Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

Mais de 100 anos depois, serão as semelhanças coincidências?

Incapaz de negociar com o Legislativo e de lidar com a oposição das oligarquias cafeeiras, Deodoro desfechou em 3 de novembro de 1891 um autogolpe

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"O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem saber o que significava. Muitos acreditaram sinceramente estar vendo uma parada militar." Quem descreve é o jornalista Aristides Lobo, testemunha ocular daquele 15 de novembro de 1889, que sintetiza o alvorecer da República do Brasil: um golpe de estado, apartado do povo. O Marechal Deodoro da Fonseca marchou com as tropas até o Ministério da Guerra – na Praça da Aclamação. Aqueles que viram a “parada” não imaginaram que conduzia o caixão da monarquia.

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Foi nascimento turbulento. Deodoro da Fonseca governou o Brasil por pouco mais de dois anos. Depois de um Governo Provisório que acumulou os poderes Executivo e Legislativo, com a promulgação da primeira Constituição da República, em 24 de fevereiro de 1891, uma eleição indireta pelo Congresso eleito Deodoro reconduziu o marechal ao poder.

Incapaz de negociar com o Legislativo e de lidar com a oposição das oligarquias cafeeiras, Deodoro desfechou em 3 de novembro de 1891 um autogolpe: dissolveu o Congresso, recuando dias mais tarde, sob a ameaça da Primeira Revolta da Armada, liderada pela Marinha. Renunciou vinte dias após o autogolpe. O vice, Floriano Peixoto, assumiu em 23 de novembro de 1891, contrariando a Constituição, o que desencadeou a Segunda Revolta da Armada na capital federal. Ao Sul, o país sangrava na guerra civil desencadeada pela Revolução Federalista, também chamada Guerra da Degola. Floriano governou em estado de sítio até ser empossado Prudente de Morais, em 15 de novembro de 1894. Mas, será que esse primeiro presidente civil conseguiria pacificar o país, depois dos sobressaltos de Deodoro e de Floriano Peixoto, um Marechal de Ferro à frente República da Espada? É o que nos conta “1897 – A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais” (Editora Ayran- 2026), obra do professor da Unicamp, Ely Carneiro, resultado de dez anos de pesquisa.

O novo presidente tinha saúde frágil. Era conciliador, discreto. Estava às voltas com Floriano, antecessor agressivo, que ameaçara não deixar o poder, aclamado por seguidores extremistas que o chamavam de “mito. Ele nem sequer compareceu à transmissão de cargo a Prudente de Morais. Em seus últimos dias de governo, Floriano desdenhou de qualquer providência institucional para a cerimônia. No dia da posse, Prudente de Morais esperou uma carruagem em seu hotel, até compreender, já atrasado, que não havia uma. Pediu ao amigo André Cavalcanti que alugasse às pressas a condução. “Voltou com três carruagens velhas, todas em péssimo estado, pelas quais Prudente pagou 300 mil réis do próprio bolso, para conseguir chegar à cerimônia da posse”, descreve Ely Carneiro.

Foram muitos atos de hostilidade ao presidente eleito. Depois do juramento e discurso no Senado, em que tentava acenar para a ala “militarista do Congresso” elogiando “a atitude patriótica e enérgica de Floriano para conter as agitações que perturbavam a República”, Prudente seguiu para a sede do governo, no Itamaraty. Pegou carona na carruagem de um ministro inglês, já que sem escolta e com a alugada, não conseguiria passar pela multidão que tomava as ruas. Ao alcançar o Itamaraty, Prudente encontrou o palácio vazio. Esperou pelo general Costallat e pelo “superministro” florianista Cassiano do Nascimento. Quando apareceu, Cassiano fez um breve discurso em nome do marechal ausente e foi embora. O estado do palácio era deplorável: chão estava engordurado, lixo esparramado por todo canto. “Na sala de despachos (...) não havia ali livros ou documentos (...) os estofados das poltronas, ao redor da mesa, tinham sido rasgados com ponta de baioneta. Na sala dos fundos (...) Prudente encontrou ainda um caixote com jornais rasgados, papéis amassados e garrafas de cerveja vazias. Era a herança enferrujada do marechal”.

O primeiro presidente civil esforçava-se para corrigir os males causados pela República da Espada e do encilhamento, que demoliu o crédito e desorganizou a administração pública. Prudente de Morais recebeu um conjunto de anarquias superpostas: legislativa, judiciária, administrativa, moral e anarquia financeira, apontava o jornalista José do Patrocínio. A tudo isso, se somava o ambiente político e social fraturado: de um lado, os jacobinos – florianistas radicais, que defendiam uma ditadura militar e, de outro, os monarquistas conservadores, saudosos do Império. Em meio ao fogo cruzado, o moderado presidente era hostilizado por ambos: “Prudente e Demorado”, “Prudente Demais”, “Prudente Demorais”...

O Partido Republicano Federal (PRF), liderado por Francisco Glicério, – florianista radical – sentia-se dono do país, a “expressão da opinião pública”. Prudente de Morais acompanhou não poucos episódios em que o parlamento foi cercado por multidões enfurecidas e parlamentares quase se enfrentaram com armas na saída das votações. A tensão naquele 1897 atingiria o ápice em novembro, com um atentado contra a vida de Prudente de Morais, que escapou às custas da vida de seu ministro de Guerra, Carlos Machado de Bittencourt, assassinado ao defendê-lo. A vitimização, poderoso instrumento sobre a instável opinião pública, reverteu a animosidade contra o seu governo. Naquele ano, também a guerra contra Canudos, o bode expiatório que supostamente pretendia reviver o “cancro monarquista” e Antônio Conselheiro, o conveniente “inimigo interno número 1”, promoveu o sertão a um mar de brutalidades e sangue de gente simples. A República constitucional, fundada em atos de barbárie, nas palavras de Euclides da Cunha, foi estrangulada pelos “abraços demasiado apertados” daqueles que a adoravam.

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Posse

Será em 8 de junho a posse na presidência do Tribunal Regional Eleitoral de Minas (TRE) do desembargador Carlos Henrique Perpétuo Braga. O desembargador Sálvio Chaves assumirá a vice-presidência e a corregedoria regional eleitoral. Serão responsáveis por conduzir as eleições em Minas.

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