SIGA O EM

Samarco quer usar flotação para conter lama de Mariana

Técnica virou a principal alternativa depois que o projeto de construção de três diques em série ao longo do Rio Gualaxo apresentado pela mineradora foi rejeitado

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.
[{'id_foto': 1093761, 'arquivo_grande': '', 'credito': 'Gladyston Rodrigues/EM/DA Press - 21/10/2016', 'link': '', 'legenda': 'Vista do Rio Doce, em Governador Valadares, ainda com muita lama', 'arquivo': 'ns62/app/noticia_127983242361/2016/12/19/833653/20161219082728963242i.jpg', 'alinhamento': 'left', 'descricao': ''}]

postado em 19/12/2016 07:37 / atualizado em 19/12/2016 08:27

Agência Estado

Gladyston Rodrigues/EM/DA Press - 21/10/2016
Pressionada pelos órgãos ambientais a acabar com a poluição do Rio Gualaxo do Norte, o mais afetado pelo trágico rompimento da Barragem de Fundão há um ano, em Mariana (MG), a Samarco estuda implantar um sistema de flotação (técnica de remoção de sujeira) semelhante ao que foi testado e descartado há menos de dez anos no Rio Pinheiros, em São Paulo, para impedir que a lama de rejeitos de minério de ferro continue chegando até o Rio Doce, provocando danos ambientais e sociais.

O Estado apurou que a flotação virou a principal alternativa em análise pela Samarco depois que o projeto de construção de três diques em série ao longo do Rio Gualaxo apresentado pela mineradora foi rejeitado há menos de um mês pelo Comitê Interfederativo (CIF), criado para orientar e validar as ações de recuperação do desastre que matou 19 pessoas e deixou 1.500 pessoas desabrigadas.

A proposta de construir três diques galgáveis e filtrantes entre as cidades de Mariana e Barra Longa para impedir que a lama do Gualaxo chegue até o Rio do Carmo, um dos formadores do Rio Doce, foi feita em agosto pela Samarco. Após sete reuniões, os técnicos dos governos federal, de Minas, do Espírito Santo que compõem o comitê reprovaram a medida emergencial, alegando ineficiência.

No dia 24 de novembro, o CIF publicou uma deliberação na qual afirma que "a documentação apresentada pela Samarco foi considerada tecnicamente insuficiente para demonstrar a eficiência dos diques para a melhoria da qualidade da água do Rio Gualaxo do Norte". Segundo o despacho, "os produtos químicos propostos para serem aplicados nas bacias dos diques não possuem registro no Ibama e seus efeitos ecotoxicológicos ainda são desconhecidos".

O CIF recomendou que a Samarco apresente aos órgãos ambientais "soluções eficazes e definitivas visando a cessação dos danos ambientais na calha e margens do rio Gualaxo do Norte" que sejam "adotadas antes do próximo período chuvoso", que começa em outubro de 2017, "não sendo admitida a continuidade da poluição gerada em decorrência do desastre ambiental".

De acordo com Marcelo Belisário, superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Belo Horizonte, os três diques até poderiam reter sedimentos maiores, mas não conseguiriam impedir a passagem de partículas menores de óxido de ferro, por exemplo, que dão o tom alaranjado à água e provocam turbidez, comprometendo a vida aquática.

"Os diques do Gualaxo não são eficientes para a contenção de todos os rejeitos, principalmente para recuperação da água. Eles não eliminam o DNA da mineração que ainda está na água. E pelo prazo de sete meses para execução proposto pela Samarco (a previsão inicial era de quatro meses), eles perdem a característica de emergência", afirma Belisário. "Agora, a alternativa analisada é a da Unidade de Tratamento de Rio, da flotação, como é feito no Zoológico de São Paulo. Já existem exemplos no País de estações de tratamento instaladas no leito do rio e isso está em estudo pela Samarco", completou.

A flotação é uma técnica de remoção de sujeira que utiliza produtos químicos para agrupar os detritos em blocos e depois suspendê-los na água por meio de injeção de bolhas de ar, formando um lodo que pode ser removido com mais facilidade. O método já é utilizado há anos nos lagos dos parques do Ibirapuera e Aclimação, em São Paulo, na Lagoa da Pampulha, em Minas, e no Rio Arroio do Fundo e Piscinão de Ramos, no Rio de Janeiro.

Em 2001, o governo de São Paulo anunciou a flotação como solução para limpar o Rio Pinheiros e poder bombeá-lo para a Represa Billings, aumentando o potencial energético na Usina Henry Borden, em Cubatão. Após paralisação motivada por ação judicial movida pelo Ministério Público Estadual (MPE), testes chegaram a ser feitos entre 2007 e 2010, mas foram considerados insuficientes para eliminar todos os poluentes, como o nitrogênio amoniacal, encontrado no esgoto.

Técnica em SP voltou à pauta na crise hídrica

Início: Em 2001, o governo Alckmin anuncia projeto para despoluir o Rio Pinheiros com a flotação, mas liminar obtida pela Promotoria barra a medida em 2003.

Testes: Após acordo, testes são feitos de 2007 a 2010, mas laudos apontaram que técnica não barrava todas substâncias do esgoto. Em 2011, Alckmin desiste da ação.

Retorno: Em 2015, no auge da crise hídrica, Alckmin retoma discurso da flotação para poder captar mais água da Billings, mas ideia fica no papel após volta das chuvas.

Samarco diz que ainda analisa veto

A Samarco informou em nota que ainda está "analisando" a deliberação do Comitê Interfederativo (CIF) que rejeitou o projeto de construção dos três diques e cobrou solução definitiva para conter a poluição no Rio Gualaxo do Norte, em Mariana (MG), e não deu detalhes sobre o estudo envolvendo a técnica de flotação.

Em fevereiro deste ano, a mineradora concluiu a construção de três diques (S1, S2 e S3) nas áreas das barragens de Fundão e Santarém para tentar impedir que os rejeitos remanescentes chegassem até o Rio Gualaxo, mas as estruturas não deram conta da lama nos períodos chuvosos. Agora, constrói um quarto dique em Bento Rodrigues, distrito devastado pela tragédia.

"A Samarco reitera que já foi concluído o alteamento do dique S3, estrutura implementada para ajudar na contenção dos rejeitos remanescentes na barragem de Fundão.O dique S4, que é a última estrutura de contenção da empresa antes do rio Gualaxo do Norte, está em fase de obras e será concluído até janeiro de 2017. A empresa continuará com suas ações para contenção dos rejeitos e controle dos processos erosivos", afirmou.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação
600