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Ciclovias implantadas pela BHTrans são malfeitas e perigosas

Elas não obedecem às normas de segurança e são uma ameaça à vida de quem usa a bicicleta como meio de transporte

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postado em 03/12/2012 00:12 / atualizado em 03/12/2012 07:11

Flávia Ayer

 

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press

Atropelo na construção de ciclovias em Belo Horizonte. Com a meta de chegar à marca de 145 quilômetros de pistas exclusivas de bicicletas até o fim de 2013, a BHTrans corre contra o tempo e adota critérios controversos que desagradam a ciclistas, fogem do padrão recomendado pelo Ministério das Cidades e causam estranheza na população. Faixas estreitas, má qualidade das tintas, pistas de mão dupla em vias coletoras. Não faltam críticas ao projeto de implantação das ciclovias em BH, que na quinta-feira será tema de audiência pública na Câmara Municipal. Depois de tentativas frustradas de diálogo com o Executivo, defensores da causa buscam por meio do Legislativo respostas para entender o modelo adotado pela BHTrans e espaço para corrigir os equívocos antes da inauguração das pistas.

Na avaliação de quem se dedica ao assunto, em vez de garantir segurança, da maneira como estão sendo implementadas as faixas exclusivas deixam os ciclistas expostos a perigos. Vulneráveis ao trânsito, quedas e acidentes envolvendo bicicletas estão entre os cinco atendimentos mais frequentes no Hospital de Pronto-Socorro (HPS) João XXIII. Balanço parcial do HPS mostra que, de janeiro a julho, 736 pacientes foram socorridos em decorrência de acidentes ciclísticos. Em 2011, foram 1.229 pessoas atendidas por esse motivo, uma média de mais de três pacientes por dia.

“Do jeito que a prefeitura está fazendo, eles estão preparando o caixão para o ciclista. Estão correndo atrás de uma meta, mas de forma irresponsável”, afirma o integrante da Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte (BH em Ciclo), Guilherme Tampieri. BH conta atualmente com 36 quilômetros de ciclovias e as principais apostas da BHTrans para viabilizar a implantação de uma malha para o trânsito de bikes na cidade são as ciclofaixas, espaços voltados para as magrelas separados da pista de rolamento de veículos por pintura ou tachões.

O Ministério das Cidades, no caderno de referência para elaboração de planos de mobilidade por bicicletas nos municípios, preconiza uma série de procedimentos para as ciclofaixas. De acordo com o documento, elas são obrigatoriamente de mão única  – a exceção é para vias com tráfego abaixo de 30km/h. Além disso, devem ser construídas do lado direito da via e, preferencialmente, sem gerar conflito com o estacionamento de veículos. Essa opção é considerada a mais perigosa e, caso ocorra, a orientação é que a faixa tenha, no mínimo, dois metros de largura e nunca seja de mão dupla.

NO CONTRAFLUXO As pistas da capital mineira não só passam longe dessas referências, como contrariam os preceitos defendidos pelo ministério. É o caso da ciclofaixa que vai da Rua Fernandes Tourinho, na Savassi, entre a Avenida Getúlio Vargas e a Rua Rio de Janeiro, com 1,4 quilômetro de extensão e em fase de conclusão. A pista está situada à esquerda e é mão dupla, apesar de estar entre o fluxo de veículos e o estacionamento, em via que admite trânsito acima de 30km/h.

“Prefiro seguir devagar pelo passeio, pois não me sinto seguro para andar pela ciclovia. Toda hora tem carro passando em cima”, comenta o advogado e empresário Ramiro Maia, de 38 anos, que usa a bicicleta para ir de casa, no Bairro de Lourdes, ao trabalho, no São Pedro, ambos na Região Centro-Sul de BH. Enquanto Ramiro seguia pela calçada, o advogado Luiz Marinho de Abreu, de 65, atravessou a ciclofaixa para estacionar o carro. “Achei essa posição da pista para bicicleta esquisita e confesso que me falta o hábito para reparar se está passando um ciclista”, afirma o solícito Luiz Marinho, diante de uma Fernandes Tourinho engarrafada.

Numa desatenção combinada com imprudência, outro motorista ignora a passagem de um ciclista na contramão da ciclofaixa e invade a pista para sair do engarrafamento, prato cheio para um acidente. A mesma situação pode ser flagrada na Rua São Paulo, no Centro, trecho que integra a ciclofaixa da Rua Rio de Janeiro. A pista exclusiva tem dois quilômetros de extensão da esquina da Fernandes Tourinho até a Avenida Augusto de Lima. Na Rio de Janeiro, a pista é mão única, mas o espaço destinado ao estacionamento de veículos é estreito e leva carros mais largos a invadirem a pista. “Se os retrovisores dos carros já invadem, imagine o caminhão”, afirma o caminhoneiro Clauderson Paulino, de 37, com metade do veículo sobre a pista exclusiva.

Na Avenida João Pinheiro, trecho de um quilômetro que liga a Praça da Liberdade ao Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no Centro da cidade, as faixas de mão única, com 1,25 metro de largura cada, não contam com a margem de segurança recomendada de 60 centímetros. “A impressão é que não houve estudos da BHTrans. Essa decisão de implantar ciclovias bidirecionais em vias de maior movimento não existe. Além disso, da maneira como estão sendo construídas as ciclovias, estreitas, o ciclista fica sem espaço para desviar se houver algum obstáculo”, comenta Vinicius Mundim, coordenador do grupo Mountain Bike BH, que incentiva o uso da magrela como meio de transporte.

CICLOFAIXA

O QUE É
Espaço destinado à circulação de bicicletas separado da pista de rolamento de veículos por pintura ou pelos conhecidos tachões.

COMO DEVE SER

Mão única, no mesmo sentido da via
Em vias de pouco movimento
Situada ao lado direito da via, preferencialmente
Contramão apenas em vias com tráfego abaixo de 30km/h
A largura recomendada é de 1,2m, mais a faixa de segurança de 60cm
Caso esteja entre a rua e o passeio, a largura mínima deve ser de 2m
A ciclofaixa no contrafluxo deve ser adotada em locais onde a velocidade é inferior a 30km/h

Fonte: Ministério das Cidades

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