Transporte rodoviário atropela natureza em Minas e deixa rastro de destruição

Ar contaminado, rios com óleo e graxa, animais mortos na pista... A dependência de um precário sistema de transporte rodoviário ameaça o meio ambiente no entorno das estradas

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postado em 24/06/2012 07:05 / atualizado em 24/06/2012 07:12

Mateus Parreiras

Beto Novaes/EM/D.A Press

Menos aparente que os acidentes que se sucedem nas estradas brasileiras, a deterioração do meio ambiente no entorno das pistas é outro efeito da precariedade do transporte de cargas e passageiros no país e especialmente em Minas, dono da maior malha viária do Brasil (16% do total). Com 60% da produção nacional escoada por rodovias, o país sofre em escala maior com a emissão de gases, acidentes que resultam em vazamento de produtos químicos, descarte incorreto de substâncias por parte de estabelecimentos instalados nas estradas e mesmo atropelamentos de animais silvestres.

Os impactos podem ser medidos pelo que ocorre em Minas. De 2010 a 2012, por exemplo, 92% dos 287 vazamentos de produtos tóxicos e poluentes registrados pela Diretoria de Emergências Ambientais do Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema) ocorreram no transporte – contra 8% provocados por indústrias e outras atividades. Só o meio rodoviário respondeu por 84% dessas ameaças a rios, lençóis freáticos e ecossistemas. O quadro é agravado pela falta de adoção ou fiscalização de medidas que poderiam minimizar problemas, como mostra o Estado de Minas a partir de hoje em série de reportagens sobre o impacto do transporte sobre a natureza.

A reportagem percorreu vias estatais e privatizadas, como as BRs 040, 262, 265, 354 e 381, e em todas elas flagrou situações de degradação. Um problema recorrente está relacionado a atividades à beira das pistas, como borracharias, postos de gasolina, lava a jato e oficinas. Muitos desses estabelecimentos não destinam com propriedade seus resíduos, permitindo que escoem além de seus limites. Não há medidas tampouco para reduzir o impacto de óleos, graxas e detritos gerados por veículos que trafegam em rodovias. O resultado são estradas que se tornam depósitos para poluentes que, com as chuvas, vão parar no solo e nos mananciais que irrigam plantações e abastecem criações e moradias.

Beto Novaes/EM/D.A Press
“Estudos nossos atestaram níveis inaceitáveis para os teores de óleos e graxas em Lagoa Santa e na represa de Ibirité (cidades da Grande BH). Boa parte dessas emissões é proveniente do transporte”, exemplifica o coordenador do Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ricardo Motta Pinto Coelho. De acordo com o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), 2% de todos os rios mineiros apresentaram teores acima do tolerado para óleos e graxas no primeiro trimestre do último ano.

Embora localizada em área urbana, a Lagoa da Pampulha é usada como exemplo pelo especialista da UFMG para ilustrar efeitos do transporte: as análises detectaram até 12 miligramas de óleos e graxas por litro de água (mg/l). O Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) considera que mananciais de níveis 1 a 3, que são próprios para contato humano, não podem ter qualquer concentração desses poluentes. Em pontos da Lagoa Central, em Lagoa Santa, foram detectados níveis de 15 a 17mg/l. Para se ter ideia do comprometimento do manancial, o Conama considera que as emissões de esgoto não devem passar de 20mg/l de óleos e graxas sem tratamento.

Gases

A falta de fiscalização também agrava problema de emissões de pó e gases. Em Minas, os veículos não são obrigados a fazer inspeções de controle de suas emissões e, por isso, muitos trafegam desregulados e despejam fumaça nas ruas. Outro problema é o transporte de minério. Em Congonhas, na Região Central de Minas, o Ministério Público já conseguiu na Justiça liminares para obrigar mineradoras a melhorar as condições de transporte.

De acordo com relatório da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), o transporte emite 47% do dióxido de carbono do país. O setor rodoviário é responsável por 90% dessas emissões. “O principal problema do transporte é a emissão de gases”, indica o doutor em engenharia de transportes e diretor da consultoria ImTraff, Frederico Rodrigues. “É preciso buscar modos menos poluentes e mais eficientes. Por exemplo, o modo ferroviário é mais eficiente do que o rodoviário”, sugere.

Lado mais fraco na busca por espaço nas estradas, animais silvestres também são ameaçados. Só este ano, mais de 500 animais foram recolhidos mortos de estradas federais que cortam Minas. São vítimas de motoristas que, em muitos casos, excedem a velocidade permitida ou que, por falta de placas, trafegam sem saber que estão em áreas de preservação.

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