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Poetas alternativos usam espaços e exibem arte por BH

Em murais, tapumes e pedaços de papel, pessoas anônimas mostram seus talentos quase sempre ousados, engajados e inconformistas

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postado em 02/02/2015 06:00 / atualizado em 02/02/2015 10:41

Jefferson da Fonseca Coutinho /Estado de Minas

Beto Magalhaes/EM/D.A Press
Com a bênção de Manoel de Barros (1916-2014), aqui, as palavras estão para escrever os silêncios. “Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”, disse o poeta morto em novembro. Quase invisíveis, versos aos montes estão espalhados pelo horizonte paralelo da capital mineira. Sob marquises e viadutos, do concreto e dos tapumes dos guetos mais improváveis, brotam dizeres que miram o que não se pode ver. Entretanto, mesmo o passante menos atento pode ser arrastado pela poesia das ruas, no sopro dos muros ou pelo vento da boca em saraus desnudos.

Isi, a desconhecida, bem perto do que foi o Rio Arrudas, na Região Central, assina o desabafo tomado emprestado do underground Parteum: “Enquanto ando pelas ruas da cidade – um labirinto que não cabe num só verso – sou parte deste universo…”. No rap, segue o que não coube na coluna de concreto armado: “… que experimenta a vida procurando três saídas para o mesmo problema”. No vaivém da multidão, em meio aos carros para todos os rumos, as linhas tortas na pilastra são bem mais que paisagem. Adiante no asfalto do Boulevard, caminha o homem da flor entre os dedos. É José de Assis.

Nos tons de cinza da cidade que urge, a solitária flor vermelha nas mãos do operário é absoluta. José de Assis é operador de perfuração de mineração. “Pode jogar qualquer tipo de martelo na minha mão que eu me arranjo”, sorri. Na folga, sentido da casa e dos mais queridos, nada de marreta na palma calejada. É hora de flor. Para quem, José? “Ainda não sei. Mas para menina mulher há de ser”, diverte-se.

Poesia boa para o operário é das antigas, ouvida quando moleque, na roça, em Inhapim, no Vale do Rio Doce. Pode não ter grande valia para os entendidos, mas era tempo em que a família estava “inteira, com mais vivos do que mortos”. Com o olho tomado de brilho revirado no passado, José de Assis recita: “Menininha bonitinha da folhinha de arroz, quero te perguntar se o amor é de nós dois”. E tome emoção.

Beto Magalhaes/EM/D.A Press
“Poesia é voar fora da asa.” É Manoel de Barros outra vez. Está escrito no viaduto. Tem também Noel Rosa no belo horizonte paralelo da cidade viva de silêncios: “Amor lá no morro é amor pra chuchu. As rimas do samba não são i love you”. Até a polícia parou para ler e ouvir a voz dos muros. A policial jovem e bonita, recém-formada, sorriu e até quis falar do assunto, mas o colega, já meio endurecido pela farda, cortou o barato: “Não podemos falar”. Ora, um pouco de poesia, senhor polícia.

Mas não há autoridade capaz de conter os ventos das letras na cidade. São muitas as vozes silenciosas da metrópole dos poetas. Para Henry Pablo, autor de Noithem, com 274 poemas no prelo, “a ficção esbarra na realidade e a realidade tempera a ficção com a acidez da vida cotidiana”. O ator e performer, à pena, busca retratar “alguns dos males da sociedade contemporânea, como: o individualismo, a solidão, a angústia existencial e o narcisismo”.

ARTE QUE SUSTENTA Elenito Duarte, o “Mestre João Pequeno”, de 44 anos, tem oito filhos. O sustento da família vem da arte nas ruas há 20 anos. Metade deles em silêncio, como estátua viva, cinzelado de mensageiro chinês, distribuindo mensagens de otimismo e poesia. Para o artista e capoeira, Belo Horizonte é inspiradora, “pitoresca e rica em nuances”. Na Praça da Liberdade, a performance do mestre, que usa o corpo para fazer poema, desperta a curiosidade dos pequenos Bryan, de 8, e Giovanna, de 7.

Ao fim do movimento, trocados na caixinha para o pão, duas mensagens de sabedoria. Para Bryan, “Olhe a paisagem, contemple as estrelas, aprecie os caprichos da natureza e colha em todos os canteiros as flores da alegria”. Já Giovanna, leu e entendeu com doçura: “Os frutos amadurecidos à força não são tão saborosos quanto os que amadurecem naturalmente”. Evaldo e Deusa, pai e mãe, aprovam o encontro dos pequenos com as palavras de sabedoria do mensageiro chinês.

A multiplicidade dos versos. A cidade viva, nua em poesia, interfere no monumento em homenagem ao escritor Rômulo Paes. Junto à célebre frase escrita no ferro “A minha vida é essa, subir Bahia e descer Floresta”, dezenas de post-it de anônimos compõem mural de recados emprestados: “Não importa onde estamos. Nossa mente é o nosso lar”. O brado traçado em caixa alta sugere: “Viva as mentes cheias! Porque o mundo está cheio das vazias”. O horizonte, belíssimo, agradece.

POESIA DE BH EM PARIS Em dezembro, a poesia de rua, da Região do Barreiro, teve um campeão nacional em competição interestadual em São Paulo. João Paiva, de 17 anos, vai representar o Brasil na Copa do Mundo de Poesia Slam, em Paris. Nas redes sociais o feito do jovem poeta repercutiu. A banda IP420 homenageou o artista: “A esse monstrão, nossa gratidão e respeito. Honrou e manteve viva a poesia, e provou que ela pode nos levar a lugares inimagináveis. A poesia sai campeã e o Mundialito na França é logo ali irmão, mas até lá, seu povo e sua morada te esperam para mais alguns goles de vida... Parabéns! À luta, à voz! À voz, à luta!”
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