Copa do Mundo, a maior influenciadora digital brasileira das BETs é paga para induzir o apostador a perder, as BETs podem ser livremente publicizadas nos canais de transmissão da Copa e 18 dos 20 times do Campeonato Brasileiro da Série A – não tenho dados sobre os outros países – são patrocinados e carregam marcas de BETs em suas camisas. Que grau de credibilidade as democracias podem carregar para aqueles que lutam para defendê-las e sustentá-las?

Essa promiscuidade não leva a nenhuma punição severa e enfraquece as estruturas democráticas constituídas para legitimar a vontade da maioria e dar garantias de bem-estar para as nações. Como um País vai perdendo a credibilidade em suas instituições? A relação histórica entre o poder das oligarquias e o poder público se agrava quando as oligarquias lutam pela manutenção de seu enriquecimento e bem-estar às custas do adoecimento do restante da população. E, atualmente, quando constroem ferramentas (tecnológicas) para enfraquecê-la.

Na era do crescimento do braço tecnológico por meio das IAs, seja como instrumento de canalização das relações monetárias mais viciantes, seja por meio da manipulação das informações políticas e do enfraquecimento da coesão popular, a ausência de (i) regulamentação, (ii) maior tributação (no caso brasileiro, para as BETs) e (iii) punição é a garantia de se trilhar um caminho obscuro e altamente perigoso para uma sociedade desigual e com baixa qualidade educacional, como a brasileira.

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Simonton nos mostra que as raízes das relações entre oligarquias e governos remontam ao início do país considerado modelo ideal de democracia – a Grécia. Mas o historiador também nos indica que o enfraquecimento daquele desenhado e considerado pelos filósofos da Grécia Antiga como o melhor sistema político do mundo, nada mais é do que uma relação histórico-econômica cíclica, em que o detentor do capital muda sua atuação econômica, do lado privado, e os representantes políticos, sua ética, do lado público. O enlace segue firme e imutável.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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