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Estado de Minas NATUREZA ATROPELADA

Pó de asfalto causa doenças e revolta

Aglomerados urbanos também sofrem com rastro de poluição das rodovias


postado em 27/06/2012 06:00 / atualizado em 27/06/2012 06:37

Floreni Lisboa mostra lençol sujo pela poeira preta gerada pelo grande movimento de veículos no Anel Rodoviário(foto: LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS)
Floreni Lisboa mostra lençol sujo pela poeira preta gerada pelo grande movimento de veículos no Anel Rodoviário (foto: LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS)

A ajudante de serviços gerais Floreni Lisboa de Ávila, de 41 anos, começou o inverno aflita. O filho de 16 anos precisou duas vezes ser levado para o médico, com “peito cheio” e dificuldades para respirar. “É essa praga de rodovia que passa aqui e não dá sossego com a poeira um dia só da nossa vida”, reclama a mulher, fazendo referência ao Anel Rodoviário que passa bem abaixo da sua área de serviço, no Bairro Madre Gertrudes, na Região Oeste de Belo Horizonte. Ela já não sabe mais o que fazer. Se deixa a casa aberta, o pó entra e suja tudo. Se a fecha, o filho tem longas crises e precisa ser medicado com urgência no posto de saúde local. “É uma tosse daquelas de cachorro, uma coisa horrível. Parece que o peito dele vai arrebentar”, descreve.

Os impactos da poluição que assoreia rios e o tráfego que vitima animais silvestres nas estradas não ficam relegados a essas longas distâncias que perpassam áreas de proteção ambiental. Grandes aglomerados urbanos ligados por essas vias sofrem impactos que refletem na piora da qualidade de vida e da saúde das pessoas, como a ajudante Floreni. De acordo com o presidente da Sociedade Mineira de Pneumologia da Associação Médica de Minas Gerais, Maurício Meireles Goes, as emissões de partículas sólidas saturam o ar e causam problemas em pessoas que têm bronquite, asma, enfizema pulmonar e outros tipos de doenças respiratórias. “Temos visto que as pessoas que vivem em áreas poluídas, próximas de rodovias movimentadas, apresentaram agravamento ou descontrole dessas doenças. Pessoas com fatores genéticos expostas a ambientes poluídos pela fumaça veicular podem desenvolver doenças respiratórias que não tinham”, alerta.

A reportagem do Estado de Minas distribuiu três lençóis brancos novos a moradores de grandes vias que ligam o transporte rodoviário a BH e pediu para que as pessoas os estendessem em suas janelas e varandas por uma semana. As peças brancas ficaram penduradas em residências da Via Expressa, em Contagem, na Grande BH, na Avenida Amazonas e no Anel. A peça que se mostrou mais encardida foi a da casa da ajudante de serviços gerais Floreni. Os fios que antes eram alvos ficaram cinzentos nesses sete dias. “Aqui é assim mesmo. A gente fica pensando como é que fica o nosso pulmão”, imagina.

De acordo com Maurício Meireles Goes, as partículas sólidas despejadas pelas descargas de fumaça são inaladas e, no pulmão, acabam “filtradas”, formando uma barreira para proteger o organismo de produtos estranhos e tóxicos. “Esses componentes provocam reações inflamatórias que culminam em piora de quadros já existentes ou em doenças”, afirma.

Até as recomendações comuns dos médicos ficam prejudicadas em casas em locais poluídos. “É um paradoxo. Costumamos recomendar que as pessoas fiquem em locais arejados. Só que se o paciente fizer isso, se expõe à poluição. Se fechar, piora. Se abrir, piora também. A solução é as pessoas saírem do local, afugentadas pela poluição”, admite o médico.
 


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