Nordeste: o desafio de Zema
O que preocupa campanha é a ausência de uma estratégia definida para o Nordeste, um vazio que já não pode mais ser administrado como detalhe
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, escreveu Euclides da Cunha em "Os Sertões", ao retratar a resistência histórica do Nordeste. Em 2026, essa força se impõe à pré-campanha de Romeu Zema (Novo): mais do que etapa do roteiro, a região concentra o principal desafio à sua viabilidade eleitoral.
Leia Mais
A apresentação do seu plano de governo, ontem, em São Paulo, foi pensada como um movimento de nacionalização do discurso, com foco em pautas de forte apelo ideológico e institucional. Mas, longe do roteiro público, o que preocupa campanha é a ausência de uma estratégia definida para o Nordeste, um vazio que já não pode mais ser administrado como detalhe e que começa a produzir efeitos concretos na articulação política.
A informação, confirmada pela coluna, expõe o estágio atual: ainda não há previsão de quando Zema irá à região. O dado, por si só, já é interpretado internamente como sintoma de um impasse mais amplo, que envolve não apenas logística de agenda, mas uma dificuldade real de inserção em um eleitorado onde a candidatura, neste momento, enfrenta resistência.
Esse cenário é agravado por declarações anteriores do ex-governador, que seguem sendo lembradas como um dos principais passivos políticos da pré-campanha. A fala em que afirmou que “se o Nordeste continuar votando como vota, vai continuar ficando para trás” consolidou uma percepção de distanciamento e passou a ser explorada por adversários como elemento de desgaste permanente, dificultando qualquer tentativa de aproximação mais imediata.
Nos bastidores, a avaliação já está consolidada: não se trata apenas de entrar no Nordeste, mas de reconstruir a relação com a região. O impacto dessa dificuldade extrapola a campanha individual e começa a interferir na própria engenharia da direita para 2026. A ausência de tração no Nordeste tornou-se, inclusive, um dos pontos de tensão na relação com Flávio Bolsonaro (PL), cuja viabilidade depende de algum grau de equilíbrio regional na composição do palanque. Sem isso, a candidatura perde densidade e amplia riscos estratégicos.
Aqui, o cálculo vai além. Se Flávio busca um vice forte em Minas para ganhar tração no estado, o caminho pode levá-lo a Zema. Mas, se o objetivo central é vencer a eleição, o Nordeste se impõe como variável incontornável e, hoje, é justamente onde o ex-governador encontra maior rejeição. Apesar de resistir à ideia de compor como vice, Zema parece esbarrar, de forma recorrente, na mesma barreira geográfica e política.
Diante desse quadro, a campanha tenta agora reorganizar o início do percurso eleitoral, estruturando uma estratégia específica para a região que combine agenda, recalibração de discurso e construção de alianças locais, ainda que sem definição fechada até o momento. O plano de governo recém-apresentado passa a ser revisitado sob essa lógica, como instrumento auxiliar, embora a leitura interna seja de que o problema é menos programático e mais político.
Até aqui, Zema seguiu um roteiro previsível e alinhado à sua base. Percorreu o interior de Minas Gerais, consolidando presença fora dos grandes centros, avançou pelo Sul com agendas voltadas ao setor produtivo e iniciou movimentações no Centro-Oeste, mirando o agronegócio e ampliando conexões com lideranças locais. O desenho fortalece o entorno imediato, mas evidencia, com ainda mais nitidez, o vazio no Nordeste.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
O que antes era tratado como etapa final da expansão territorial passou a ser visto como condição de viabilidade da candidatura. E é nesse ponto que a frase de Euclides da Cunha deixa de ser apenas descrição literária e se aproxima da política real: o Nordeste, resistente por natureza e decisivo por definição, tornou-se o teste mais difícil para o projeto presidencial de Zema.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
